A Lenda de Venafelyn · Capítulo 1 de 9
Prólogo — Venafelyn
por AlkhamPublicado
História Escrita por:
Prólogo: thfdgj
Primeira Estrela:
Meu nome é Venafelyn, e foi eu mesmo quem o escolheu.
“Lyn” que é o nome adotado por todos os grandes ca´elestibus e “Vena” que vem do nome da minha desejada, e que significa “Chama” ou “Luz”, ou também “Ardor” e “Perdição”.
Mas também tive muitos outros nomes.
Promestan, o deus do fogo, disseram os homens que viram minha gloria. Luna-rhal, o Senhor das Luzes de Gion, clamaram os elderes ao contemplarem minhas obras. Valcon, o Badalar das Chamas, pelos gannaios que testemunharam meu poder. Mas talvez, nestas novas eras, me conheçam por nomes menos dignos que estes.
Ainda assim, permaneço Venafelyn, porém não me provoca a ira chamarem-me de o Forjador das Estrelas, pois realmente eu o sou.
Meu nascimento, assim como o de todos os seres de minha geração, é um mistério do qual pouco sei. Mas, deste pouco, duas coisas posso dizer.
A primeira, é que eu existo a mais tempo do que seria possível mensurar. Já a segunda... bem, é apenas uma lembrança. A primeira que tenho, na verdade...
Primeiro Ciclo da Primeira Existência;
Era do Surgimento Ca'elestibu.
Do fogo. Da terra. Do céu. Surgiram.
“... meus olhos se abriram, e tudo era vazio.”
Num branco tão intenso que titubei, desequilibrando-me para o lado. Senti que alguma parte de mim, sem nem uma ordem consciente, movimentava-se na mesma direção em que eu ia. Eram minhas mãos, que se firmaram em algo denso, evitando a queda. Depois de firme, olhei para aquele milagre, e desejei tê-las perto de mim. Elas se aproximaram, e as contemplei, pasmo. Eu não sabia o que eram, nem de onde vieram, nem porque estavam ali. Mas de uma coisa eu soube, — ainda que naquele momento os conceitos para expressar isso me faltassem — eram minhas. Somente minhas, e possuíam um poder tremendo para o certo ou para o errado — um conceito que, creio, sempre esteve comigo.
Mas minha admiração pessoal se foi, como se vão todas as coisas criadas, e vislumbre algo novo, mas que, no entanto, estava ali antes de mim. Era colorido em milhões e milhões de tons diferentes, alguns leves como sussurros, outros, como o grito de quem exige não ser ignorado. Era o mundo, e ele cheirava a novidades.
Tinha o azul, o verde — ah, como era verde —, mas também o dourado e o vermelho... e tantos e mais tantos. Em um festival de tons, sons, odores, sentidos... Extasiante! Nada houve ou haverá tão belo quanto aquilo. A Primeira Existência. A obra-prima do Supremo Feosmur.
Eu a amei desde a primeira vista. Como jamais amaria novamente coisa alguma.
Veloz, minha mente foi absorvendo cada um daqueles conceitos. Vi que o lugar onde minhas mãos se firmaram era grande, e, no entanto não mais que eu — era uma montanha. Vi que o verde era belo, mas também não mais que eu. Vi que aquele azul que descia montanha abaixo, jorrando-se em pequenas partículas, logo se juntando a algo ainda mais azul, grande e distante — o mar —, era também muito belo, mas também menos que eu. E espantei-me com isso.
Mas meu espanto se foi, como vão todas as coisas, e logo algo novo atraiu minha atenção. Naquele azul que se estendia para cima, encontrei a fonte de todos aqueles variados tons. A fonte do azul assim como do verde e do marrom e, principalmente, do dourado.
Havia algo de poderoso que brilhava nos céus, enorme e reluzente. Tentei dirigir meu olhar para lá, mas fui repelido e, ofuscado, tombei sobre a montanha, deixando-a em migalhas.
Tentei usar minhas mãos, como antes fizera sem querer, mas dessa fez elas foram lentas. E, antes de firma-las, algo em meu dorso ergueu-me. Houve um impulso rápido. Fiquei de pé e foquei-me a procurar o porquê disso. Olhei para baixo e senti uma nova sensação, alegre, leve. Sublime! Nem minhas mãos, nem meus obedientes pés. Asas! Este foi um dos conceitos que logo aprendi.
Às vezes eram duras como aço. Outras vezes vibrantes como um manto ao vento. Mas eram sempre brancas, semelhantes à espuma do mar, e mais confiáveis que qualquer amigo ou servidor que eu viria a ter. Minha primeira ordem, obviamente, foi para que me levassem a fonte daquele poderoso resplendor que a um só tempo me atraia e repelia.
Elas obedeceram como eu sabia que fariam. Então os tons verdes se afastarem de mim, ao mesmo tempo em que o azul que ficava acima aumentava, assim com também aumentava o dourado. Meus olhos há tão pouco abertos, adaptaram-se ao distante, mas potente, reluzir dourado. Entretanto, de acordo com que me aproximava, meus olhos iam começando a arder. Foi a primeira vez que senti a dor. Era ruim. Era amarga. Maligna, sem dúvida. Mas não o suficiente para me impedir de alcançar minha desejada. A sensação de ardência, que a principio somente tomava conta de meus olhos, foi se expandindo por todo meu ser enquanto o dourado cintilante se tornava mais perto. E mais perto. Mais perto...
Então a alcancei.
E pude lhe contemplar em toda sua devida glória. Dourada e vermelha, numa potencia de mil vezes mil estrelas, brilhava mais que tudo. Ofuscando. Radiando. Era o belo e terrível flamejar dourado da primeira estrela.
Já vi mundos serem explodidos por forças impensáveis. Assim como também já vi universos inteiros rasgarem-se como um fino tecido em bilhões e bilhões de estilhaços sobre o vazio, diante da fúria de deuses e antideuses. Estrelas se partirem. Deuses se curvarem. E filhos da morte lamentarem por suas vidas. Mesmo assim digo, sem mentira, que naquela momento nada se comparava a glória dourada das Cem Luminárias da Primeira Existência que se prendiam em Vena, orbitando, indo e vindo de todos os arredores do mundo. Iluminado-o com sua gloria dourada.
Mas tudo se vai com o tempo... e depois da glória, despenquei.
Como um trovão de fogo, precipitei-me contra o solo do Primeiro Mundo e fui cravado em uma enorme fenda, de onde logo me ergui — ileso embora inconformado — e voltei minha em face á contemplar Vena.
Civilizações se ergueram, lutaram, conquistaram e pereceram em mesmo tempo do que o que fiquei a contemplar Vena. Por milênios estive a dedicar minha admiração unicamente a Vena. E por lá ficaria...
Mas certo dia uma novidade aconteceu...
Um Drayno Chamado Fogo:
Terceiro Ciclo, da Primeira Existência;
Era da Dúvida.
"Conta-se que da inveja surgiu à dúvida... Da dúvida o rancor."
— E você? Como se chama, jovem ca'elestibu? — Pela primeira vez ouvi a voz de alguém, e supus se era Vena que me vinha visitar, pois essas palavras eram claras e flamejantes como sempre imaginei que seria a voz de minha desejada, mas não era ela...
Ao olhar em direção de quem falava, vi dois, e não um, a me fitarem com seus olhos que eram semelhantes a pequenos sóis.
Os de um eram da cor escarlate de um puro fogo. Os do outro, azuis como distantes estrelas.
Não entendi aquilo.
Não compreendi de maneira alguma como algo além de mim e de minha admirável Vena poderia ser tão pulsante, tão poderoso, como aqueles dois estranhos.
E assim, pela primeira vez, dediquei minha admiração a algo além de Vena.
Contemplei-os...
O primeiro era fogo. O puro e pulsante ardor de um vulcão em toda sua potência contido por uma grossa armadura natural formada por suas escamas — que eram como placas de fogo cristalizados, impenetráveis.
O segundo, uma estrela brilhante, infinita em seu luzir azulado. Ele também era fogo, mas não puro, nem tão grande quanto o primeiro, como seria de se esperar de alguém que era apenas o segundo.
Havia algo, distante mas essencial, dentro de mim, dizendo-me que, de alguma forma, eram como eu. A dessemelhança física, porém, falava o contrário.
Mas não tive medo. Nem espanto. Minhas mãos não se ergueram para ataca-los.
Foram meus lábios que primeiro se moveram: queriam falar. Algo assim me era estranho. Porem os comandos mentais já estavam em mim, irrequietos, ansiosos por proferirem suas primeiras frases.
— Venafelyn. — falei afinal, e surpreendi-me tanto com o nome dito quanto com o som que se emanou de mim. — Eu sou Venafelyn.
— “Vena... felyn” — repetiu o Primeiro. — Mas é mesmo um belo nome. Vena não poderia estar mais lisonjeada. Vê, hoje mesmo ela está mais radiante do que nunca. Pois todos os dias eu mesmo a contemplo, e jamais a vi tão bela quanto hoje.
E foi grande minha alegria ao ouvir isso.
— Mas e vocês, como se chamam? E o que são? Jamais vi criaturas como vocês.
Vi muitas criaturas enquanto contemplava Vena. Criaturas grandes e pequenas. Criaturas belas e terríveis. Mas nada se comparava a mim ou aqueles seres. Havia mais curiosidade em mim do que qualquer outra coisa.
— Meu nome é Sutangi, — respondeu — pois sou o verdadeiro filho do fogo. Mas também gostam de me chamar de Dragão. Nós somos draynos, o segundo povo do Supremo Feosmur.
Ninguém, além de mim, viu aquelas chamas que iluminavam os olhos do companheiro de Sutangi passarem do azul ao negro, e depois retornaram ao azul, em instantes. Ele entreabriu as mandíbulas apenas o suficiente para mostrar presas afiadíssimas, então as fechou novamente... Sutangi o encarou, esperando que dissesse algo. Ele não disse nem fez menção de que iria fazê-lo.
Sutangi voltou-se novamente para mim:
— Este é meu consanguíneo. Um bom amigo, você verá. Infelizmente, não gosta de falar com desconhecidos. E acha que nosso povo não deveria se relacionar. São ideias estranhas essas e...
Sutangi parou de falar ao perceber que eu não estava entendendo nada.
Era algo que ainda não conseguia entender. Pensei nisso por um tempo, mas antes de chegar a uma conclusão, fui interrompido.
— O ca'elestibu ainda é imaturo demais para entender, meu senhor — disse o outro também percebendo minha confusão. Sua face, inexpressiva, fitou-me por um breve momento, depois, dando as costas, partiu, deixando apenas Sutangi a me encarar. Nunca entendi o porquê, mas Drongodur sempre foi assim. Duro e inalcançável, tanto física quanto mentalmente. Nem Vena era tão distante. No futuro, viria a descobrir que até mesmo ela era um fiapo se comparada áquele ser...
Por fim, depois de um longo tempo calado, fitando a silhueta de seu companheiro desaparecer entre as nuvens, Sutangi disse:
— Vamos, Venafelyn você tem de vir conosco. Tenho certeza que seu povo ficará interessado em conhecê-lo. Os Senhores Celestiais irão lhe ensinar tudo o que você não foi capaz de aprender sozinho. Será uma longa jornada, mas se você viver corretamente há de ser recompensado...
Sutangi soltou uma baforada de ar, encarando novamente as nuvens em que o outro drayno havia desaparecido, pensativo, e concluiu quase num suspiro:
— Você teve sorte, jovem Venafelyn, por ter nascido ca'elestibu. Nós não tivemos essa sorte... Ser ca'elestibu é o primeiro passo para se viver corretamente. Sempre lembre disso...
Ouvir aquilo me fez refletir por um tempo. Mas não tinha informação suficiente para compreender o aquele estranho queria dizer com aquilo. Não naquele momento. Até então eu me orgulhava comigo mesmo acreditando ter recolhido um grande conhecimento sozinho, mas a visita daqueles estranhos abria novos horizontes. Ainda havia muito a aprender.
Em um último vislumbrei, contemplei Vena, como se temesse que ela tivesse fugido durante aquele curto período. Mas, não. Lá estava ela; bela e eterna. Não iria cair. Não enquanto o mundo perdura-se. E o mundo... bem, ele deveria durar para sempre...
Então comecei abrir as asas enquanto ia na direção do drayno que me guiaria até meu povo, e que talvez fosse o primeiro de sua espécie. Ou talvez não.
Quem poderia saber? O mundo era jovem. A Existência era jovem. Eu mesmo também era. Tudo o que sabia era seu nome...
Sutangi, Dragão. O primeiro a pronunciar esse nome em toda a Existência.
Ele o dissera com o orgulho de um soberano.
Ele era o Dragão.
E isso talvez não fosse um elogio...