A Lenda de Venafelyn · Capítulo 2 de 9
0.1 — A Primeira Chama
por AlkhamPublicado
[Chama:]{.underline}
***
[Era da Ascensão do Último Dragão:]{.underline}

Primeiro Ciclo, ano 0 a 1555, da Terceira Existência,
Império do Trono da Coroa de Gion.
Ora, estas foram épocas más em Gion, a morada da vida, dos
mundos, das grandes estrelas de Venafelyn e das muitas raças efêmeras da
Segunda Existência. Milênios e mais milênios houveram se passado desde a
Era das Auroras de Gion. Os Senhores das Auroras já haviam sido
destronados --- expulsos para além do visível, --- e novos deuses
tomaram seus lugares.
Existiam demônios rondando os mundos, rasgando a carne de
seus habitantes e devorando suas vidas. Os filhos imperfeitos do Dragão
atormentavam e reprimiam qualquer tentativa de possuir esperança. E
cinco eram seus lideres. Filhos do sangue próprio Dragão.
Nessa época já havia noite em Gion, cheia de todos os medos
possíveis e até impossíveis de se conceber. E quando estas horas
chegavam, as mães colocavam seus filhos a dormirem com todo o carinho,
pois bem sabiam que tão certo quanto à chegada do sol seria a da morte
de seus filhos. Nesta ou na outra noite.
Era a época da coroação de Tróne Theón. Do domínio dos
semideuses, os áureos. Era época em que Draynos e Ca´elestibus já não
mais guerreavam --- pois já haviam sido extintos quase completamente.
Fogo e ira de Drakóus Trógon, o último e maior de todos os
antigos dragões, alçavam-se por sobre os mundos visíveis. E mesmo entre
Senhores das Auroras restava apenas um com força suficiente para erguer
a espada.
E nessa época ainda se ouvia o seguinte:
--- Cuidado! Cuidado, mortal! --- diziam os poucos que tinham fôlego
para tal --- Pois o Dragão destrói e depois empilha mundos, como a
ceifeiro faz com frutas maduras, e depois os guarda para uma refeição
farta e a muito aguardada.
E outros:
--- Eis que ai vem teu opressor, ó vivente! --- clamavam --- Eis que ai
vem o Dragão, a destruir a Existência com seu fogo estranho. E aquele
que escapa as negras chamas do Último Dragão, certamente não escapará
aos ardis do Deícida.
E quando os mortais, os mundos, e toda a existência visível se
aquietaram ante a ira de Drakóus Trógon, e houvessem poucos que não
louvassem o Tróne Theón, então as asas do Último Dragão se fecharam e o
seu hálito já não incendiou os mundos.
Então Trone Theón, viu que toda a existência visível era sua e de
ninguém mais. Assim, satisfeito, com seu completo governo adotou um novo
nome e identidade para si e para seu berserker. Ylnurduion, a Perfeição,
eles se chamaram. E foi tido como sagrado, por todos os seus servidores.
Drakóus Trógon, o último dos dragões, chamou-se de Trono de
Gion, e muitos temeram seu poder e ira. E sua vontade se espalhava pelos
mundos de Gion em forma de aspectos. Tróne Theón se intitulou a Coroa de
Gion, e perante sua vontade se curvaram todos os deuses que vincularam
sua vontade e desejos para com ele. E Ylnurduion se assentou entre os
dois mundos estilhaçados pela fúria louca dos antideuses, Helcrân e
Nelkran, no centro do universo imperou por um milênio e meio.
Ylnurduion, assentado no centro de Gion, viu que toda a
existência visível lhe pertencia, mas ainda lhe faltava algo mais.
Pensamentos estranhos ressurgiram na mente de Tróne Theón. Pensamentos
antigos. E desejos não realizados...
Tróne Theón então deu a Rasgranar, seu mais fiel seguidor, todo o
domínio de Gion e partiu para seu santuário nos Mundos Estilhaçados de
onde nunca mais foi visto por olho algum...
***
[Ciclo dos Deuses da Nova Era:]{.underline}

Rasgranar tornou-se o maior entre os deuses. E foi chamado de
Lorde do Trono, Príncipe da Coroa de Gion, deus dos deuses e dos
imortais. No planeta Lostath estabeleceu seu trono, e somente quem por
ele passasse poderia chegar ao santuário de seu deus. Mas isso jamais
aconteceu.
Iniciou-se, então, uma nova era. Do Império dos Deuses.
Dragões se tornaram mitos, draynos nada mais que bestas selvagens de
eras perdidas. Venafelyn, o Forjador das Estrelas, derradeiro dos
Senhores das Auroras, personificava o sacrilégio dos primeiros deuses. E
seu titulo era maligno. Os semideuses áureos vagavam pelo Vazio Entre
Estrelas conquistando reinos e mundos a mando de seus senhores, e os
mortais os temiam tal e qual a presa teme seu predador. Até mesmo os
grandes terrores da Segunda Existência haviam sucumbido ante a força
unida dos deuses, e já não haviam antideuses ou Almejadores do Caos para
atormentarem os mundos. Eram os deuses salvadores e atormentadores da
existência..
***
[Lenda de Promestan:]{.underline}** **
Segundo Ciclo, anos T.E.
Era do Império dos Deuses.
"E havia mais horror em blasfemar o nome de Rasgranar do que de seu
soberano, Tróne Theón.

Flutuando para além da orquestra do desespero, Venafelyn, o Forjador das
Estrelas, contemplou Gion; os mundos, seus habitantes, e viu que,
inegável como chegada da noite, era que tudo estava errado.
Os mortais louvavam a seres que se proclamavam deuses. Prestavam
cultos e oferendas, tributos de sangue e de carne. Faziam atitudes
atrozes em nome deles.
Um planeta, um ínfimo planeta habitado por homens, lhe chamou a atenção.
Chamava-se Lutinavel. Pequeno e fraco, governado pelo falso deus dos
Avantu.
Intrigado, Venafelyn desceu aos reinos dos homens na esperança
de testar a capacidade dos mortais...
Levou-lhes o fogo para esquentar seus frios corações, e
mostrar-lhes que havia calor fora das labaredas do halito dos filhos do
dragão. Fogo feito por suas próprias mãos. Ensinou onde encontrar o
metal, assim como a arte de molda-lo, para que suas frágeis existências
encontrassem abrigo em meio à selvageria implantada pelos servos de
Avantu. Deu-lhes ciências. A escrita, o canto e a melodia. Venafelyn os
ensinou a manipular os fluxos da existência, e eles controlaram poderes
que jamais cogitaram, nem mesmo em seus delírios mais loucos.
Promestan, o deus que trás o fogo benéfico, disseram
eles.Venafelyn, porém, recusou este título.
Tamanho foi seu esforço para com os mortais, que chegou a acreditar
que nunca mais ergueriam louvores aos falsos deuses. Ele lhes ensinou
sobre Feosmur, o Criador, que materializou toda a Existência a partir da
divisão de seu reino invisível. Que lançou os fluxos de Essência Primeva
sobre os mundos materiais.
Então, Venafelyn retornou para seu lar, recluso no Vazio Entre
Estrelas que muito se eleva pelos arredores de Gion e seus mundos. De lá
voltou a contemplar as obras dos mortais, e ficou satisfeito ao perceber
que os homens progrediam. Que conseguiam abandonar seus esconderijos,
onde reclusos nas sombras haviam por milênios a fio se escondido da
pesada sombra de seus opressores.
Os homens, imbuídos de armas conseguiram se voltar contra os males da
Existência.
Impérios e reinos se ergueram da barbárie, assim como nações e países se
elevaram em meio ao caos, e os mortais criaram seus próprios domínios.
Surgiram os primeiros grandes lideres dos homens de Lutinavel. Reis e
rainhas que governaram com cetros de ferro e bronze. Mas estes eram
humildes governantes, como era de se esperar de um povo a pouco erguido
da completa barbárie e que se lembravam com vivida memória de Venafelyn.
Seus filhos também se lembraram, assim como os filhos de seus
filhos... Mesmo de longe a ira de Venafelyn foi suficiente para impedir
que os servos dos falsos-deuses que ousassem barrar o progresso de
Lutinavel.
Mas todas as coisas se vão, como dizia Venafelyn, que aprendera
isso com a curta existência dos mortais, dos mundos e até dos universos.
E logo velhas gerações se vão e novas gerações vêm, e como ditam as
sinas, os bons procedem aos maus e os maus os bons. Dos primeiros reis,
logo surgiram descendentes que não conheciam o responsável pelas glórias
dos reinos de seus pais. E mais e mais foram se afastando da vontade do
Criador e de Venafelyn. Mas, em linha contraria, foram se reaproximando
do desejo dos falsos deuses, a quem voltavam a louvarem como se fossem
seus verdadeiros deuses.
E a partir dali Venafelyn passou a observar tudo o que houvera
feito pelos homens com maus olhos.
Com sua dádiva do fogo; fizeram incêndios sobre os acampamentos de
seus rivais. Com os metais construíram espadas que não atentavam contra
Avantu, mas sim á favor dele. Lanças para guerras. Espadas para seus
irmãos. Eles tiravam sangue de sua própria gente a mando do falso deus.
Setas para arcos, de modo que nem de longe a morte seja evitada, e toda
espécie de instrumentos malignos. Nem mesmo as ciências e saberes que
foi lhes dada foram capazes de aplacar a sede de barbárie que corroia
suas mentes. As usaram para conquistarem outros reinos, para encontrarem
maneiras engenhosas e inovadoras de matarem seus iguais, para escreverem
livros de louvores a Avantu e a Unurdan, a quem voltaram a chamar de
senhor.
E Venafelyn os viu como se fossem animais selvagens, vagando
para lá e para cá, sob o comando do falso Avantu. Bandos deles. Até
piores do que antes da sua visita.
Eram como alguém que ao ser ferido por uma lâmina invés de
atira-la, beija-a com lábios cortados e em sangue.
A crueldade daqueles que se fingiam de líderes foi o que mais
chamou sua atenção. Estes eram verdadeiros tolos, arrogantes e
mesquinhos. Canibais de sua própria gente, loucos que se transvestidos
de reis e rainhas. Governantes cujos reinos eles mesmo destruíam,
devorando até a última esperança de justiça.
E o caos do desgoverno dos homens soava como uma orquestra de
pesadelos e horrores tocada pelo próprio Antideus. Sempre subindo em
mais e mais desarmonia de clamores e suplicas que nunca seriam
atendidas...
Venafelyn novamente desceu aos reinos dos homens...
Em uma tormenta de fogo, Venafelyn retornou a Lutinavel.
Dessa vez em nada se assemelhou a um deus de paz ou um
mensageiro de bons tempos. Erguendo sua estrela da manhã, o Senhor das
Auroras prometeu quebrar o crânio de reis e esmigalhar a coroa e a
rainha ao mesmo tempo. Afrontar a autarquia dos falsos-deuses, do Trono
e da Coroa.
E assim mesmo ele fez, e em nada se arrependeu, pois, a cada
rei que aniquilou; dez mil escravos libertou. A cada império que
devastou; outros se libertavam do julgo dos iníquos.
Sua face ardeu em chamas, e suas asas queimavam como sóis. As
mãos flamejantes ostentaram o poder do fogo solar enquanto todo seu ser
ardia nas chamas de seu poder e fúria. E os falsos deuses se reviraram
inquietos em seus respectivos tronos quando Venafelyn aniquilou dezenas
de milhares de seus servos.
E o falso, o ardiloso, astuto maquinador de maldades, perverso
mestre da servidão que há muito fora como Venafelyn. Que há muito fora
chamado de irmão pelo Senhor da Aurora, colocou-se em tormentas de cinza
e neblina entre Venafelyn e seus objetivos. Avantu VentoVil, grande
lacaio da Coroa e do Trono, trajou sua armadura completa e empunhou o
vento como se fora uma foice e, caminhando sobre os ares, marchou para o
duelo.
E Venafelyn jamais o recusaria.
Por dias os céus se mantiveram furiosos devido o estrondoso
encontro entre os poderes do Senhor da Aurora de Gion e o deus da nova
era.
Durante uma semana as chuvas foram escassas. E quando desciam,
eram ora em tempestades furiosas, ora em gotas de fogo que despencavam
como o suor do esforço de Venafelyn, ou da ira de Avantu Ventovil.
Então Venafelyn fez que os ventos tornassem-se fogo ao seu redor.
Que os ares fossem chamas devoradas. E os céus se transtornam com o
poder. Agarrou o Falso com uma das mãos e, com a outra, acertou-lhe a
forma material em uma estrondosa pancada de sua estrela da manha.
E foi tal qual a queda de uma estrela que Avantu, o caiu sobre a
superfície de Lutinavel, débil e impotente.
Venafelyn, com o fogo e chamas, materializou correntes, e aprisionou
seu inimigo derrotado como se fosse o mais vil escravo mortal. Por anos
arrastou o falso-deus através de um laço pelos reinos dos homens.
Humilhando-o a vista de todos os viventes. Como um cão esteve o antigo
tirano nebuloso. E os mortais viram isso com assombro e souberam que ---
assim como seus reis, rainhas, líderes e chefes ---, os que se
consideravam imortais também eram punidos pelos seus erros.
E depois de muito tempo marchou até os portões da fortaleza do
opressor derrotado. Lugar onde antes Avantu Ventovil exercera sua
tirania naquele mundo.
E, em meio aos trêmulos servidores do falso deus, Venafelyn
andou. O ar ao seu redor ia explodindo em chamas douradas. Sem temor
algum, contemplou o covil de servos do Falso. E muitos destes
cercaram-no, abismados com o farfalhar tempestuoso das suas quatro asas,
receando em atacar. Conscientes do escárnio de seu deus aprisionado.
Diante de príncipes áureos e generais draconianos, de traidores
de suas espécies, de senhores e de escravos, de milhares de servidores
da Coroa e do Trono, Venafelyn ergueu o falso-deus pelos pés e, com sua
estrela da manhã, esmagou a elmo e o crânio de Avantu, jogando o cadáver
em frente os portões de sua própria fortaleza e o incinerando com o
eterno Fogo do Dragão. E seus servidores acovardaram-se com um medo
jamais visto. E ao verem a essência de vida de seu antigo senhor brilhar
nas mãos do Senhor da Aurora, fugiram como se estivessem diante da
própria desgraça. Assolados pela visão, jamais se esqueceram do horror
daquela imagem.
Esconderam-se longe do alcance da arma de seus temores,
distantes da presença esmagadora de Venafelyn. Refugiaram-se em terras
distantes, longe do terror de Venafelyn. E a partir daquele dia,
Venafelyn foi chamado por todos os servos do Trono e da Coroa de
Anaantanha, o assassino do deus. Os homens souberam que seus deuses
morriam assim como eles, e os passaram a chamar de falsos deuses.
E com a morte de Avantu e a expulsão da maioria de seus seguidores, os
domínios de Lutinavel foram reorganizados. Dos muitos domínios esparsos
e conflituosos, apenas seis reinos, conhecidos como Reinos Libertos de
Lutinavel restaram. Tabya, foi o maior deles, estendendo-se desde as
ruínas ancestrais ao sul de Lutinavel, onde Avantu foi tombado, até o
norte. Sozinho tinha metade do tamanho dos restantes.
Wihiaz embora não possuísse uma grande extensão, era famoso por possuir
homens capazes de realizar feitos impensáveis. Esses homens se chamavam
esse dom de Maniprestia. Eram descendentes daqueles homens que Venafelyn
há muito ensinara a manipular Essência Primeva, a força invisível e
eterna que rege toda a criação. Em Wihiaz até os reis eram manipresto.
O Reino de Turadyca era menos dedicado a prática da maniprestia.
Seus governadores preferiam o progresso tecnológico, construindo enormes
monumentos e edifícios, forjando metais, pedras preciosas, e aprendendo,
sempre que possível. O máximo que se relacionavam com a maniprestia
era na transmutação dos elementos.
Mupar era o mais rico, com a mais famosa linhagem real. Há muito
tempo uma de suas rainhas havia se casada com um lorde elderen dos
Reinos de Ferro de Umdo, e desde então as relações entre os dois reinos,
e consequentemente, entre os dois mundos --- Umdo e Lutinavel --- se
tornaram fortes. Em Mupar havia um Portal Entre-Mundos que se ligava
diretamente com os Reinos de Ferro.
Brawo, que fazia fronteira com Wihiaz e Tabya pouco tinha a se
envergonhar comparada as duas. Apenas seu tamanho, que era um pouco
menor. Lopsu, o Reino das Montanhas, era o menor entre os cinco. Embora,
devido as riquezas minerais da região, tivesse seu próprio monopólio.
E, no curto período que prosseguiu aquela insurreição, houve
paz nas regiões que passaram a serem conhecidas como Reinos Libertos de
Lutinavel. Serena e agradável quietude na pequena parcela livre de um
dos muitos domínios da falsa Coroa de Gion.
Mas curta foi sua alegria --- curtíssima como a vida dos mortais.
Logo viu o resultado de seus esforços, e entristeceu-se. Tal como a água
escorre, lenta e seguramente, das mãos de quem tenta captura-la, também
a satisfação de Venafelyn escorreu de seu espírito.
Todas as coisas se vão com o tempo, repetia um persistente alerta.
Aqueles escravos e oprimidos libertos das mãos dos reis que ele
havia destronado apressaram-se em tomarem os tronos para si. E novos
tiranos surgiram sem demora a oprimirem seu povo com ferocidade
renovada. Apressados em devorarem os deleites e alegrias daqueles que
estavam abaixo de si.
Vermes que se erguem apenas para pisarem os que permanecem na lama,
pensava ele.
Sim, eles o temiam. Sim, reverenciavam-no. Quem jamais disse
que não o chamaram de deus? Em Tabya, homens tentaram erguer estátuas
para ele --- como ele fosse algum falso deus que exige ser louvado! Em
Wihiaz, passaram a surgir cultos em sua homenagem.
Muitos o chamavam de grande senhor que trouxe a devastação ao governo
dos antigos tiranos. No entanto, eles mesmos não percebiam que se
tornavam cada vez mais em novos tiranos? Ficou claro que odiavam Avantu.
E ainda mais que o invejavam --- afinal que mais desejariam senão isso?
Por muito tempo os mortais estiveram sob o linear da ira de
Venafelyn, porém, por um tempo, não interferiu em mais nada. E raramente
voltou a empunhar sua estrela da manhã, exceto para devastar algum servo
remanescente de Avantu. Dedicou-se, porém, a procurar um escape, com o
empenho de um médico procurando a cura para uma doença.
Assentou-se sobre a Montanha Jarven, uma das mais altas daquele
mundo de homens, e lá ficou a contemplar a violência e a opressão. De lá
ele viu o ódio transbordar desde os corações mortais até suas mãos e das
mãos até as espadas e destas ao sangue derramado. Viu que a crueldade
era sempre mais fácil de querer e de realizar. Com facilidade viu o
erro, mas apenas com grande esforço e, em raras vezes, o altruísmo, e o
acerto. E mesmo assim encontrou algo de orgulho ali.
[Os Cinco:]{.underline}
Em uma forma menor, Venafelyn percorreu canto a canto de
dezenas de mundos, e então encontrou cinco pessoas que, por sorte, acaso
ou destino, poderiam servir ao seu propósito.
Ayran era uma bela mulher da nobreza do reino de Mupar, ao
leste de Lutinavel. Era uma pessoa integra temente ao Criador, mas de
uma arrogância tão grande que surpreendeu até mesmo a Venafelyn. Ela
tinha cabelo de cor escarlate, um andar gracioso, mas o que chamou a
atenção de Venafelyn era o fato da mulher preferia perder uma mão a
cometer o menor dos erros, como passar um troco errado.
Norol, que era um simples soldado aliel das mais baixas
fileiras dos exércitos elestinos. Mas, embora fosse um guerreiro de
pouca patente, com sua longa lança lutava como ninguém e possuía uma
honra irrepreensível. Foi durante uma tentativa de exterminar a praga
de demônios (ou Párias do Dragão, segundo os elestinos) que infestava a
passagem entre Lutinavel e Nevaeh que Norol se embreou em uma luta que o
levou até Vazio Entre Estrelas onde se perdeu e acabou parando em
Lutinavel, e lá vagou por anos até se encontrar com Venafelyn.
Vaston, o cinzento gannaio, era o oposto de Norol em quase
tudo. Um guerreiro gannaio da raça dos Seis-Chifres com quase 2,8m da
sola dos pés até as pontas dos chifres de pura ferocidade. Vivia em
Gaol, um dos mundos dominados por Jarmenur, e, como todo bom gannaio,
sobrevivia de saques e invasões. Seria mais um típico grosseirão se não
fosse o fato dele só atacar os servos do falso deus. Conhecido entre seu
bando de mercenários como Vaston Presas-de-Aço, pela mania que tinha de
quebrar as armas de seus adversários com os dentes.
Ora, foi Vaston que certa vez adentrou os domínios do falso-deus
da guerra e dos gannaios, e topou-se com a desoladora visão de milhares
e milhares de seu povo, acorrentados pelo desejo do opressor e labutando
nas obras do falso deus da guerra com a servil obediência de seres sem
querer próprio.
Janos era um humano. Habitava em Lutinavel, no Reino de Lopsu.
Vinha de uma família de pobretões, pouco mais sortudos que escravos,
cujo ofício era a mineração. Cercados por montanhas, onde raras vezes
alguém pôs os olhos, a pequena cidade ainda se sentia com medo de tudo e
todos. Janos era um tipo meio sonhador que vez ou outra escapulia para
longe da segurança de seu lar. E saia a esmo explorando o mundo afora.
Viagens curtas, mas que era sua única alegria em mundo onde as pessoas
dormiam cedo e acordavam ainda mais cedo, sempre com as mesmas monótonas
ideias, escravos da opressiva rotina e do medo do que há além de suas
vistas e saberes.
Em uma dessas andanças ele ouviu um barulho tão forte que
quase caiu da montaria. Como se uma das montanhas estivesse caindo.
Contra qualquer bom-senso, esporeou seu jumento e foi atrás. Em um morro
repleto de áureos, demônios e servos da Coroa e do Trono estava
Venafelyn, retirando sua estrela da manhã de uma montanha partida pelo
golpe. Ao recuperar a arma, Venafelyn, diante do olhar assombrado de
Janos, exterminou seus atacantes que chiaram como mosquitos incendiados
ao serem acertados.
Janos, que só conhecia Promestan, como uma lenda distante, viu
aquilo com o espanto de um homem que vê a luz do sol pela primeira vez.
E tomado por esse sentimento de admiração pavorosa, Janos o seguiu por
todos os lugares que pôde. Mas somente quando Venafelyn colocou-se sobre
a Montanha Jarven ele o alcançou.
Lenentu era um elementar dos raios e trovões que havia assimilado
a cultura dos humanos. Admirava as obras humanas, embora não nutrisse
grande admiração pela humanidade em si. Tinha um senso de humor
incompreensível, e falava de tudo, menos de si mesmo.
Na base da Montanha Jarven, Venafelyn sacramentou o Juramento
dos Cinco. Todos os Cinco juraram suas vidas à seu serviço.
Em retribuição, Venafelyn lhes presenteou com dons, para que
quando partisse de Lutinavel houvesse pessoas que refletissem seus
ideias. Que as pessoas pudessem olhar para eles e ver imagem he
E para que ele pudessem lhe atender com maior eficiência, Venafelyn
forjou com Poder Primevo, asas. Asas de ouro e de aço. Asas de vento e
de sombras.
Norol foi um caso a parte.
Norol era um elestino da raça aliel. Imortal, alado, alto, belo.
Venafelyn o levou até o topo da montanha e o consagrou com o antigo
ritual dos nevaes. O Senhor das Auroras, então trouxe duas lascas
semelhantes a pedras de fogo e as infundiu em Norol que passou a possuir
a mesma essência ígnea de Venafelyn. Norol se tornou como um dos antigos
nevaes --- guerreiros elestinos que serviram aos Senhores das Auroras
quando estes ainda existiam. Além de poderoso, Norol ficou mudado,
física e mentalmente. As vezes parecia a mesma homem, outras vezes era
como o retrato de outro ser, mais grandioso e menos humano. Entre os
cinco, em poder bruto, apenas Lenentu se equiparava a ele.
Por anos, os cinco voaram pelos Reinos Libertos levando justiça,
aconselhando reis e rainhas sobre a vontade de Venafelyn e servindo de
olhos e ouvidos para o Senhor das Auroras.
***
E assim, parcialmente satisfeito, Venafelyn retornou a sua
morada, longe dos mortais, dos imortais, dos justos e dos injustos. E
afastou seu olhar de Lutinavel, e pôs-se a contemplar os outros domínios
de Gion. E a ponderar.
Por muito tempo, os deuses falsos dominaram a quase totalidade
dos mundos habitáveis da Terceira Existência. Quase três milênios. E
Venafelyn apenas observou, sabendo o quão pequenas eram suas conquistas.
Lutinavel, Umdo, Nevaeh e até Fimagion, eram coisas diminutas.
Insignificantes.
Venafelyn era um jardineiro que regrava uma terra morta, vazia,
onde a vida jamais poderia florir. E, se por um poder além do que ele
dispunha, viesse a acontecer, ainda assim, haveria de ser condenada ao
incêndio. As chamas inextinguíveis do falso Trono de Gion...
Mas Drakóus Trógon e Tróne Theón, eles ainda existiam? Venafelyn deveria
descobrir. Os humanos estavam longe de ser sua maior preocupação.
Pelo bem da Ordem e dos Construtores, Venafelyn deveria descobrir se o
Último Dragão e o Traidor Imperdoável ainda existiam. Senão, Rasgranar
seria a presa.