A Lenda de Venafelyn · Capítulo 3 de 9
1 — Vigia dos Deuses
por AlkhamPublicado
[Gion:]{.underline}
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Chama-se Gion. Grande, reluzente. Adornado por estrelas e mundos. O Lar
da Vida, também o chamavam. Entre os Construtores, somente os Senhores
das Auroras sabem o número exato de suas obras. Mas, talvez, um mortal
que contemplasse os céus noturnos, faiscando com o intenso brilho das
estrelas de Venafelyn, chegasse à conclusão de que Gion era, de fato,
infinito.
Mas Gion não é infinito. Nada criado é infinito.
E embora as obras dos Construtores pareçam contrariar isso, apenas
parecem.
Para além de Gion, estendesse o Vazio Tenebroso. É claro, porém, que
não é de todo vazio. Há planetas para lá também. Estrelas. Sistema
solares. No entanto, segundo se crê, é vazio de vida. Lá, dizem os
áureos, é onde se encontram as obras malsucedidas dos primeiros deuses.
Já os elestinos acreditam que por lá residem às obras incompletas dos
Construtores. Foi lá, diziam eles, que primeiro trabalhou o povo de
Venafelyn, quando ele ainda eram numeroso como as estrelas e nós, seus
servidores.
Retornando, porém, para regiões ainda mais tenebrosas que o Vazio
Tenebroso, existe a Zona Morta. Trevas. Caos. Gritos estridentes, e o
rodopiar de estrelas cujo brilho há muito se perdera em agonizantes
trevas. É lá --- segundo crer tanto áureos quanto elestinos, --- a
prisão das Estrelas Negras. O Cárcere dos Antideuses. O Império dos
desleais deuses da morte, que a um só tempo traíram, roubaram, e se
condenaram. Um reino de pura e eterna escuridão composta pela quinta
parte de Gion. Onde as mais antigas tradições dizem habitarem os deuses
da morte, sob os quais os grandes panteões de Gion falam com duplo
receio.
Mas, para além da própria razão e lógica, domínios ainda mais
tormentosos que a Zona Morta aguardam. Seres diante os quais até mesmo
antideuses se curvam --- humildes e servis --- aguardam lá. Sempre
sussurrando. Sempre tramando. Agonizando e remoendo-se cada vez mais em
ódio a tudo o que existe, como um moinho que moia a si mesmo. Ódio que
se alimenta do próprio ódio.
***
[Viagem de Consciência:]{.underline}
Venafelyn, como raras vezes fazia diante dos mortais, assumia toda sua
forma.
Um colosso flamejante com asas de fogo escarlate. As duas asas de baixo
flamejavam e desciam, aninhando-se do tronco para baixo como vestimentas
de puro fogo. As outras duas deslizavam para trás como um manto vibrando
em chamas.
Trajava uma armadura tão dourada quanto a Estrela de Gion, feita
de muitas toneladas de ouranico, o aço celeste. Completa --- elmo,
espaldar, peitoral, manoplas ---, desde a cabeça aos pés, o metal
dourado cobria cada parte. Ca'elestibu e armadura eram um só. Há
milênios eram assim.
Com uma das mãos, firmava sua estrela da manhã no ombro. O cabo da
arma era longo, incrustado com dezenas de gemas de fogo e completado com
uma esfera ardente cheia de espinhos. Seu fogo era como o fogo de um
sol, impetuoso. Por milênios, exércitos de guerreiros de todas as raças
e formas sucumbiram diante daquele horror ardente. Deuses tremeram.
Antideuses se ajoelharam. Draynos fecharam as pressas diante a um calor
capaz de rivalizar com o fogo dos antigos dragões. Fora criada com o aço
sempernico. Mais duro que qualquer minério existente. Nenhum golpe
físico poderia lhe quebrar.
Mas comparada a face daquele que a portava, a arma era quase
suave.
Mesmo agora, debaixo de seu pesado elmo, o rosto de Venafelyn assumia um
aspecto severo, de alguém que já viu mais do que desejava. Os olhos
profundos queimando em chamas azuis, densas como o fundo dos oceanos.
Na sua frente, uma esfera criada por ele mesmo girava, equilibrando-se
no ar. Era menor do que seu punho, mas emitia um brilho intenso e
contínuo, pintando os arredores em tons dourados.
Recuando o olhar, Venafelyn girou a cabeça para lados, vasculhando a
imensidão do Vazio Entre Estrelas em busca de ameaças. Somente voltou o
olhar para o que estava fazendo depois de se certificar que não havia
nem uma vida em um raio de milhares de quilômetros.
No momento, Venafelyn estava no interior de uma construção imensa, que
só não poderia ser confundida com uma lua por causa de sua estrutura
dourada e circular, repleta de compartimentos. E por que o Vazio Entre
Estrelas, onde a construção estava, ocultava a maioria das coisas, como
se estivessem numa neblina eterna. Há milhares de quilômetros abaixo
estava o quinta Mundo Primário, Lunam, governado por aquela que se
intitulava de deusa, Kali-Lunam.
Aquele era um dos grande salões da Ordem dos Forjadores de Estrelas. E
era lá que Venafelyn habitava, quando não estava vagando pelos mundos de
Gion. No Salão dos Forjadores de Estrelas, longe de homens e deuses. Um
dia o Salão havia sido apenas uma oficina, onde Senhores das Auroras
encarregados da forjadura de estrelas se encontravam para planejar suas
obras. Há quase três milênios, Venafelyn se isolara ali, esperando o fim
que nunca vinha... Foi somente após o transcorrer de muitos anos que
Venafelyn percebeu que não teria o mesmo fim de seus companheiros.
Percebeu estar amaldiçoado a viver, mesmo não encontrando motivo algum
para isso, e torcendo todo dia para que enfim Tróne Theón se lembrasse
de sua existência e viesse lhe enviar para o esquecimento de uma vez por
todas.
Até então todos os outros Senhores das Auroras já haviam sido chacinado;
mortos, banidos da Existência ou tornado-se em traidores. As estrelas
criadas por ele e seus companheiros de Ordem haviam sido obscurecidas no
Oblívio ou tomadas pelos traidores. Agora serviam para iluminar os
muitos domínios dos falsos deuses. Seres desprezíveis que rejeitavam a
retidão dos Construtores e de todas as Ordens, intitulando-se deuses de
Gion. E, pior de tudo, recebendo, de bom grado ou não, os louvores dos
mortais.
A maioria dos habitantes de Gion sequer se lembrava de quem eram os
Senhores das Auroras ou mesmo os Construtores.
Pelo que havia testemunhado com seus próprios olhos, Venafelyn
acreditava que sua fama se dividia sempre em dois opostos, numa
dicotomia de estupidezes. Humanos e áureos eram os que melhor
protagonizavam esse teatro tolo.
Os áureos, fiéis servos dos autoproclamados deuses de Gion como eram,
acreditavam numa fábula medíocre sobre Venafelyn ser uma espécie de deus
caído. Um traidor do Trono e da Coroa que vagava pelo mundo chacinando
deuses e semideuses por puro prazer e perpetuando blasfêmia contra a
sagrada Coroa de Gion. Ironia ou não, Venafelyn não conseguia rir,
embora soubesse que a situação quase pedia por isso. Implorava, até.
Não. Ele realmente não achava graça nisso.
No extremo oposto estavam os humanos de Lutinavel, onde ele havia
passado um bom tempo realizando um experimento. Lá eles aprenderam o
pernicioso ato da idolatria. Não fosse o fato de ele ter se tornado o
objeto de culto, Venafelyn não se importaria muito. Afinal atualmente
cada ca'elestibu traidor da Ordem se intitula de deus de algum povo.
Porventura não era Wlyndor o autointitulado deus dos homens? E Gurdalyn
não aumentara o teatro se chamado deus dos gannaios (e ainda da guerra)?
Fenyl, muito esperto como era, abocanhou o título de deus dos elderes.
Já Lynumar --- atualmente Rasgranar, Príncipe da Coroa, Lorde do Trono,
Senhor Sagrado do Panteão e tantos e mais tantos --- era o tolo supremo.
Deus dos deuses, em um mundo onde todos os deuses são falsos, é
equivalente ao que? Era até engraçado, isso.
--- Certamente Zuryn Tur riria disso... --- Mas Zuryn Tur
Lança-risonha, líder da Ordem dos Combatentes, já havia sido banido da
Existência há muitos séculos. Nem os maiores guerreiros entre os
Senhores das Auroras conseguiram resistir ao massacre do Tróne Theón.
Mas esses eram pensamentos distantes demais. Venafelyn se esforçou a
parar de divagar, e se concentrou no que iria fazer. Sua vida havia sido
tão longa, tão cansativo... mesmo sua mente as vezes para dificuldades
para precisar harmonia em tantas ideias e memórias... Mas era
necessário.
Ao menos os resultados obtidos em Lutinavel haviam lhe agradado
razoavelmente. Não muito. Mas o suficiente para lhe motivar a seguir em
frente. Foi este pequeno incentivo que lhe impulsionou a retornar ao
Salão.
Venafelyn soltou sua estrela da manhã. O sempernico se chocou contra o
piso de aço de regnico, fazendo um ruidoso chacoalhar metálico. O piso
se estilhaçou onde os pregos da arma se cravaram. Mas Venafelyn sabia
que o Salão estava projetado para se restaurar, e não se preocupou.
Parado, olhando fixamente para a esfera ardente que girava a poucos
metros de sua face, tirou seu elmo para encarar de rosto livre o que
iria fazer. Havia uma sensação de alívio nisso. Liberdade. Desde que
Venafelyn vestira aquela armadura --- muitos séculos atrás ---, ele
nunca mais a tirou por completo. E nunca a tiraria enquanto ainda
existisse ao menos um de seus inimigos vivos. A sensação de alivio era
falsa.
Colocou o elmo ao lado da estrela da manha. O elmo não era nem um
vigésimo tão pesado quanto à arma, mas era infinitamente mais precioso.
Era feito de ouranico de verdade. Sem o elmo era possível ver que face
de Venafelyn era muito semelhante ao próprio metal de seu elmo. Sua pele
era fogo azul cristalizado, semelhante a um carvão recém-tirado da
fornalha. As expressões faciais --- alegria, ira, amor, ódio ---
simplesmente não existiam em nem um de seus aspectos. Parecia apenas...
distante. Distante e inexpressivo como um astro. Neutro.
--- Guardião! --- chamou Venafelyn.
Um dos motivos de Venafelyn não caminhar entre os mortais naquela forma
era sua voz. Causava um efeito indesejável. Os humanos simplesmente
tremiam, encolhiam-se, e suplicavam por suas vidas ao ouvirem o menor de
seus sussurros. Parecia irresistível a tendência de chama-lo de deus ou
demônio.
Como não ouve nem um sinal de que fora ouvido, Venafelyn voltou a
chamar:
--- Traga-me a placa, Guardião!
Um som de crepitar de fornalha emanou dos grandiosos cômodos do Salão.
Ecoou por um tempo, porém não houve resposta. Outro chamado estrondoso,
sem resposta. Venafelyn já estava a ponto de ir pessoalmente até lá,
quando uma forma tempestuosa surgiu entre os cômodos. O Guardião. Ou
melhor, um dos guardiões. Varias criaturas feitas em uma mistura de fogo
e placas de ferro no formato de uma armadura desconjuntada. Da cintura
para baixo, um turbilhão de fogo fazia às vezes de pé e perna empurrando
seus corpos metalicos.
Os Guardiões eram autômatos forjados para auxiliarem os Senhores das
Auroras em suas obras. Cada Salão possuía um tipo específico de
Guardião. Os dos Forjadores de Estrelas eram, obviamente, preparados com
fogo e aço regnico, capazes de supor altas temperaturas e esforços
extremos. Venafelyn contou cerca de vinte. Pouco. Muito pouco. Ele sabia
que nem todos tinham ouvido seu chamado. O Salão era grande até para os
padrões ca'elestibu e ao todo não deveriam passar de algumas centenas.
No passado, muitos Guardiões foram usados para fins bélicos. Eles haviam
se revelado excelentes combatentes, e serviram quase tão bem quanto em
suas funções originais. No entanto com a extinção dos Senhores das
Auroras não restou ninguém para reconstruir as unidades destruídos.
Venafelyn voltou suas atenções para cinco deles em especial. Com um
esforço considerável, eles erguiam uma grande placa, parecida com a
tampa de um sepulcro.
--- A ti servimos, Construtor de Estrelas, Venafelyn --- os cinco
guardiões se aproximaram, trazendo a placa.
Apanhando o objeto, Venafelyn o ergueu até a altura de seus olhos.
Examinou-a por um tempo, depois se virou em direção os Guardiões.
--- Bom trabalho. Satisfaz-me saber que ainda há zelo pela Ordem e pelo
Dever. Ainda restam quantos como vocês?
Com voz monótona e arrastada como ferro sobre ferro, os cinco Guardiões
responderam ao mesmo tempo:
--- Exatamente 789 setecentos e oitenta e nove operantes.
--- Operantes? --- Era impossível. Da última vez que Venafelyn fizera a
contagem não passavam de quinhentos operantes e dois mil e trinta
inoperantes. Eles só poderiam diminuir. Nunca aumentar. Mas a mentira e
o erro na estavam na configuração dos Guardiões. --- E quantos
inoperantes?
--- Exatamente 1741 mil setecentos e quarenta e um. --- responderam,
mecânicos.
Se os números estivessem certos (e era provável que sim) significava que
de algum modo os Guardiões inoperantes haviam voltado a ativa. Era uma
boa notícia e coincidia perfeitamente com os planos de Venafelyn. Mas
isso era coisa para outra hora...
Venafelyn dispensou os Guardiões, e se voltou para a placa metálica em
sua mão. Era aquilo que exigia sua completa atenção.
O objeto era negro e frio, pesava ainda mais do que se suporia mesmo
para algo daquele tamanho. Quase três metros de largura por cinco de
extensão. Mas Venafelyn não se surpreendia nem um pouco com isso. Era
uma peça de aço sempernico, assim como sua estrela da manhã. A arma,
no entanto, era capaz de armazenar e transformar Poder Primevo em fogo
celeste, já aquele objeto... A esfera flamejante ropiava ao lado de
Venafelyn.
Ao ser tocada pelo aço sempernico, a esfera foi diminuindo de tamanho,
e o ardor e brilho dela foram sendo sugados pelo objeto. Lentamente, a
tensão de Venafelyn também diminuiu. Aquela placa fora forjada pela
Assembleia dos Senhores das Auroras. Uma verdadeira relíquia. Havia sido
muito conveniente encontra-la jogada em Lutinavel, nas mãos de um
pequeno rei humano --- soberano de Wihiaz, se bem lembrava. Estava lá,
nas mãos do mortal, como se não passasse de mais uma curiosidade
pitoresca vinda diretamente de alguma lenda tolo que não expressava um
milésimo da sua verdadeira história. O monarca não tinha a menor ideia
do que era o objeto, e ficou aterrorizado quando Venafelyn decidiu
tomá-lo para si. Quase chora de horror e louvar por Promestan, o deus do
fogo, ter encontrado algo que lhe interessava entre suas humildes
posses.
Se bem que tomar não era o correto. Venafelyn pegou de volta o que era
seu. Agora que era o último dos Construtores, tudo o que um dia
pertenceu a eles, agora, pertencia a ele.
Aquela placa de sempernico servira como comunicador entre os Senhores
das Auroras. Enviando mensagens através da vastidão de Gion, de planeta
em planeta. Provavelmente essa pertencera ao Salão dos Construtores de
Mundos, que, na ânsia de esconderem todos os objetos de sempernico e
ouranico, haviam negligenciado os locais onde os esconderam.
Mas o importante era que, com um empurrãozinho a mais de Poder Primevo e
um pouco de sorte, Venafelyn poderia encontrar propósitos mais práticos.
Toda a Existência fluía através da Essência Primeva como a correnteza de
rio. Como o ritmo dos oceanos. Para alguém que, como Venafelyn,
conseguisse vislumbrar esse processo era possível fazer coisa de outras
formas impossíveis. Como transpor a consciência a outros lugares. A
própria mente fluía em Essência Primeva. Infelizmente, até mesmo
Venafelyn tinha limites.
Aquele objeto quebrava esses limites. Esse era um dos muitos segredos do
sempernico.
Venafelyn fechou suas palmas ao redor da placa. Feixes de luz fluíram
entre seus dedos. Luzes brancas que foram aumentando, aumentando e
aumentado até que...
***
...Venafelyn foi tomado pelo fluxo. Pela correnteza invisível. Eterna,
frenética e pulsante.
Sentiu como se um grande peso lhe abandona-se. Olhando para baixo, viu
seu próprio corpo. Gigantesco, dourado e vermelho. Uma massa truculenta
de chamas cristalizadas envolta em uma armadura. Nem mesmo ele imaginava
o quanto era tremendo, como um vulcão irado pronto a incinerar qualquer
coisa. Não fosse o olhar severo em seu rosto, que tantas vezes vira
refletido nos olhos assombrado sde seus inimigos, acharia que aquele
corpo era de outro ser. Talvez de algum deus do fogo, ou...
... novamente o fluxo arrastou a consciência de Venafelyn. Dessa vez
para bem longe. E para baixo. Puxado contra o piso, o mundo se tornou um
borrão de uma vez só. Aturdido, percebeu que estava sendo arrastado em
direção a Lunam, o décimo Mundo Primário. Poder puxa poder, e Venafelyn
sabia estar sendo levado em direção a maior fonte de Poder Primevo nas
proximidades. Tal como imã atrai o imã.
Ele poderia resistir, mas não quis. Esse era o momento perfeito para
testar a capacidade daquela placa de ouranico.
O cinzento apático do Vazio Entre Estrelas foi substituído pelo verde
das planícies de Lunam. E o azul dos céus límpidos, intocados pela
poluição. A realidade parecia fluir em jorros, em borrões. Tudo se
contorcendo pela velocidade. No entanto, como um Construtor, Venafelyn
não deixou de ficar admirado com aquele estado de preservação. Lunam
parecia exatamente igual à última vez que ele esteve ali. Há quase
quatro milênios. Antes dos falsos-deuses governarem.
Outro puxão lutou contra o que levava Venafelyn. Curioso, decidiu se
deixar levar por essa nova correnteza...
... diante de uma porta --- que só poderia ser feita de aço regnico
--- um homem de armadura negra gritava e esmurrava o objeto em meio a
xingamentos. Venafelyn se aproximou e percebeu que na verdade se tratava
de um falso-deus menor. Um dos tais deuses panteônicos.
De repente o falso-deus se virou. Seu elmo negro como a pedra ônix, se
voltou na direção em que Venafelyn estava. Rápido, deu um salto para
trás e uma foice surgiu entre suas mãos. Girou a arma entre seus dedos,
nevoa negra fluiu entre as brechas das manoplas e da viseira da
armadura. Olhou para os lados, arisco, como se soubesse que deveria
atacar, mas não soubesse o que ou quem. Deveria ser um guerreiro muito
experiente para ter pressentido tão bem a presença de Venafelyn. Talvez
pertencesse ao panteão de algum deus da guerra.
De repente a foice voltou a sumir, e o falso deus abriu os braços para o
alto.
--- Rasgranar? --- o deus panteônico indagou, hesitante, olhando para os
céus como se procurasse algo invisível. --- Rasgranar? Eu juro que não
fiz por mal. Eu... --- Não querendo correr riscos desnecessários,
Venafelyn soltou aquele fluxo e se deixou ser levado pelo outro. O maior
que havia lhe atraído antes... a voz do deus panteônico foi se
extinguindo, em murmúrios --- Eu disse aquilo por bobagem...
perdoeee... Porta malditaa... deuses malditooos...
O mundo se esticou...
...parada diante de um palácio bastante simplório, com as pernas
cruzadas e um meio sorriso se formando nos lábios, estava Kali-Lunam, a
regente daquele planeta. Uma mulher bonita, para padrões humanos, mesmo
tendo pele e cabelos tingidos com clorofila. No entanto não era uma
mulher. Era uma falsa deusa maio. E o que diferenciava ela não era sua
cor verde ou seu cabelo entrelaçado com flores e brotos, mas sim aquela
presença pulsante de Essência Primeva que a cercava e puxava a
Existência ao seu redor.
Venafelyn não entendeu o que ela estava fazendo ali. Talvez estivesse
contemplando a paisagem. Ou apenas entediada --- Venafelyn nunca soube o
que faziam falsos-deuses quando não estavam atormentando a paz e a ordem
de Gion com seus desmandos. Não importava de todo modo. Kali não era
como a maioria dos falsos-deuses. Talvez a única que Venafelyn não
partiria o crânio caso encontrasse por ai, em algum dia qualquer. Mas só
talvez. Dependia muito de seu humor.
Como se fosse um vento, Venafelyn passou por Kali.
A mulher estremeceu, batendo o queixo como se estivesse prestes a ter um
ataque de hipotermia.
Ao ser pego por outro fluxo, Venafelyn ainda conseguiu vê-la cambalear
para dentro do castelo falando alguma coisa sobre vento frio e alguém
chamado Durgan. As palavras saíram trêmulas. Se era culpa da falsa-deusa
ou do estado em que Venafelyn se encontrava, ele não sabia. Kali-Lunam
era uma coisinha excessivamente pequena para lhe preocupar.
...dessa vez o puxão foi ainda mais forte. A realidade se flexionou
como um elástico, e de repente Venafelyn se viu novamente diante de um
mundo verdejante.
Surpreso, olhou para os lados.
Por um instante imaginou se ainda estaria em Lunam. Mas não. Aquela
floresta que se estendia a sua frente era bruta, selvagem e imensa
demais. Era um retrato da própria selvageria primitiva. Ele estava em
Umdo. Mas por quê? O que haveria em Umdo forte o suficiente para fazê-lo
retroceder em vez de avançar para outro Mundo Primário?
Outro puxão...
...e Venafelyn se viu cercado por árvores colossais diante das quais
ele, em sua forma física verdadeira, era equivalente a um homem diante
uma árvore comum. Um lugar estranho, aquele. Bastou, porém, uma rápida
busca em sua memória para reconhecer o local.
Os Jardins de Durlyn.
Atualmente seus habitantes a conheciam por outro nome, no entanto
antigamente era ali que o líder do Salão dos Construtores de Mundos
costumava descansar enquanto ao seu lado Lynafai, a Seráfica, dedilhava
seu violino. Mas isso fora há tanto tempo... Venafelyn já havia visto
aquele planeta muitas outras vezes. Seus habitantes, os elderes, haviam
até desenvolvido o péssimo hábito de lhe idolatrarem. Luna-Ral, eles
diziam, o Criador das Luzes da Existência.
Concentrando-se em encontrar a causa para estar ali, Venafelyn conseguiu
identificar dois fluxos. Um deles era imenso e distorcido, como a
correnteza de vários rios amarradas em um mesmo nó. O outro era menor.
Calmo. Quase imperceptível. Porém estava mais próximo. Venafelyn seguiu
o último...
...o mundo se esticou em um borrão de verde e marrom que só parou
quando Venafelyn transpôs a ultima árvore, e se viu diante de um
gigantesco braço que brotava da terra. Na verdade era apenas uma peça
desconexa de metal. Uma manopla e um antebraço de uma armadura. Uma
coisa colossal, mas ainda assim apenas o braço de um deus morto há muito
tempo. Venafelyn se lembrava.
Entre os dedos revestidos de aço, havia algumas construções semelhantes
a pedestais. E abaixo, no chão, dezenas de casinhas, tendas, entre
outras coisinhas construídas pelos mortais, haviam sido erguidas ao
redor. Uma vila. Venafelyn conseguiu até ver a sombra de alguns elderes
da raça eluma se movimentando entre as tendas. Eram coisas difíceis de
ver, é claro. Pareciam pequenos pontinhos de luzes tremeluzentes.
O fluxo dos mortais era incrivelmente menor que o de um falso-deus como
Kali-Lunam ou o deus panteônico. Naquele estado, a maioria nem sequer
era vista por Venafelyn. Aqueles pontinhos tremeluzindo emanavam uma
pequena correnteza de Poder Primevo. Deveriam ser praticantes de artes
místicas (ou qualquer dessas tentativas fúteis desenvolvidas pelos
mortais para alcançar um nível mais elevado de Existência). Mas eram
insignificantes demais para terem atraído Venafelyn até ali.
Uma leve brisa de verão não atrai tornados.
Quando estava a ponto de abandonar suas tentativas de encontrar aquele
fluxo e ir atrás do outro, algo voltou a lhe atrair. Uma leve ondulação
no fluxo de Essência Primeva.
Alguém estava manipulando poder. E não era um simples entusiasta a
místico, mago, manisprestio, at'luceo, ou seja lá como os mortais
chamam isso.
Venafelyn se deixou levar por aquela correnteza...
Havia algo de familiar ali, mas ele não entendia o que era. Algo novo, e
também antigo. Algo que...
Seguindo a correnteza, parou bem no topo do dedo anelar da mão gigante.
Bem parar não era a palavra correta, ele fluía. Sua consciência fluía,
em ondulações de Poder mesmo parado.
No fim do dedo, havia apenas uma figura.
Quanto mais poder, mais fácil era identificar a fisionomia do usuário. E
aquele indivíduo era bastante identificável. Uma mulher, ele percebeu.
Ela tinha as mãos fechadas sobre um amuleto onde se via uma gravura
estranha. A cabeça estava voltada para baixo com o cabelo prateado
caindo sobre a face. Uma tiara, também prateada, com dezenas de
pedrinhas multicoloridas --- que Venafelyn reconheceu como gemas
elementares --- encobria totalmente seus olhos, levantando duvidas de
como ela enxergava. Mas, mesmo assim, era visível que a atenção da
mulher estava fixa no amuleto.
Venafelyn se aproximou mais.
O estranho mesmo era o fato de o amuleto ser de ouranico. De
ouranico mesmo*,* que*,* na presença de Venafelyn, reluzia como um
farol, puxando sua consciência.
Então deveria ter sido isso que o atrairá até ali; uma pequena peça que
valia mais do que toda aquela vila. Se as pessoas erradas
descobrissem... Mas isso também não era algo que devesse lhe interessar
no momento.
Milhares de peças de igual natureza haviam se perdido em meio durante
conflitos cósmicos de outrora. Venafelyn se lembrava. Nas infindáveis
Guerras de Anarchía Rei. Nas ainda mais antigas Batalhas Caóticas. Ou
mesmo na grande Guerra de Occidere Mundos. Os Senhores das Auroras, ao
lado de outras assembleias, haviam dada um fim na maioria delas. Mas
Gion era grande. Nem mesmo eles poderiam se livrar de todas as peças de
ouranico e sempernico. Com muita sorte --- ou azar, na maioria das
vezes --- algum tolo, como no caso da placa de sempernico, poderia se
encontrar com uma dessas. Era raro --- um entre bilhões ---, mas
acontecia.
Venafelyn começou a se afastar novamente, em busca do outro fluxo, do
maior.
Alguém veio em direção à mulher. Venafelyn só conseguiu sentir uma leve
ondulação, mas dava de perceber que era isso só pela reação da mulher.
--- Omohoyn está de partindo, senhorita Elyvana. --- a voz do
visitante era como um sussurro mastigado. Venafelyn mal chegou a
compreender as palavras, menos ainda o significado.
Ela se aprumou rápido, pego o amuleto e o escondeu abaixo da gola da
túnica, entre os seios. Colocou-se de pé e fitou a direção de onde a
pequena ondulação partia. Isso a fez ficar exatamente de frente para
Venafelyn. É claro que ela não o notou, mas isso o deixou perturbado da
mesma forma. Principalmente o rosto dela.
Porém antes que ele chegasse a alguma conclusão, a mulher se retirou.
Ignorou o visitante, andou com graciosidade até a palma da mão do
gigante e começou a descer pelas escadas que levavam a vila.
Venafelyn não a seguiu.
Essa entraria para sua longa lista de assuntos a serem resolvidos. Mais
tarde, é claro.
Antes de partir, Venafelyn decidiu dar uma última olhada na gigantesca
mão do deus morto que se erguia da terra. Há eras estava ali; colossal e
intocada pelo tempo. O resto da armadura, ele sabia, estava enterrado a
dezenas de metros. E era melhor que assim fosse.
Umdo ficava perto de Lutinavel, Venafelyn já havia visitado essas
redondezas algumas vezes, mas nunca se aproximava muito desse local em
especifico. Trazia más lembranças.
Esforçando-se para ignorar o passado, Venafelyn decidiu que já estava na
hora de retornar aos seus verdadeiros objetivos. Aquilo era apenas um
teste. Já tinha passado tempo demais ali. No fundo de sua consciência
ainda latejava aquele outro fluxo de Poder Primevo. Algo distorcido,
caótico, que parecia emanar de mais de um local ao mesmo tempo. Mas ele
também o ignorou. Seja lá o que fosse teria de esperar. Talvez enviasse
alguns Guardiões. Quem sabe até algum daqueles mortais que ele
vinculara em Lutinavel? Ter alguns olhos a mais não faria mal algum.
Gion andava agitado. Nada poderia ser negligenciado por muito tempo.
E Venafelyn já havia negligenciado aqueles que se chamavam de deuses por
muito tempo...
Livrando-se dos inúmeros fluxos de Essência Primeva que tentavam lhe
arrastar para longe, Venafelyn se atrelou a apenas uma. Distante, mas
poderoso, que puxava para bem longe de Umdo, e então...
***
[Visita Desagradável:]{.underline}
...foi puxado de volta para seu corpo.
Havia uma sensação de peso, como se algo grande estivesse lhe
comprimindo contra o piso do Salão. Porém o mais estranho era a
fraqueza. Venafelyn se sentia fraco, o que não era de se esperar já que
estava novamente em seu... O chão. O chão parecia muito próximo. Muito
próximo e... Ele olhou para si mesmo então percebeu o motivo. Sua forma
havia diminuído. De seus quase setenta metros, restavam apenas dois. A
placa de ouranico, que antes era uma coisinha insignificante, agora
parecia pesar. Era estranho. Venafelyn conseguia aumentar e diminuir seu
tamanho, mas isso nunca havia acontecido sem...
Uma voz desviou a atenção de Venafelyn.
--- Ah, enfim você chegou!
Venafelyn se virou para encarar um homenzinho vestido em trajes
cinzentos, que repousava de pernas cruzadas sobre o cabo de sua estrela
da manhã. Os braços do sujeito estavam abertos, em seu rosto havia um
misto de entusiasmo e exasperação.
--- Eu já estava preocupado que talvez...
Venafelyn soltou a placa. O aço sempernico provocou um estardalhaço
ensurdecedor. O homem deu um pulo.
--- O que você faz aqui, traidor? --- Venafelyn marchou em direção o
intruso. --- Como você chegou aqui, Malfenda?!
A resposta veio em uma gargalhada pouco confiante.
--- Ah, ah. Ora, você deveria ser mais simpático com as visitas. É por
esse tipo de atitude que ninguém vem a esse lugar...
--- Cale-se. Diga logo, Malfenda, que ardil você usou para me
encontrar e talvez eu lhe permita rastejar novamente para seu lamaçal em
Sédah-Grún.
--- Eu farei isso, mas... --- O sujeito escorregou de cima da estrela
da manhã. --- Primeiro, eu não uso mais esse nome. Prefiro que me chame
pelo meu verdadeiro nome: Fenyl. E depois, por que tanta pressa? Acabei
de chegar. Em nome dos velhos tempos, Venafelyn, seja ao menos um pouco
mais hospitaleiro com seu velho amigo. Nós éramos amigos, não?
--- Repulsa. Isso é tudo o que tenho por você, Malfenda. Você e suas
criações horrendas eram uma verdadeira lástima para todos os
Construtores. Mas agora você se superou. Não passa de um verme, um
parasita. Olhe para si, falso deus. Que corpo imundo é esse? Um áureo?
Onde estão suas asas? Tróne Theón as devorou. Esse é o preço da traição.
A Existência entrará em júbilo quando seu sangue jorrar sob esse piso.
Malfenda jogou as mãos para o alto e exclamou, exasperado:
--- Ah, pela Coroa!, pare com isso. Você tem ideia do sufoco que eu
passei para chegar até aqui? Você imagina o quanto foi difícil, ainda
mais com esse corpo? Eu sinto muito se nunca fui seu amigo. Eu não me
lembrava disso... Maldição, eu não me lembro de quase nada. ---
Malfenda colocou a mão na cabeça e balançou. Seus cabelos eram tão
dourados quanto ouro. --- É por isso que eu vim. Ouça, Venafelyn. Eu
preciso fazer algumas perguntas.
--- Perguntas? --- repetiu Venafelyn.
Fogo cintilava em suas mãos. Calor ondulava ao seu redor.
Ainda que estivesse em uma forma menor, todo seu poder ainda estava ali.
Esperando, aguardando. Como um vulcão prestes a expelir toda sua lava.
Não era como Malfenda. Poderia retornar a sua forma normal a qualquer
momento, mas não era preciso fazer isso. Malfenda, naquele corpo áureo,
não chegava a ser nem mesmo uma ameaça. Talvez fosse por isso que ele
estivesse tão receoso para tomar alguma atitude. Talvez. Mas o que
incomodava era não saber a quanto tempo ele estava ali. E como ele havia
lhe descoberto? Se ele tivesse conseguido de alguma forma rastrea-lo
enquanto ele usava a placa...
--- Não tenho motivo algum para lhe responder nada, Fenyl. Você que deve
responder as perguntas que eu fizer. Quem sabe assim eu lhe dê uma
morte rápida? Em nome dos velhos tempos... Qual o motivo de você estar
aqui e por que eu não deveria lhe destruir exatamente agora? ---
Perguntou.
Não que Venafelyn planejasse lhe conceder alguma misericórdia, mas ele
não via necessidade alguma para ser precipitado. A morte viria depois.
Seja lá qual fosse, Malfenda deveria ter alguma razão para aparecer ali,
tão exposto. Tão frágil. Venafelyn poderia lhe destruir com um simples
mover de dedos, e ainda aprisionar a consciência do falso deus antes que
ela fugisse para seu corpo em Sedáh-Grún.
--- Ah, certo, certo. --- Malfenda estralou os dedos, e começou a
numerar seus motivos enquanto caminhava, ou melhor, deslizava para longe
de Venafelyn, que em contrapartida se aproximou --- Se você diz. Acho
que é um preço justo. Tudo em nome dos velhos tempos, não é mesmo? E eu
estava falando serio, não lembrava de que você tinha tanto nojo de mim.
Vejamos...
O sujeito tinha um jeito esquivo de andar que lembrava uma serpente
fugindo. Seu manto cinza parecia esvoaçar mesmo sem vento. E ele
reajustou o capuz, deixando apenas seus olhos dourados, e seu sorriso,
às vezes seguro, às vezes inseguro, transparecer. O falso deus dos
elderes parecia bastante confiante para alguém que estava diante de sua
possível morte. Segundo se crê entre os tais deuses, Jarmenur, dos
gannaios e da guerra, Unurdan, dos homens e da vingança, e Malfenda, dos
elderes, só estavam abaixo do próprio Rasgranar, grande deus dos
não-deuses.
Venafelyn não temia nem um dos quatro. Mas Venafelyn não temia nem mesmo
do próprio Drakóus Trógon.
--- Bem, --- começou Malfenda --- um bom motivo é que, seguindo as
normas da boa conduta, o anfitrião não deveria assassinar suas visitas?
Deveria? Foi assim com Avantu?
O que incomodava Venafelyn era que Malfenda nunca fora conhecido por sua
autoconfiança. Pelo contrário, era bastante melindroso. Até covarde,
diria Venafelyn que ainda lembrava-se de que Fenyl nunca escolheu uma
assembleia e foi um dos primeiros a se debandar para o colo do Tróne
Theón. Covarde e traidor. O miserável temia tanto a morte que negociou
própria liberdade. Então por que não temia Venafelyn? O que o teria
incomodado tanto para lhe fazer abandonar Sédah-Grún?
--- Você invadiu meu lar. --- Talvez ele tivesse seus motivos, mas
Venafelyn não suportava aquela presença. --- E se você não quiser ter o
mesmo fim que Avantu, é bom me dar alguma satisfação.
Malfenda engoliu em seco.
Venafelyn já estava a poucos dele. Um simples movimento seria suficiente
para quebra-lo como um graveto seco.
--- Eu não desejo lutar. Se eu quisesse isso, teria entrado aqui com
legiões de áureos, draconianos, e deuses panteônicos. Eu quero
apenas...
Venafelyn interrompeu.
--- Você acha que isso é motivo suficiente? Há seres que eu destruiria
mesmo se me implorassem por suas vidas. Não querer me matar não é motivo
suficiente para eu não lhe matar. Continue assim e você verá como é
verdade o que digo.
--- Ah, mas você é mesmo um obstinado. Para alguém chamado de Forjador
de Estrelas, eu esperava menos...
Venafelyn ergueu uma das mãos. Poder Primevo fluiu entre seus dedos e
queimou até se transformar em uma esfera de puro fogo. Escarlate e
intenso.
--- Fogo do Dragão. Conhece? É tão eficiente quanto qualquer outro fogo,
mas em vez de oxigênio, ele consome Essência Primeva. Foi com isso que
eu matei Avantu Ventovil. Você já deve ter ouvido falar... Fale algo de
útil, e eu lhe livrarei do desprazer de conhecê-lo.
Malfenda deu um passo para trás, enfim surgiu um pouco de medo naquele
semblante zombeteiro.
--- Certo. Certo. Guarde seu fogo. É algo curioso, mas no momento eu não
estou interessado... E afinal o que é um... --- Era certeza que ele
iria dizer mais alguma coisa, no entanto uma rápida olhadela em direção
de Venafelyn (principalmente para o fogo em sua mão) pareceu convencê-lo
a se conter. Ergueu um dedo fino e envolto em pigmentos dourados, e
concluiu, sem rodeios: --- A verdade é que eu lhe trago uma proposta
irrecusável...
--- Eu recuso.
--- Recusa? Mas você nem ouviu...
Venafelyn sacudiu a manopla. A labareda de fogo escarlate zuniu como uma
tocha. Malfenda suava frio. Venafelyn não mentia. Aquele fogo era mesmo
capaz de devorar um falso deus.
--- Se ouvi-la, talvez eu aceite. Você sempre foi ardiloso, Fenyl. Mas
eu não vou ouvir por que não quero ter nem um envolvimento com falsos e
traidores. Acho até que já passou da sua hora, Traidor. Faça
silêncio... e queime...--- Lentamente, Venafelyn ergueu a mão em
direção do peito de Malfenda. O fogo dançava entre seus dedos. Custara
muito para Venafelyn aprender a domina-lo. E quando por fim ele
aprendera, passara a odiar a si mesmo por isso. Mas às vezes era útil.
Afinal, sem sua arma, o Fogo do Dragão era a única natureza com que
poderia matar alguém como Avantu. --- A morte é o único pagamento que eu
posso lhe dar.
O fogo iluminava a face de Malfenda, que recuou alguns passos.
--- E se eu lhe dissesse que Tróne Theón está morto? Que Drakóus Trógon
não existe mais? E que planejo matar Rasgranar? Se eu lhe dissesse tudo
isso, mudaria alguma coisa, hum? E se lhe dissesse ainda que estou livre
de meu juramento para a Coroa de Gion?
O fogo desapareceu da mão de Venafelyn. Ele encarou Malfenda, por um
longo tempo. Pensativo.
--- E se você me dissesse o motivo para atravessar um sistema solar
inteiro para vir me contar tais mentiras?
Parecendo perder a noção do perigo, Malfenda gargalhou tão alto que teve
de tapar a própria boca para se controlar.
--- Nem você consegue acreditar, não é? A pouco tempo nem mesmo eu
acreditaria se alguém me contasse. Mas é a verdade. Tróne Theón está
morto. A Coroa de Gion foi quebrada. Eu vi. Drakóus Trógon, também. Com
ele eu não sei o que aconteceu, mas ele também não existe. Eu fiquei
livre de meu vínculo com a Coroa, e descobri tudo isso. Sozinho e com
o risco de ser morto. Se Rasgranar descobrir o que eu fiz... É por isso
que estou aqui. Minhas lembranças estão voltando. As lembranças
verdadeiras, não as que Tróne Theón e Rasgranar nós faz acreditar. ---
Malfenda abriu os braços e estendeu as mãos em um gesto grandioso. ---
Eu não me lembro de tudo. Mas lembro de muito. Lembro de você,
Venafelyn, do Salão dos Forjadores de Estrelas. Lembro deste Salão. ---
Girou sobre os calcanhares e deu uma longa e nostálgica olhada ao redor.
--- Sabe por que seus Guardiões não me impediram de entrar aqui? Por que
eles me consideraram um dos Construtores! Não é incrível?! Eu me lembro
de ter pertencido ao Salão das Ciências e Tecnologias, mas não deixa de
ser verdade. Nós dois somos...
Num piscar de olhos, Venafelyn fechou os dedos ao redor do pescoço de
Malfenda e o ergueu até que seus pés balançassem sobre o ar, a procura
de terra firme.
--- Nós dois somos o que? --- Sob o aperto inescapável, Malfenda começou
a engasgar e revirar os olhos. Apenas mais um tantinho, um pouquinho
mais, e Venafelyn o mataria. Aquela forma era tão frágil... Tão
fraca... Mesmo que Malfenda estivesse falando a verdade, ele nunca
seria um Senhor das Auroras. Ele nunca seria novamente um dos
Construtores. Nunca séria como Venafelyn.
Ele o soltou. Alivio
Malfenda caiu no chão como um trapo. Venafelyn imaginou se teria mesmo
lhe matado. Foi apenas um pouco tranquilizante, perceber que não.
--- Ah, Ah, Ah. Você é mesmo um louco, Venafelyn, o Amigo dos Dragões!
--- Malfenda parecia entre risos e convulsões quando se levantou de
novo. Onde a mão de Venafelyn tocara, uma marca de fogo surgiu,
incinerando sua pele até a carne viva.
O capuz, chamuscado, escorregou revelando o rosto de seu receptáculo
áureo. Um dia havia sido uma criatura bela (áureos sempre eram), mas
devido a grande carga de Poder Primevo que o corpo --- que era apenas
meio divino --- recebera, havia se sobrecarregado. Estava podre, com
buracos onde seria nariz e boca. Os olhos dourados pareciam girar em
glóbulos vazios. A pele embranquecida por um poder anterior ao de
Venafelyn, parecia se descascar em pigmentos dourados.
Uma visão repugnante.
É claro que os deuses maiores como Malfenda tinham seu verdadeiro corpo,
mas somente em casos de extrema necessidade eles o usavam. Na maioria do
tempo preferiam desfrutar os prazeres da carne. O porquê de ele estar em
um corpo tão imundo era um mistério.
Ignorando o horror cadavérico que se lábios formavam ao rir, Malfenda,
soluçando e apalpando o pescoço, continuou:
--- Você quase me quebra, sua besta embrutecida! Tem ideia do quão raro
é um corpo desses?! Um em cada cem mil áureos! Eu vim aqui,
humildemente, lhe entregar de mão beijada um trabalho que me custou
séculos de sigilo e esforço, sob a pena de ser morto. Morto de verdade!,
caso a pessoa errada descobrisse. E você me recompensa assim! Você tem o
temperamento de um dragão! --- Malfenda colocou a mão no queixo,
meditativo --- Embora eu não entenda o significado disso...
--- Significa... --- Começou Venafelyn, bastante calmo. --- Que você
tem sorte de ainda estar vivo.
Malfenda riu.
--- Sorte é o que me define. Sabe, desde que me Desvinculei da.. da..
Coroa, eu venho descobrindo que odeia todo tipo de divindade. Mas se
algum dia eu me encontrar com a bendita deusa da sorte, eu vou dar um
beijo nela. --- Malfenda passou os dedos sobre a queimadura em seu
pescoço. --- Isso aqui foi perigoso, mas para alguém que passou pelo que
eu já passei, é quase rotina. Pancada para cá. Pancada para lá. Fogo
dali. Trovões de cá. É como se diz, quando a bom-senso falta, a sorte
sobra...
Venafelyn não apreciava tal ditado.
--- Nem sempre. O bom-senso é sempre útil. E é por isso que não confio
em você, Fenyl.
Malfenda balançou a cabeça.
--- Tsc, tsc, tsc. Eu jamais pediria isso. Pelo que eu lembre, o que fiz
não tem mesmo perdão. Não que eu me arrependa mesmo. Nunca fui desse
tipo que se humilha... Além do mais nem eu confio em mim. Sei que a
Coroa de Gion não tem mais o domínio sobre mim, mas você sabe como
funcionam essas coisas. Quando o Vínculo é interrompido de forma
abrupta...
--- Sobram resquícios. --- Completou Venafelyn. Vínculo não era seu
ramo preferido no que se refere ao uso do Poder Primevo. Mas ele não era
um ignorante. Passava longe de ser.
Malfenda concordou com a cabeça.
--- Exatamente. Sobram resquícios. Pequenos comandos mentais. Ordens. E
desejos que você não teria de outra forma. É claro que com o tempo fica
mais fraco, menos intenso. Mas não faz muito que eu, perambulando entre
uma tribo de brutamontes gannaios, ouvi um sujeito blasfemar contra
Rasgranar e a Coroa de Gion. E não resisti. Xinguei ele de volta. E
ameacei chamar uma patrulha áurea. --- Malfenda riu consigo mesmo, como
se lembrasse de algo especialmente engraçado. --- O sujeito se borrou
todo. Foi quase engraçado.
--- E quantos gannaios morreram?
--- Isso que é o incrível! Eu consegui me controlar. Ninguém morreu. Se
desse de calcular, diria que estou noventa e oito porcento
desvinculado. Posso até fazer isso: --- Malfenda se empertigou de uma
vez, e encarou o teto. --- Maldito seja Rasgranar! --- Respirou fundo, e
abaixou o tom. --- Viu? O Vínculo completo não permitiria que eu
blasfemasse contra nem um dos queridinhos da Coroa. É tanto que houve um
tempo em que eu sequer conseguia elaborar essas frases em pensamentos
coerentes.
Fazia sentido. Venafelyn já havia visto esse mesmo efeito em áureos e
também em alguns draconianos.
Com aqueles que haviam "jurado" fidelidade ao Tróne Theón deveria ser
do mesmo jeito. Supostamente, há muito tempo, todos os deuses de Gion
juraram lealdade a Coroa de Gion. Ao Tróne Theón. Um juramento tão forte
que ninguém poderia quebrar. É claro, havia toda uma fábula mitológica
por trás desse juramento (sempre tinha). Mas Venafelyn sabia a verdade.
Quase ninguém jurou por vontade própria. Foi apenas por medo de morrer.
Aqueles que se recusaram foram varridos da Existência pela luz do Tróne
Theón. Os que sobraram foram Vinculados a ele. Um Vínculo forçado
como aquele não permitia sequer desejar mal a Coroa de Gion em
pensamentos. Menos ainda blasfemar.
Durante o tempo em que passou em Lutinavel, libertando o planeta do
domínio de Avantu Ventovil, Venafelyn chegou a tentar quebrar o
vínculo de alguns servos do falso deus dos ventos. A maioria das
tentativas fracassou. Os mais fracos morriam de imediato, caindo ao chão
em convulsões incontroláveis e dores inexplicáveis. Os mais fortes,
porém duravam algum tempo a mais. Um ano, era a media. Então finalmente
enlouqueciam e se matavam. Sem resultados, Venafelyn abandonou suas
tentativas acreditando ser impossível. O vínculo, através do Poder,
une de forma mais o menos pacifica duas fontes de Essência Primeva. De
forma que mesmo quando Venafelyn pensava tê-lo retirado, ele ainda
estava lá. Sutil, mas ainda presente. Os dois seres agiam como um,
embora não pensassem como tal. Quando Avantu Ventovil morreu, com ele
também se foi à maioria de seus servos. Apenas uma ou duas família de
áureas e um punhado de draconianos sobreviveram, certamente para
morrerem loucos mais tarde.
Porém havia uma diferença crucial entre os servidores humanos, áureos e
draconianos de Avantu e Malfenda. Enquanto os servidores de Avantu eram
vinculados desde o nascimento, um falso deus não. Malfenda era muito
mais antigo e poderoso. Havia uma chance de ser verdade. Havia, sim.
Mas talvez fosse um ardil de Rasgranar para pegar Venafelyn. Atraí-lo a
alguma armadilha. Todos odiavam e temiam Venafelyn.
--- Qual o nome do Tróne Theón? --- Perguntou.
Malfenda, absorto em seus próprios pensamentos, levou um susto.
--- O n-nome da Coroa de Gion? --- O falso deus se encolheu como se
tivesse levado um chute. --- É proibido. Ninguém sabe. Eu não sei...
--- Você sabe. Todos sabem. --- O tom de Venafelyn não deixava brechas.
--- Você tem de saber. Diga. Eu ordeno.
--- Ah, ah. Certo. Certo. Se você diz. --- Malfenda se encolheu tanto
que parecia mesmo estar sentindo algum tipo de dor.
Venafelyn vasculhou o aposento em busca de seu elmo. Ele estava em um
canto, caído, bem menor do que seria normalmente. Venafelyn desejou que
ele se aproximasse e o elmo levitou até suas mãos. Girando-o entre os
dedos, olhou para a imensa estrela da manhã e lamentou que o
sempernico fosse tão inflexível.
Virou-se novamente para encarar Malfenda.
--- Então, qual o nome do deus que você adora?
--- Xal'munlu, a Luz Apodrecida? --- O falso deus soltou um arquejo.
--- É isso?
Venafelyn encaixou o elmo. Ele estava certo, de certa forma. Mas também
estava errado. Não era o nome que ele procurava. Embora aquilo fosse um
sinal. Nem um vinculado seria capaz de proferir um nome criado
exatamente com intenção de ofender seu senhor.
--- O nome verdadeiro.
--- Ylnurduion, a Perfeição?
Venafelyn era paciente. A paciência era um dom natural de alguém que já
existia antes que a Existência existisse. Mas Malfenda começava a
tirá-lo do sério.
--- Ynurduion, o Imperfeito. --- Corrigiu bastante calmo. --- E se você
voltar a falar esse nome na minha frente, somente o próprio Feosmur,
Senhor do Invisível, será capaz de impedir minha mão de quebrar sua
garganta.
Malfenda passou a mão sobre a garganta.
--- Eu lamentaria se isso acontecesse. Se pudesse, é claro. Mas esse
nome sempre me pareceu exagerado mesmo. O Imperfeito! É o nome perfeito
para chamá-lo. Ainda mais depois do que eu vi...
Soltou uma risadinha fraca e indecisa, então se calou.
Talvez o sujeito achasse que Venafelyn estava brincando. Era um tolo, se
pensasse isso. Ele olhou para os lados, como se procurasse algum canto
para se esconder do olhar de Venafelyn. Não deve ter achado, pois voltou
a encarar as duas luzes azuis que cintilavam através da viseira do elmo
de ouranico.
--- Eu realmente não sei te dizer, Venafelyn. Eu já falei que não me
lembro de tudo, não falei? Na maioria das vezes só me lembro de
trivialidade sobre minha própria pessoa. Como eu era. Que dia eu fiz
isso. Que dia fiz aquilo. Aquilo que não está estritamente ligado a mim
é sempre nebuloso. Principalmente quando relacionado ao Trono e a Coroa,
as memórias parecem um abismo. Eu mesmo só vim aqui por que uma imagem
ficava girando em minha cabeça. Uma imagem e alguns nomes sem sentido.
--- Colocou a mão na cabeça, parecia sentir algum tipo de dor. Seu corpo
tremia. --- Está vendo? Se eu tentar força, as memórias ficam piores...
Quem é Gurdalyn? E por que uma nave dourada fica girando em minha
cabeça? Parece algo importante... Eu não sei. Lembro de algumas coisas,
mas não de tudo... Eu juro que é a verdade.
Venafelyn dedilhou os dedos sobre o elmo. Parecia não ter se encaixado
direito.
--- Você ouviu o que eu disse? --- Malfenda aparentava um misto de
curiosidade e irritação. --- Você estava pelo menos me ouvindo?
Venafelyn puxou um pouco mais o capacete. Não era como se o que Malfenda
estivesse dizendo não importasse. Mas o elmo vinha antes.
--- Gurdalyn era um membro da Assembleia das Eras. Segundo Campeão da
Ordem dos Combatentes. --- Venafelyn dedilhou o elmo. Malfenda rangeu os
dentes. Ouranico produzia um som horrível ao toque. Vibrante e
profundo. Mas Venafelyn se irritação do falso deus era pelo ruído ou
pela notícia. --- Atualmente, você deve conhecê-lo como Jarmenur. Acho
que ele também não era seu amigo.
Malfenda cerrou os punhos. A carranca que ele fez parecia ainda pior
naquela face apodrecida.
--- Jarmenur, é? Isso explica muita coisa...
Venafelyn assentiu antes que ele terminasse a frase. Dedilhou o elmo.
Apanhou a placa de sempernico, e encarou Malfenda.
--- Conheço um método para saber se o que você diz é verdade.
Malfenda lançou um olhar desconfiado para a placa.
--- Um método? Algo como ler a mente?
---Isso é proibido.
--- É mesmo? Dessa eu não lembrava. Mas se é assim, como os Primeiros
Deuses faziam para ouvir as orações?
Venafelyn jogou a placa sobre os ombros e se dirigiu para fora da
câmara. Malfenda o seguiu de perto.
--- Ler mentes é tão proibido quanto entrar na casa de alguém sem ser
convidado. Você deveria saber disso. Nós não somos deuses. Nem um de nós
é.
--- Não discordo. Apenas não entendo como você vai saber se eu estou
falando a verdade. Alias, para onde estamos indo?
--- Faça silêncio. --- Ordenou Venafelyn. --- Apenas me siga.
Malfenda deu de ombro, resignado, e o seguiu.
O falso-deus não parecia nem um pouco incomodado com o tom severo de
Venafelyn, nem para onde estava sendo guiado. Era difícil dizer se
estava entusiasmado ou amedrontado.