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Gion

A Lenda de Venafelyn · Capítulo 4 de 9

2 — Perseguido

por AlkhamPublicado

[Perseguidos:]{.underline}

"Sobre a justiça do Trono e glória da Coroa", Aqueles Que São
Ylnurduion.

***

Antes havia Ylnurduion. Perfeito, eterno. Ele era o que era antes de
tudo ser.

Ele criou tudo a partir de seu querer.

Mares e rios. Céus e terras.

E seus servos eram os deuses.

Deuses da terra. Do fogo. Da água. Do ar.

Da treva e da luz.

Da vida e também da morte.

E eles o tinham em alta conta.

Mas um dia, entre louvores de sua glória e o canto de seus amores,
surgiu a cobiça.

E os deuses almejaram serem maiores do que já eram.

Eles queriam ser Ylnurduion.

E por isso foram castigados.

***

[Alegações de um falso deus:]{.underline}

Depois uma caminhada que parecia não ter fim por entre as passarelas do
Salão, Venafelyn parou diante de um corredor, cheio de portais. Seu
olhar se dirigiu, de forma quase automática, para o lado esquerdo onde
dois guardiões repousavam diante de um portal dourado, alto o suficiente
para permitir a passagem de um ca'elestibu em forma total. Diferente
dos outros, esses guardiões tinham dez metros de altura, quase três
vezes maior que o padrão comum.

Nas paredes que cercavam a entrada do portal, haviam ilustrações em
tamanho reduzido de obras e feitos dos mais ilustres membros do Salão.
Outras partes da parede eram revestidas de algo semelhante ao vidro, por
onde era possível ver o Vazio Entre Estrelas; uma nebulosidade cinzenta
flutuando para além de Lunam. Uma visão de embrulhar o estômago.

--- O que significa isso aqui? --- Perguntou Malfenda.

Venafelyn se virou. A figura era tão típica, e Venafelyn já a havia
visto tantas vezes, que por um instante não conseguiu compreender o
porquê da admiração de Malfenda. Eram três Forjadores manipulando fluxos
de Poder Primevo em forma de Fogo Celeste. O fluxo girava através de
cada um deles e depois se união para mais na frente formar uma pequena
estrela dourada --- se Venafelyn bem lembrava, aquele era o sol do nono
Mundo Primário, Helcrân.

Bem típico. Afinal aquele era o.Solis Salão, onde estrelas foram
concebidas. Mas Malfenda estava franzindo o cenho apenas para a figura
central, envolta em labaredas de fogo escarlate com as asas abertas e
Seralyn, e o próprio Venafelyn, ao seu lado, como figuras de segundo
plano.

Malfenda ergueu o dedo.

--- No caso, isso é um dragão? Acho que... hum... Parece... ---
Cruzando os braços atrás das costas, Malfenda murmurou enquanto
analisava os detalhes da figura.

--- Ande logo, falso deus. Você não veio aqui em busca de curiosidades.
--- Venafelyn ignorou os murmúrios e voltou a caminhar. --- Siga-me.

Malfenda, absorto na imagem, demorou algum tempo até retirar seu olhar
da parede. Com uma corridinha desengonçada, tentou acompanhar a marcha
quase mecânica de Venafelyn.

Com um estrondo, Venafelyn parou diante dos guardiões.

--- É aqui. --- anunciou.

Malfenda puxou o capuz, incomodado. Cravou o olhar nos guardiões por um
tempo, de forma analítica, atentando para os componente das criaturas
como se imaginasse de que forma os desmontaria sem quebra-lós. Venafelyn
se lembrava de como Fenyl gostava de inventar coisas. Talvez o falso
deus Malfenda não fosse tão diferente.

Os guardiões permaneciam imóveis feito montanhas. Um de cada lado do
portal, com os braços cruzados. As orbitas oculares --- semelhantes ao
halo de uma vela --- giravam através da viseira de seus elmos,
acompanhando oa movimentos dos visitantes.

Malfenda de repente se agitou fazendo um gesto brusco para frente, como
se fosse se aproximar. Um dos guardiões descruzou os braços e apontou a
palma aberta em direção ao falso deus. Faíscas de fogo emanaram da mão
metálica, dando indícios de algo pior poderia acontecer.

Malfenda, surpreso, tropeçou para trás, e caiu sentado no piso metálico.
O guardião voltou ao repouso. Imóvel, como se nada tivesse acontecido.

--- Esse daqui é diferente dos outros. --- Malfenda fungou, indignado,
enquanto se levantava. --- Até pareceu que iria mesmo me atacar.

--- São unidades especiais. --- Respondeu Venafelyn. --- Não faça nada
muito tolo diante deles ou lhe matarão sem hesitar. Daqui em diante, se
você der dois passos sem aviso, nem mesmo eu serei capaz de evitar sua
morte.

Malfenda meneou a cabeça, um sorriso amargo surgindo em seu rosto.

Venafelyn se colocou a frente dos guardiões, que descruzaram,
simultaneamente, os braços e giraram seus corpos em direção ao Senhor
das Auroras.

--- Seu desejo, é o nosso desejo, Construtor. --- A voz dos guardiões
era como ferro ralando, dura e monótona. Aguda. --- O que deseja?

--- eixe-me passar, --- Ordenou Venafelyn.

--- Entre, mestre Venafelyn.

Os guardiões giraram em direção o portal, cada um envolveu um dos lados
da entrada e puxou até escancarar uma passagem larga demais para alguém
do tamanho em que estava Venafelyn.

O compartimento estava no completo breu, mas Venafelyn o adentrou com
uma calma segura de quem conhece cada canto do local. Malfenda foi logo
atrás, dividido entre lançar olhares de soslaio para os imóveis
guardiões e estreitar os olhos para as costas de Venafelyn, tentando
enxergar alguma coisa.

--- Não tem luz aqui? --- perguntou.

--- Por aqui.

Venafelyn estendeu a mão e uma luz embranquecida surgiu iluminando os
arredores. Esquivando-se para a esquerda da câmara, iluminou uma grande
área cheia de entradas menores. Contou mentalmente o número delas,
lembrando-se de quem era Malfenda e para que servia aquele lugar mal
iluminado. Escolheu um e entrou. O falso deus o seguia de perto,
ansioso.

No corredor da terceira entrada apenas um guardião de estatura comum
fazia guarda. Embora não houvesse lâmpadas ali, uma luz pálida parecia
emanar de todos os lugares ao menos tempo soltando sombras sobre a face
encapuzada do falso-deus e inutilizando a chama de Venafelyn, que logo
se apagou ao adentrar aquele lugar.

--- Peculiar --- disse Malfenda, girando o pescoço para observar o
arredor. --- Tem um ar até familiar, na verdade. Só não me lembro do
porquê.

Venafelyn se desviou do caminho e se moveu em direção à parede do
corredor. Ele tocou nele, e a parede se afastou para os lados, abrindo
passagem em direção uma câmara menor e escura. Sem preâmbulos, Venafelyn
adentrou a passagem. A parede se fechou atrás dele, como uma ferida
cicatrizada.

Venafelyn colocou a placa de sempernico no canto da câmara, se assentou
e esperou Malfenda entrar.

A parede se agitou que nem água quando a mão ressequida de Malfenda se
avolumou para dentro da câmara. Os dedos do falso deus balançaram entre
a parede ora tangível ora intangível. Depois a mão sumiu de novo, e o pé
direito emergiu para dentro. No outro instante toda a carcaça áurea
emergiu para dentro da câmara.

Curioso, Malfenda começou a tocar a parte interna da parede, que não
voltou a se abrir novamente.

--- Bastante curioso. Para que serve mesmo isso? È uma espécie de "sala
da verdade", como as que Jarmenur possui...? --- No meu da frase,
Malfenda soltou um sorriso resignado como se acabasse de perceber a
verdade. --- Ah, entendi... --- Girando sobre os calcanhares observou
os arredores de sua cela.

--- No passado teve muitas funções, --- explicou Venafelyn. --- Mas nós
últimos milênios vem servindo de prisão. Um propósito precário se
comparado ao original, mas funciona. É praticamente impossível sair
daqui com o uso do Poder Primevo ou da força bruta.

Malfenda soltou um sorriso que era só desgraça.

--- Por que não estou surpreso?

--- Nada mais justo, traidor. Por seus crimes, você ficará preso aqui. E
se o que você diz for verdade, agora você terá tempo para recuperar suas
memórias em segurança.

--- Aham, sei. --- Malfenda deu de ombros, não parecia nem um pouco
incomodado, apenas resignado, como se já tivesse preparado para a
situação --- Acho que isso é melhor do que eu imaginava. Na verdade,
quando decidi vir atrás de você, eu pensava que até essa altura, você já
teria pintado esse chão com meu sangue. Bem, não foi tão mal assim.
Alias por quanto tempo você pretende me manter aqui?

--- Até que eu descubra a verdade ou encontre alguma utilidade para
você. Somente então pensarei na punição adequada para seus crimes.
Lembre-se que mesmo que você esteja falando a verdade, isso é se Tróne
Theón e Drakóus Trógon estiverem mortos, nada do que vocês fizeram será
perdoado. Nada muda. Vocês mancharam a dignidade dos Construtores e
traíram tudo pelo qual lutamos. Não há perdão para isso, nem mesmo
castigo duro o suficiente.

--- Sabe, --- Malfenda balançou o dedo em direção de Venafelyn --- você
fala como se realmente acreditasse nisso. Por um lado é louvável. Mas
por outro lado, é apenas tolice. Não me lembro bem de como tudo isso
começou, mas sei que os tais Construtores de quem você fala com tanto
orgulho hoje estão assentando em seus respectivos tronos e tamboretes
celestiais. --- O deus encarnado alargou um sorriso doloroso, e
enumerou: --- Jarmenur está lá em Talutra, com seus chifres vergados
diante de mapas e mais mapas de dezenas de planetas que ele ainda não
conquistou, mas que planeja. Aquele doido do Unurdan esmaga os
habitantes de Lorseyn sob seus pés como formiguinhas, e todos os dias
centenas de pessoas derramam seu sangue em nome do deus louco. Uma coisa
ridícula, aquilo. Andei dando uma de peregrino de mundos, por isso sei
muito bem do que estou falando. Estar desvinculado da Coroa me permitiu
isso. Eu viajei de canto a canto de Gion em busca da verdade, e a
verdade, Venafelyn, ò último dos Construtores, --- zombou, abrindo os
braços em uma posição grandiosa --- é que esses tais Construtores ou
estão mortos ou governam planetas ou sistemas planetários como deuses. E
o mais ridículo de tudo isso, veja só!, é que a maioria realmente
acredita nisso. --- Enojado, Malfenda cuspiu sobre o piso, como se
estivesse se livrando de uma imundície. --- Eu amaldiçoo todos esses
infelizes.

--- Você também fala como se acreditasse no que diz. --- Respondeu
Venafelyn, inabalável. --- Mas não é muita inconstância alguém como você
dizer algo assim, falso deus dos elderes?

--- Eu digo o que penso. --- Havia um pouco de irritação no tom de
Malfenda. --- Eu errei, e não nego. Mas nunca pedi para ser chamado de
deus ou algo assim. Você acha que eu gosto de ser chamado de patrono dos
elderes? Eu odeio aquela gente. Talvez tenha haver com meu passado, mas
eu não sei. Não sei mesmo. Simplesmente odeio aquela raça. Alias você
acha que eu gostei de servir ao Tróne Theón por todos os malditos
séculos em que ele reinou Gion até o ultimo dia antes de ele partir para
seu templo em Helcrân? Fazendo exatamente tudo o que ele mandava, como
um escravo sem livre-arbítrio? Ou acha que morro de amores por
Rasgranar? Ah, você não sabe o quanto eu temia a presença do Trono. Eu
morria de medo. De pavor mesmo. Um frio que me gelava até o último fio
de cabelo. Sempre tive a sensação de que aquilo não era algo que devesse
existir. Mesmo agora que eu sei o que ele realmente era, ainda sinto
pavor só de pensar.

Malfenda cruzou os braços e se esticou sobre o chão, encarando fixamente
o teto pálido da câmara.

--- Eu não tenho motivo para mentir --- suspirou, cansado. --- Se você
não acredita em mim, não vou nem posso lhe obrigar. Mas a verdade
continua sendo essa: a Coroa e o Trono de Gion não existem mais. É
Rasgranar, --- apontou o dedo para o alto --- lá de cima que governa
todos os mundos de Gion. Grande, soberbo e inatacável. Ele e alguns
poucos escolhidos entre seu panteão pessoal. Não duvido se o poder o
tiver corrompido a ponto de acreditar que é a própria Coroa de Gion. Nem
mesmo esses que se chamam de deuses maiores conhecem a verdade. Um ou
dois até pode desconfiar, mas são covardes demais para ir atrás da
verdade. Pode parecer conspiração mais essa é a verdade. Bem tanto faz,
hora ou outra você iria ficar sabendo mesmo.

Venafelyn se moveu até uma das extremidades da câmara. Uma parede
transparente dava visão ao cosmo lá fora. Lunam se avolumava como uma
pequena orbita verde cinzenta para além do pálido Vazio Entre Estrelas.

--- Eu já suspeitava --- disse. Atrás dele, Malfenda soltou um murmúrio
incompreensível. --- Quando Tróne Theón partiu para seu templo entre os
Mundos Estilhaçados, eu estava aqui. Exatamente aqui. E senti sua
presença abandonar o tecido dessa realidade...

Venafelyn se lembrava com precisão daquele dia.

Suvitan, a Dimensão dos Elementos, essa mesma em que Gion fluía, sofreu
um abalo, da mesma forma que um rio ao ter uma grande parte de sua
correnteza barrada ou cortada. Na hora, ele não soube o que era, mas
suspeitou. Uma entidade além do normal havia se retirado dessa
existência. Tróne Theón, talvez. Então veio outro abalo. Infinitamente
maior. Drakóus Trógon, a abominação dos dragões, também deveria
abandonara Suvitan.

--- Isso foi a cerca de quinhentos anos. --- continuou. --- Desde então
venho esperando a confirmação. Alguma prova de que isso era mesmo
verdade, ou se era apenas um sonho; um delírio. Algum tipo de
alucinação. Eu não tinha forma de saber a verdade. Não foram poucas às
vezes em que considerei investir contra Lostath e tentar ultrapassar o
véu de ocultação jogado sobre os Mundos Estilhaçados.

Malfenda girou para o lado, encarando as costas de Venafelyn.

--- Loucura. Nem você conseguiria sobreviver a algo assim.

Venafelyn assentiu.

--- O tempo trás dores, mas o suicídio nunca foi uma opção para mim, por
isso decidi não seguir adiante. Talvez Feosmur ainda tenha alguma razão
para me manter vivo...

--- Não me lembro de quem é esse tal Feosmur, mas conheço uma boa razão
para alguém como você se manter vivo. Embora Tróne Theón não exista
mais, Rasgranar, que é tão culpado quanto ele, ainda vive. E eu sei que
você o odeia quase tanto quanto eu.

--- Está falando de vingança? --- Venafelyn tilintou o elmo. --- Essa é
uma tolice que não me digno a desejar. O que está feito está feito.
Matar Rasgranar, ou mesmo todos os falsos deuses, não me traria nem um
alívio.

--- Vingança? Quem está falando em vingança, meu bom Venafelyn. Estamos
falando de justiça. Qual o motivo de você ter me prendido aqui se não
por isso? Justiça! --- Em um salto, Malfenda se colocou de pé. ---
Justiça. --- Repetiu como se testasse o sabor da palavra. --- Nunca
gostei desse nome, mas ser o caso. Me diz, sinceramente, você nunca
desejou dar a paga ao deus dos não-deuses por tudo o que ele fez?

--- Todos os dias. --- Respondeu Venafelyn, enfático. --- Mas o desejo é
um passarinho bonito, e às vezes tolo, que nem sempre pousa em nossas
mãos.

Malfenda resmungou alguma coisa, mas Venafelyn não prestou atenção.
Deslizando seus dedos envolvidos em aço ouranico pela parede
transparente, cercou o vislumbre tremulo de Lunam, pensativo. Houve uma
época em que tudo que mais desejara era vingança.

Vingança contra os dragões. Vingança contra os Almejadores do Caos.
Vingança contra os Antideuses. Vingança contra Tróne Theón. Vingança
contra...?

Hoje Venafelyn não conseguia compreender esse sentimento. Qual era mesmo
a vantagem disso? Às vezes sentia que a própria justiça era algo vago.
Tão inalcançável. Tão impossível. Tal qual uma bela estrela no céu,
bela, brilhante, mas tão, tão distante... Não foram poucas as vezes que
se pegara imaginando se ainda acreditava nisso ou se apenas havia se
esforçado de tal maneira a acreditar nesse ideal apenas por que era o
certo a se fazer que agora não possuía mais forças para voltar atrás.

--- De todo modo, eu não teria forças... --- disse por fim. Mas nem
mesmo ele soube ao que se referia. Força para acreditar em justiça ou
para matar Rasgranar?

--- Mas você é Venafelyn! --- exclamou Malfenda, entre a surpresa e a
incredulidade. --- Venafelyn, o Assassino de Deuses. Venafelyn, o
inimigo da Coroa, Venafelyn, o matador de Avantu. Uma lenda viva. O
Anaantanha, a imagem do próprio mal. E enquanto alguns acreditam que
você era o líder dos deuses antigos que desafiaram Ylnurduion, ou outros
até o chamam de antideus...

Venafelyn socou a parede, fazendo tremer a cela. Malfenda fechou a boca,
se encolhendo no canto. Talvez houvesse passado dos limites.

--- Antideus?! --- a voz do forjador das estrelas saiu como um açoite,
chamas arderam ao redor de Venafelyn. Por um instante suas quatro asas
se crisparam como lascas de vidro ardentes. Num piscar de olhos Poder
Primevo fluiu ao seu redor, como um turbilhão escarlate, e se dissipou
logo em seguida. , voltaram a tornarem-se volúveis. --- Não volte a
falar isso novamente. --- disse, tentando controlar seus ânimos. Houve
uma época em que ele incendiaria qualquer criatura por falar algo assim.
Mas até mesmo isso já era passado.

Malfenda assentiu, apenas balançando a cabeça.

--- Nunca mais... nunca mesmo...

De costas, Venafelyn viu que o reflexo do falso deus na estrutura
cristalina da parede estava ainda mais pálido que de costume. Se não
fosse o fato daquela câmara impedir o uso de Poder Primeva era provável
que Venafelyn o tivesse incinerado sem querer apenas com aquele pequeno
lapso de fúria. Com certeza Malfenda tinha percebido isso.

Venafelyn continuou a falar como se nada tivesse acontecido. Malfenda
soltou um suspiro aliviado.

--- A maioria do que as pessoas sabem a meu respeito não passa de
fabula. Coisas tolas contadas por pessoas ainda mais tolas. Você já
deveria saber disso, Fenyl.

--- Mas nem tudo. --- opinou o falso deus. Seu tom de voz estava bem
manso. Quase humilde. Um verdadeiro alívio para Venafelyn. Se ele
continuasse tão escarnecedor como antes, era difícil saber até que ponto
o forjador de estrelas conseguiria se controlar. --- Provavelmente
conheço mais a seu respeito do que qualquer um vivo hoje em dia, fora
parte o próprio Rasgranar, e acho que nem tudo é mentira. Minhas
lembranças são úteis. Ás vezes. --- acrescentou ligeiro.

--- Mas até que ponto? Até que ponto você se lembra do passado? E de
mim?

Malfenda colocou a mão na cabeça, pensativo.

--- Sendo sincero, não muito. Mas, --- Malfenda apontou para a parede
transparente, o Vazio Entre Estrelas, Gion, --- antes de vir para cá,
andei fazendo algumas pesquisas a seu respeito. Sobre a morte de Avantu,
sobre aquele planeta, Lutinavel. Umdo. Goal. Fimagion. Consegui até
retirar o pouco que o Panteão sabe a seu respeito. Enfim, procurei em
tudo quanto é lugar...

--- E foi assim que descobriu minha localização? --- Indagou Venafelyn,
incrédulo. Mesmo se Malfenda tivesse dedicado séculos nessa busca, era
provável que não encontrasse nada. Afinal se os falsos deuses soubessem
mesmo onde Venafelyn estava já teriam feito algo. Além do mais Venafelyn
nunca ficava no mesmo lugar por muito tempo.

--- Na verdade não, --- disse Malfenda --- Eu contei com a ajuda de um
conhecido meu que me devia alguns favores.

--- Conhecido?

Malfenda abriu e fechou a boca, depois deu um tapinha no ar como se
descartasse uma ideia e disse:

--- È uma longa história. Outra hora lhe explico.

Venafelyn assentiu. Fosse o que fosse, o falso deus teria muito tempo
para lhe contar. Dando as costas à vidraça, e ao reflexo trêmulo de
Lunam, encarou Malfenda, em silêncio. E repensou, longa e demoradamente,
quais motivos o levaram a uma situação como aquela. Ao fazer isso os
dedos de Venafelyn tremiam, sua manopla tilintava um som irritante aos
ouvidos, pequenas faíscas giravam e se apagavam num instante. Mas o mais
difícil era contar a latente sensação de esmagar o crânio daquele
maldito traidor. As faíscas eram escarlates como sangue vivo. Fogo dos
Dragões. A sensação de dever a ser cumprido. Morte.

Os olhos do falso deus eram como pequenos grãos de ouro, jogados na lama
apodrecida que havia se tornado a face de seu receptáculo áureo. E por
um instante, Venafelyn notou algo semelhante a um desafio naquele olhar
dourado. Mas logo sumiu. Um breve deslize, talvez. Estranho, isso.
Deveria se medo, se ele fosse sensato.

--- Eu sei que você deve ter seus motivos mesquinhos, --- começou a
dizer o Forjador das Estrelas. Em seu tom calmo não havia o menor sinal
da confusão de desejos que giravam em sua mente. Apenas a mão direita
tremia. Sorte que sua estrela da manhã não estava ali, ou azar...
Calmo, ele continuou: --- mas por que logo agora você decidiu vir a mim?

--- Isso é realmente necessário? --- Malfenda suspirou, parecendo
cansado.

--- Poder ser a diferença entre você sair ou não vivo dessa sala. Então,
sim. É necessário. Diga.

--- Certo. Se você diz que é, então é. Meu desejo é livrar Gion de todos
os deuses, --- confessou, quase sussurrando --- ou melhor, de todos os
falsos deuses, como diria você...

--- Inveja? Ganância? Você deseja tomar o lugar deles? Deseja dar um
golpe em Rasgranar e me usar como ponta de lança? --- Se ele falasse
somente a verdade, não surpreenderia Venafelyn caso dissesse sim a todas
as opções.

--- Não. Não. Ah, pelos deuses e não-deuses, é claro que não. Eu não
sou louco. --- Malfenda quase ri --- isso só não seria engraçado por ser
trágico demais. Ah, ah. Basta você saber que eu quero tanto ser o deus
dos deuses quanto você iria querer que suas estrelas fossem devoradas
pelos antideuses. Você não quer isso, quer? Nem eu.

--- Péssima comparação.

--- É. Pode até ser. Mas realmente... --- Malfenda balançou a cabeça.
--- Ah, estou divagando. Mas enfim, não tem mistério. Agora que estou
desvinculado da Coroa, por que não me "desvincular" de Rasgranar
também, hum? Só isso, --- fechou os punhos e depois os abriu,
devagarzinho como se libertasse algo pequenino e delicado --- muitas
vezes o passarinho do desejo do qual você falou, só não pousa em nossas
mãos porque o fechamos em nossos punhos.

--- Outra péssima comparação. Mas eu compreendo o que você quer dizer.

Malfenda ergueu as mãos, na defensiva.

--- A sua não foi melhor. Mas enfim, depois de tanta conversa, você não
está a fim de pelo menos me deixar sair um pouco. Sei lá, esse lugar é
grande. E muito interessante. Pode bolar nossas estratégias...

--- Não. --- Venafelyn se dirigiu até a parede oposta do cubículo e se
assentou, com a placa de sempernico em mãos. Cruzou pés e jogou o par de
asas superior sobre o torso. --- Já lhe disse, você ficara aqui até que
eu encontre alguma utilidade pratica para alguém como você. Não se
destrona o deus dos falsos deuses com palavras. --- Apertou a placa
contra o peito e fechou os olhos. A luz da viseira de seu elmo
tremeluziu e se apagou.

--- Então você vai mesmo... O que você está fazendo?

--- Silêncio... --- Venafelyn ainda ouviu alguns resmungos
incompreensíveis da parte do falso deus antes de ser abraçado pela
serena viagem de consciência...

Sédah era seu destino dessa vez. Antes de tudo ele deveria ver com seus
próprios olhos a verdade...

***

[Aventuras]{.underline} [Desagradáveis]{.underline}:

Malfenda contou até cinquenta antes de tomar coragem e se erguer do
canto onde havia se encolhido. Então contou novamente até cinquenta,
respirou fundo, e se aproximou do imóvel Forjador de Estrelas*. Parece
dormir*, pensou. Bem, com aquele capacete na cabeça, mal dava para
enxergar os olhos de Venafelyn, mas Malfenda podia jurar que estavam
fechados. Estranho. Ca`elestibus não deveriam dormir. Ou pelo menos era
o que achava. Bem, em nem uma de suas memórias ele se lembrava de algo
assim. Mas suas memórias estavam mesmo embaçadas. Destorcidas.
Embaralhadas como um quebra-cabeça milenar. Até pensar nisso já lhe dava
vertigem. Idiotice. Não é hora para isso, se repreendeu, segurando na
lateral da cabeça como se isso fosse adiantar de alguma coisa.

Lentamente, como se pisasse em navalhas, se abaixou ao lado do
ca´elestibu "adormecido". Deveria ser culpa daquela placa. Parecia
interessante, qualquer coisa que houvesse naquele lugar deveria ser. Ele
também estava segurando ela quando Malfenda entrou... Ah, mas qual a
importância disso agora?
Era só o tédio que o fazia observar essas
coisas. Ou talvez o medo de pensar no que viria em seguida. Pareceu que
Venafelyn havia aceitado sua proposta. Foi isso que ele deu a entender,
pelo menos.

Ah, era quase um sonho. Ou melhor, um delírio. Malfenda havia passado
por um inferno para chegar até ali, e encontra-se com o lendário
Venafelyn. É claro, ele não esperava que ele fosse aceitar sua história
de cara. Ele acreditaria que um dragão o libertou do vínculo com a
Coroa? E que ele e esse mesmo dragão foram os responsáveis pela "morte"
do Trono e da Coroa? Que Rasgranar havia descoberto tudo e que agora os
procurava em cada canto de Gion como se fossem ratos em sua gigantesca
cozinha? Ah, ele havia passado um inferno desgraçado. Uma obra digna dos
deuses do caos. Até os antideuses, de suas estrelas negras, aplaudiriam
a maneira como Rasgranar os perseguiu. Primeiro ele mandou os Aspectos
do Trono. Criaturas terríveis, aquelas. Malfenda tinha tremeliques só de
pensar. Cinco deles de uma só vez. Se não fosse Eora, hoje em dia
Malfenda na lista de deuses defuntos. Junto com Avantu, e coisa e tal.
Terrível. Mas nem Eora era pareô para aquilo, então eles fugiram do
jeito que puderam. Três foram atrás de Eora. Um se perdeu de rumo. O
quinto parecia querer seguir Malfenda até o fim dos mundos. Sorte que o
desgraçado não conseguiu pegar o ritmo quando entrou no Vazio Entre
Estrelas.

Em Lorseyn, Malfenda achou que estaria seguro por um tempo. Quem
procuraria um fugitivo no reino do deus louco? Era o que ele pensava.
Unurdan caiu em uma de suas crises de loucura e tentou lhe matar.
Certeza que tinha dedo de Rasgranar ali. Depois veio Drasnuil, aquele
cãozinho agressivo de Rasgranar. Antes mesmo de Malfenda sair de
Lorseyn, o sujeito já estava lá. Armadura brilhante, prateada. Chegava a
dor os olhos só de em olhar. Uma lastima completa. O brutamonte
reluzente o perseguiu de canto a canto de Lorseyn, o acuando em cada
buraco ou esconderijo que ele entrava. Unurdan ria daquilo tudo como se
fosse à coisa mais normal.

Malfenda chegou ao absurdo de roubar uma nave por que voar sozinho se
provara um fracasso insuperável.

Em Sédah, sequer teve tempo de se despedir. Passou feito um tsunami,
levou tudo que precisava no momento, escondeu seu verdadeiro corpo no
buraco mais profundo que encontrou, e fugiu de novo. Com a nave,
conseguira alcançar uma boa distancia de Drasnuil. Mas o miserável era
rápido demais, e Malfenda não estava a fim de saber se aquela espada de
sempernico era só de enfeite ou se era tão boa para cortar deuses
fugitivos quanto suas ameaças faziam crer. Que sujeitinho
insuportável.

Foi quase uma semana nessa lenga-lenga. Até que Malfenda, com Drasnuil e
sua espada negra no encalço, se encontrou com Eora lá pelas bandas do
Sistema Planetário de Utymgo. Ah, mas lá as coisas mudaram.

Eora era muito bom no que se refere a correr de deuses panteônicos.
Ficou indignado com a ideia de Malfenda montar em suas costas, então
decidiu leva-lo entre as garras. Eora era um sujeito arrogante e
pomposo, mas nem de longe se comparava com aquele dragão retrato na
parede. Malfenda também não o viu controlar fogo em momento algum.

Os dois conseguiram ganhar ainda mais distancia de seus perseguidores, e
então, quando chegaram ao Sistema de Lunam, Eora lhe explicou seu plano
desesperado. Vá atrás de Venafelyn, dissera ele, como se fosse à coisa
mais óbvia a se fazer. Tá bom que eles já haviam combinado de fazer
isso, mas iriam juntos. Ou então somente Eora. Qualquer criatura seria
mais recomendável a convencer Venafelyn do que um deus. Mas Eora
insistiu. Disse que Malfenda era um atraso e que se fosse para morrer
preferia ser longe dos gritos dele. Bem, hora dessas, ele já deve ter
morrido mesmo, longe dos gritos de Malfenda.

Malfenda saiu no lucro, no fim das contas.

Comparado aos últimos dias, esse cubículo de Venafelyn era um paraíso.

O único problema é que Eora sabia a localização de Venafelyn, e se o
miserável tivesse sido pego vivo poderia dar com as línguas nos dentes.
Ah, tomara que tenha mesmo morrido. Ás vezes era tão difícil lidar com
Eora quanto dialogar com o maldito deus dos guerreiros, Drasnuil.

--- Aquele brutamonte boçal... --- disse sem perceber que falava em voz
alta.

--- Pelo estranho que pareça --- Respondeu Venafelyn, seus olhos
reluziram como castiçais através do elmo ---, não é a primeira vez que
sou chamado assim.

Mais do que rápido, Malfenda recuou para trás, quase tropeçando nos
calcanhares.

--- Ah, ah. Não era de você que eu estava falando. --- Mas bem que
poderia ter sido, pensou.
--- Eram só algumas memórias retornando.
Sabe, essas coisas e tal. Acho que tinha ver com Jarmenur. E... sei
lá.--- Malfenda parou de falar ao perceber que não estava recebendo o
mínimo de atenção.

Agindo como se estivesse sozinho, Venafelyn ergueu a estranha placa e a
analisou.

--- Não deve funcionar aqui. E também precisa de recarga. --- Dito isso
tocou a parede da sala, que se abriu ao seu redor.

--- E eu? Vai me deixar aqui mesmo? Até quando?

Malfenda girou o pescoço, observando a câmara. Fora parte à vidraça com
visão para o estonteante Vazio Entre Estrelas, o local era um verdadeiro
cubículo. Uns quatro metros de altura por seis de extensão e largura.
Iluminado por aquela luzinha opaca que parecia não vir de lugar algum.
Não havia nada ali, além de Malfenda, Venafelyn e a placa em seus
braços. Dava náuseas em Malfenda. Parecia mesmo uma das "salas da
verdade" de Jarmenur, um pouco antes de terem seu piso branco sujo de
sangue. Pensamentos tenebrosos, esses, refletiu, dando uma rápida
olhada na postura de Venafelyn. Parecia calmo. Bem, calmo não. Mas não
parecia agressivo, no momento. Dizer que estava com medo era pouco,
Malfenda ainda estava horrorizado com a presença daquele monstro
blindado em chamas e aço. Mas conseguia disfarçar isso da melhor
maneira.

--- Por enquanto, eu não planejo deixa-lo morrer. Mandarei que um
guardião traga água e comida dos Jardins de Lunalyn.

--- Quem é Lunalyn? --- Malfenda ficou curioso.

--- Não seja tolo. Visitarei você quando for necessário. Reflita sobre
seus últimos milênios de vida, falso deus, e agradeça Feosmur.

E saiu. A parede se fechou atrás dele, tal e qual uma muralha. Mas sua
voz ainda ecoou por um bom tempo dentro da câmara.

--- Brutamonte idiota... --- Resmungou Malfenda, imaginado que
Venafelyn já deveria estar longe demais para ouvi-lo.

Se acocorando em um canto, cravou os olhos no teto, mal-humorado. Era
liso, como uma lasca de mármore bem talhada. Nem uma falha, nem um grão
de poeira, nem aranhão. Depois fitou a parede à frente; Era lisa, igual
uma fatia de porcelana. Nem uma falha, nem um grão de poeira, nem uma
aranhão. Depois a outra parede, depois o piso, depois a parede ao lado.
Igual, igual, e igual.

--- Isso... Isso... É tedioso. --- Soltou um longo suspiro e se
esticou sobre o piso. Dormir deveria ser menos tedioso. Ah, pelo menos
isso. Dormir! Nem ele sabia há quanto tempo não tinha um sono decente.
Áureos conseguiam resistir ao cansaço bem mais que a maioria das raças,
mas aquele corpo já estava pedindo, ou melhor, suplicando um bom
descanso a um bom tempo. Os Aspectos do Trono, Unurdan e Drasnuil não
davam descanso a ninguém. Ao menos nesse quesito Venafelyn se revelava
um brutamonte mais cordial.

Malfenda fechou os olhos, e forçou-se a imaginar coisas boas e felizes.
Se estivesse em pleno uso de seus poderes poderia criar os sonhos que
ele quisesse. Mas pelo jeito aquela salinha do silêncio não permitia
mesmo o uso de Poder Primevo. Pensou em Rasgranar sendo devorado por uma
legião de draconianos famintos. Pensou em Drasnuil sendo pisado até ter
aquela armadura mais vermelha de sangue do que de prata. A cabeça de
Jarmenur empalhada em uma de seus laboratórios em Sédah. Ah, pensamentos
felizes. Especialmente agradável foi se imaginar chutando o irritante
elmo de Venafelyn.

Logo o tempo passaria. Talvez quando acordasse Venafelyn já tivesse
caído em si e lhe tirado dali. Daí para frente seria um passo atrás do
outro até terem Rasgranar em suas mãos. Então...

--- Enfim estarei livre! --- Esse era o mais alegre dos pensamentos.
Livre dos deuses, livre de Sédah, livre de ser chamado de deus do
elderes (Talvez ficasse com o titulo de deus do saber. Era legal, até),
livre da Coroa. Ser livre deveria ser bom. Malfenda tinha alguns
pensamentos desconexos de uma época assim. Eram tão vagos, porém tão...

--- Livre, é? Nem daqui mil anos.

--- Pela mão do antideus! --- Malfenda se colocou de pé tão rápido que
nem mesmo ele percebeu. De onde veio isso? Não havia ninguém ali, então
como...?

Toc, toc, toc, ressoou a parede ao lado. Um som oco de alguém batendo na
construção. Virando-se em direção do som encarou o exato momento em que
a parede embranquecida se cristalizou em um tom azul transparente,
possibilitando a visão de outra câmara igualzinha a que Malfenda estava.

--- Aqui. --- Toc, toc, toc. Um sujeitinho corcunda bateu na parede do
lado de lá. --- Ficou assustado, camarada?

--- Nem um pouco. --- Mentiu Malfenda. --- Quem é você? O que está
fazendo aqui?

O homem era magro como uma vara e sua postura corcunda reduzia sua
estatura pela metade. Uma barba fina e desgrenhada lhe descia até a
cintura. O rosto finíssimo era à personificação da anorexia. Vestia um
manto rasgado e uma túnica amassada que um dia já deveria ter sido roxa.
Mas o estranho mesmo era suas asas. As duas brotavam mais o menos da
altura dos ombros. Porém uma delas tinha o dobro do tamanho da outra.
Ambas estavam igualmente mutiladas, quebradas como lascas vidro, mas a
menor parecia um membro anormal. Malfenda jamais havia visto tamanha
decadência em um elestino. Se é que era mesmo um elestino. Muito
curioso. Interessante, até.

--- Eu que deveria te perguntar isso, meu camarada. --- O abominável
elestino passou suas longas unhas sobre a superfície agora transparente
da parede provocando um som rivalizável ao do elmo de Venafelyn. ---
Quem é você? Quem é você? Quem é você? --- repetiu, fazendo pano de
fundo aos aranhados na parede.

--- Pare com isso. --- Malfenda colocou a mão nos ouvidos. Era até pior
que o do elmo, mais alto.

--- "Pare com isso," --- debochou o outro, aranhando ainda mais a
parede. --- "Pare com isso" "Pare com isso" "Pare com isso" "Pare com
isso" "Pare com isso".

--- Fen! --- Gritou Malfenda tentando ser ouvido além da barulheira. ---
Meu nome é Fen!

O estranho elestino retirou as garras da parede. A barulheira cessou, e
se assentou sobre as duas pernas cruzadas.

--- Fen! --- repetiu. --- Um nome feio, para uma pessoa feia, combina
com você. Fen. Fen. Camarada Fen. Qual meu nome? Meu nome e Traun-Elaum!
Traun filho do filho de Elaum, príncipe de Nelial! Lindo nome! Eu sou um
elestino, sabia?

--- Percebesse. --- Filho de príncipe uma ova. Isso deve ser algum louco
qualquer. O que faz aqui que é o mistério. --- Mas então, Traun, o que
você anda fazendo aqui? Tá só de passagem mesmo ou veio para ficar?

--- Oh, não, não. Só estou esperando.

--- Esperando? O que?

Traun-Elaum apontou suas unhas ressequidas em direção à vidraça na
câmara de Venafelyn que dava acesso ao Vazio Entre Estrelas. Seus olhos
pareceram brilhar, suas se contraíram um pouco parecendo mais serias. Se
aquele era um louco, Malfenda imaginou se que ele deveria estar em um
raro momento de sanidade.

--- A Grande Senhora. --- Resmungou Traun, baixinho. --- Estou esperando
ela. Você também?

--- Nem sei quem é essa. É Kali de Lunam?

--- Que?

--- A deusa. De Lunam, sabe? Ela mora ali --- Malfenda apontou para além
do Vazio Entre Estrelas. Lunam tremeluzia como uma esfera
verde-cinzenta. --- É dela que você está falando? Se for eu acho que ela
não vai vir não. Uma mulher despreocupada, aquela lá...

Traun o interrompeu.

--- A guerra acabou? Quem venceu? Quem venceu? Grande e poderoso,
Durgamundor já deve ter vencido. Nelial será minha?

--- Ora, não tenho nem ideia do que você esta falando. --- Nelial.
Durgamundor. Malfenda tinha uma vaga impressão de já ter ouvido esses
nomes antes. Mas quando e por quê? --- Quem é Durgamundor?

Traun soltou uma longa gargalhada, que durou tanto tempo que Malfenda
achou incrível o sujeito ainda ter fôlego para prosseguir.

--- Você é idiota? --- Perguntou --- Nunca ouviu fala da guerra?
Terrível, Terrível. Você deve ser daquele povo idiota de Nelkran.
Certeza. Gente mais burra. Jarlynd bem que poderia devorar todos eles.
Hum... Isso. Seria até melhor assim. Você veio de lá? É idiota assim
por isso? E feio?

--- Não. --- Disse Malfenda puxando o capuz, até lhe cobrir a maior
parte da face. Pelos deuses-falsos, devo estar um horror. Maldito corpo
áureo. Devia ter escolhido um melhor. --- Não faço nem ideia do que você
está falando. Que eu saiba ninguém vive em Nelkran a um bom tempo. Tipo,
uns...

Sua cabeça latejou. Uma dor profunda, latente. Como se tivesse acabado
de receber uma martela. Imagens desconexas giraram. Frases sem sentido.
Pensamentos incoerentes. Contraditórios. Ele já sabia o que era. Uma das
malditas memórias. Antes de perder completamente a noção da realidade,
sentiu uma leve agitação atrás de si. Deveria ter caído. Caído de cara
no chão...

***

"---... já lhe disse, Fenyl. Você deve se juntar a nós. --- Ressoou
uma voz. Profunda e imponente, parecia o ecoar de um trovão. Mas havia,
lá no fundo, um toque de gentileza quase suplicante. --- Nelkran foi
dominado por eles. Durgamundor não irá deixar ninguém escapar. Mas o
pior de tudo é que vários dos nossos ainda estão lá. E nem mesmo Avalyn
é otimista o suficiente para acreditar que serão libertos sem
derramamento de sangue. Aceite minha proposta, Fenyl.

"--- Pouco me importa. --- Respondeu Fenyl/Malfenda. --- Lordes
eranicos Vindicadores são dois males que se merecem. Você não deveria se
preocupar com isso."

"Pegou algumas amostras de sangue ca´elestibu. Dourada e escorregadia;
parecia ouro derretido. Sorriu para si mesmo, satisfeito com o mistério
a qual dava vida. Depois trocou o liquido de recipiente, com bastante
cautela, e o levou a um local seguro onde não se dissolvesse em Essência
Primeva pura. Em momento algum dirigiu a menor das olhadelas em direção
do colosso de armadura branca que falava ao seu lado.

--- Que seja. --- Respondeu o colosso, abrindo suas seis asas tão alvas
quanto as nuvens. --- Mas lembre-se do que eu lhe digo. Se não fizermos
nada eles podem desconfiar. E você já deve saber que qualquer um dos
lados irá nos matar caso descubram. A morte é cruel, meu amigo. E nem
mesmo nós estamos livres de seu poder.

Curvou-se levemente, contemplando as mãos firmes de Fenyl trabalharem
em seus projetos, indiferente a suas palavras e alertas. Então voou para
os céus, para longe do laboratório de Fenyl/ Malfenda.

--- Ninguém vai descobrir. --- Fenyl fechou o semblante. Seu rosto era
como uma pedra de diamante; duro, implacável. Obstinado.

Suas mãos tremiam tanto que quando voltou a pegar o recipiente usado, o
deixou cair no chão. Ele não se quebrou. Era feito de sempernico.

--- Ninguém pode descobrir.

***

--- Você morreu?

Malfenda tentou se levantar. Droga, outra lembrança idiota. Sua cabeça
ainda doía. Seus ombros também. A coluna parecia ter levada uma paulada.
Ele havia mesmo tombado.

--- Você não morreu?

--- Cala boca, doido desgraçado! --- Gritou Malfenda.

Traun calou-se apenas por tempo suficiente para Malfenda se assentar.

--- Achei que tinha morrido. Fez assim e... Pah! --- Traun girou o
corpo e se jogou ao chão em um movimento dramático, digno de um artista
meia boca. Sem sequer se levantar continuou: --- Então começou a falar
coisas idiotas.

--- Que tipo de coisas? O que eu disse?

--- Sei lá. Coisas idiotas. Muitas coisas idiotas. Ai depois se calou.
Pensei comigo mesmo: esse daí deve ter morrido. Mas ai está você, feio e
idiota. Era melhor quando estava morto...

--- Ah! Vá para o Oblívio. O idiota aqui é você. ---Malfenda coçou
ferozmente as costas. E as pessoas ainda dizem que áureos não sentem
dor,
resmungou consigo.

Traun o encarou fixamente, depois deu de ombros e se afastou. A parede
transparente começou a se tornar mais visível de acordo com á distancia.

--- Ei! Espere ai --- Chamou Malfenda quando percebeu que a parede
estava quase totalmente visível.

Traun se virou.

--- O quê que foi?

--- Por quanto tempo fiquei desacordado?

--- Acho que... Hum... sei não. Talvez cinco minutos. Ou três dias.
Sei lá, você é estranho. Olhe, a comida tá vindo! --- O estranho
elestino deu ás costas e correu como uma criança na direção oposta. A
parede voltou a sua cor embranquecida, e ele sumiu de vista.

Até imagino por que um tipo desse tá aqui. O que ele queria dizer com
comida?
Irritado, Malfenda resmungou alguns adjetivos desagradáveis em
relação ao sujeito. E se esticou no chão encarando o teto apático.

--- Pela Coroa e por todos os malditos deuses, quem pensaria que os
Forjadores de Estrelas financiavam um hospício?

Quando fechou olhos, ainda estava lutando com a ideia de ter sido
considerado um louco por Venafelyn.

Tirar um cochilo talvez melhorasse a situação. Normalmente a dor de
cabeça diminuía. Mas dessa vez teve mais três visões antes de pararem de
vez. Cada uma mais confusa que o outro. Dormir que era bom, nada. Em sua
mente giravam nomes de pessoas que ele não se lembrava. Durgamundor.
Nelkran. Nelial. Bem, Nelkran ele sabia ser um dos mundos primários. Mas
era perturbador o fato de o elestino amalucado ter lhe chamado de
"idiota de Nelkran". Ninguém habitava em Nelkran nem em Helcrân. Era lá
que supostamente se situava o Santuário de Ylnurduion, onde o Trono e a
Coroa repousavam. Longe do olhar dos mortais e imortais. Aguardando o
glorioso dia, onde assim como no passado, a Coroa e o Trono voltariam a
reinar sobre Gion. Pensar nisso era, duplamente, perturbador. Sua cabeça
doía com lembrança de um passado antigo, um de um não tão antigo.

Passado talvez uns trinta minutos, um guardião se materializou através
da parede. Assim como os dois grandalhões que vira antes, esse também
era diferente. Sua couraça era verde, invés de vermelha. Era mais
troncudo e era coberto por musgos e ervas. No lugar de turbilhões de
fogo, possuía duas pernas mesmo, feitas de pedra e entrelaçada com
cipós. Carregava duas bandejas com frutas e outros vegetais. Quando
Malfenda perguntou para ele quando Venafelyn voltaria, ele simplesmente
o ignorou, colocou as bandejas no chão e saiu. Malfenda tentou lhe
seguir, mas a parede se endureceu assim que ele passou.

Resignado, se contentou em pegar algumas frutas e comer. Até que estão
boas,
pensou. Mas isso levanta outra questão. De onde veio? Ele
estava falando serio quando disse que havia um jardim aqui? Qual é o
tamanho disso tudo?
Com certeza maior do que qualquer castelo que
Malfenda já virá. Devia ter o tamanho de alguma cidade. Uma cidade
pequena. Mas deveria ser isso mesmo.

Um meteorito cintilou para além do Vazio Entre Estrelas. Tinha um brilho
estranho. A curiosidade levou Malfenda a jogar para o lado os restos de
uma maça (tinha quase cinco vezes o tamanho de seu punho) e se aproximar
da vidraça. Ele já havia visto uma grande quantidade de coisas durante
seus milênios de existência. Mas a maneira como aquela rocha espacial se
movia era uma novidade. Astronomia não era sua área de conhecimento, mas
não era necessário ser perito para notar. Estava longe, mas dali era
possível ver muito bem o modo cambaleante como ia para frente girando
pelas diagonais. Ia em direção a Lunam, mas era óbvio que com aquele
tamanho não representava perigo algum. Despedaçar-se-ia antes de
atravessar a atmosfera do planeta. Mesmo se por uma milagre atravessasse
inteiro não seria um risco. Assim sendo, Malfenda não conseguia entender
o motivo de sua inquietação. Era como se algo gritasse dentro dele, em
pânico. Aproximou o rosto até quase tocar a vidraça. O que há de
estranho nisso?

Um guardião irrompeu sala adentro. O turbilhão que lhe completava a
cintura e os pés iluminou a sala em clarão vermelho-dourado. Malfenda
recuou para o lado, e, que nem um raio, o guardião disparou para fora.

--- Ah, pela Coroa! --- exclamou quando o guardião transpôs a parede.
--- O que está acontecendo aqui?!

Uma voz metálica respondeu.

--- Aumento de antifluxo: anormal. Quebradura dimensional: notável.
Avanço das unidades de defesa: provável.

Girando para trás, Malfenda percebeu que o som provinha da direção da
parede que dava acesso ao corredor. Era voz de um guardião, dura e
mecânica. Ecoava como a quebrada de uma montanha, repetindo os mesmos
comandos.

Não era necessário ser o deus da obviedade para perceber que algo de
ruim realmente estava para acontecer. O meteorito! Malfenda virou-se
em direção a vidraça novamente. A rocha espacial havia formado uma curva
anormal, desviando-se de Lunam e ficando cada vez mais próximo do Salão.
Rente à sala.

Uma fagulha reluziu no caminho do meteorito. Era o guardião de agora a
pouco. Locomovendo-se naquela velocidade parecia uma faísca atravessando
as trevas do Vazio. De repente, parou a poucos metros da rocha e
estendeu os braços. A realidade tremeluziu ao redor, e uma faixa de fogo
cresceu no formato de um circulo, que foi crescendo e crescendo até
estar dezenas de vezes maior que o guardião e tão grande quanto o
meteorito.

Malfenda lamentou estar privado de seus poderes, dali de dentro não
conseguiu sequer sentir o entrelaçamento de Poder Primevo realizado pelo
guardião. Tudo o que podia fazer era observar.

A imensa rocha se chocou contra a barreira de fogo. Fragmentos
flamejantes rodopiaram pra todo lado. O meteorito se quebrou em uma
dezena de partes. Mas o grosso do impacto estilhaçou o lençol de fogo,
chocando-se contra o guardião e se misturando a ele em uma massa de
fogo, ferro e fragmentos. Tudo vindo em direção ao Salão. Malfenda
tropeçou para trás. Se essa coisa se bater, eu to morto. Correu até a
parede de onde ainda se ecoava a voz de um guardião, e começou a bater.

--- Abram! --- gritou em desespero. Os fragmentos do meteorito pareciam
se aproximar ainda mais rápido do que antes. Cintilando em chamas. ---
Abra logo! Maldição! Que os antideuses te devorem, Venafelyn, abra logo!

Seus socos eram inúteis, e sua voz era abafada pelo insistente alerta:

--- Aumento de antifluxo: considerável. Quebradura dimensional:
anormal. Avanço das unidades de defesa: necessário.

--- Pelo amor dos deuses, me deixa...!

A parede se agitou, vibrando-se como um líquido. Outro guardião surgiu
diante de Malfenda. E depois mais outro, e mais outro, e outro. Antes
que Malfenda percebesse, já havia cinco unidades dentro da sala. Em um
movimento sincronizado, mergulharam em direção ao Vazio indo de encontro
os fragmentos incendiados. Malfenda correu até a vidraça, abismado, e
contemplou todos os cinco repetirem o mesmo movimento que anterior.
Tomaram uma distancia de quase vinte metros, e numa milimétrica
sintonia, ergueram as mãos. Fogo dourado emanou de cada um deles,
formando um lençol tremulante, centenas de vezes maior do que eles. Os
estilhaços com quase o tamanho de carroça foram tragados pelo fogo. Uma
nevoa negra se formou ao redor da área de impacto.

Malfenda se deixou suspirar, aliviado. Por um momento achei que...

--- Aumento de antifluxo: extraordinário: Quebradura dimensional:
considerável. Avanço das unidades de defesa: urgente
.

De novo esse alarme irritante. Por que ele disse antifluxo?! Malfenda
correu até a vidraça, franzindo o cenho para observar melhor o que se
passava lá fora. Os cinco guardiões ainda se mantinham firmes como
estatuas, levitando a poucos metros da nebulosidade, braços erguidos em
posição de alerta, fitando os estilhaços nebulosos. De repente, os
milhares de fragmentos começaram a rodopiar em um ritmo frente. Formando
um circulo ao redor dos guardiões. Fumaças negras emanavam de acordo com
girar do circulo aumentava, gritos metálicos e ordens inaudíveis dos
guardiões se perderam em meio o Vazio Entre Estrelas. Do centro do
circulo uma imensa mão se formou dos restos do meteorito e agarrou o
guardião mais próximo, reduzindo-o a uma massa de ferro amassado. Os
guardiões restantes deram as costas um para o outro, e começaram a
arremessar labaredas de fogo contra a bizarra mão. O circulo foi se
fechando ao redor deles.

Tal qual uma enorme ralo, os fragmentos giraram ao redor dos guardiões
encolhendo-se até lhes devorar completamente. Uma última explosão de
fogo despontou do interior da esfera, anunciando a destruição das cinco
unidades.

--- Santo deus! --- gritou Malfenda, em estado de choque, se arrastando
o máximo possível da vidraça, erguendo as mãos para frente como se
tentasse se defender. Uma pancada seca o fez perceber que havia
arrastado até a parede oposta, de costas. Rasgranar! Rasgranar veio
atrás de mim! Maldição! Maldição! Se eu morrer aqui já era! Que criatura
é aquela?!

--- Ei, camarada! O que tá acontecendo? --- A parede da lateral ficou
transparente, e os olhos cinzentos de Traun encararam o pavor no rosto
de Malfenda. --- Que barulheira é essa?

--- Alguém.. alguém mandou... essa coisa atrás de mim! --- gaguejou
Malfenda. Sua mão tremia tanto que ele mal conseguia apontar para a
vidraça.

Traun arregalou os olhos.

--- Que Durgamundor me pise, mas que merda é aquela Se tá morto, cara.
Coisa mais estranha, essa...

--- O que?! Ele está vindo pra cá, idiota. Eu... eu tenho de achar um
jeito de fugir... Onde está o maldito Venafelyn numa hora dessas...
Eu...

Novamente o alerta soou:

--- Aumento de antifluxo: extremo: Quebradura dimensional:
extraordinária. Avanço das unidades de defesa: imprescindível. Almejar
das Trevas, identificado.

Um estrondo abalou a sala.

Malfenda foi jogado para o alto, como se sacudido em uma peneira, e
bateu de cara no teto. Depois, caiu. Um zunido preencheu seus ouvidos.
Os gritos de Traun se perderam em meio o chacoalhar da sala. Garras
negras, grandes como estacas, envoltas em fogo roxo-escuro arranharam a
vidraça.

Zonzo, Malfenda tentou se levantar. Sangue escorria de sua face, sua
vista estava escurecida --- ou era o mundo que havia se tornado sombrio?

--- AH, Ah, maldi...

Através da vidraça, fendas negras semelhantes a olhos encararam
Malfenda. Seu sangue congelou. E seu corpo, petrificou. A voz, as
palavras, os pensamentos, tudo se esvaiu, como água. Ele caiu no chão,
com os braços por cima dos olhos tentando se esconder da visão. Tremendo
freneticamente, tentou se afastar mais ainda, arranhando a parede com as
unhas ao bater nela.

A sala sacolejou novamente.

Ao lado, as gargalhadas e gritos de Traun ainda eram audíveis.

--- Pelas asas de Jarlynd! Ele está nos segurando! Incrível! Fantástico!
Vamos morreeeer!

Antes mesmo de Malfenda conseguir processar as palavras, percebeu o que
ele queria dizer. A sala! A sala foi arrancada! Sua vontade era
gritar, mas as palavras travavam na garganta. Gritos estrangulados
emanavam dos arredores. Se era da criatura, de Traun ou dele, não dava
para saber.

A criatura sacudiu novamente a sala, como se tentasse quebra-la apenas
com força bruta. Abismos negros, afundados em uma massa retorcida de
rochas, presas, uma mandíbula protuberante, volta e meia eram visíveis
através da vidraça, indicando que seja lá o que fosse a criatura, ela
estava interessada no que havia no interior do recinto. Malfenda se
jogou sobre os joelhos e começou a rezar para qualquer deus que lhe
viesse a mente, até mesmo para aqueles que ele xingava quando estava com
raiva.

--- Já chega --- a voz estrondosa de Venafelyn se fez ouvir. ---
Solte-os agora, ou lhe darei um fim tão horrendo que até mesmo o Oblívio
ficará admirado.

Era como a erupção de uma tormenta, abrupta, carregada e terrível. Mas
havia um toque tão intenso de certeza na maneira como as proferia que
Malfenda quase se sentiu aliviado ao ouvi-las. Quase. As garras da
criatura ainda envolviam a sala, longas e negras como carvão. De repente
elas apertaram com ainda mais força o cubículo. Tão forte que era
possível ouvir o aço regnico se amassando onde frestas para o Vazio
Entre Estrelas se abriam. Um cheiro de podridão preencheu o ar.
Respingos de fogo negro caiam, chiando como ferro quente no fogo ao
tocarem no piso. O teto foi rasgado em tiras, depois arremessado para
longe, e Malfenda se viu face a face com seu captor.

O crânio da criatura era esculpido em rochas negras no formato de um
triangulo com inumeráveis chifres e presas se retorcendo em toda sua
extensão. Duas esferas em tons roxo-escuros, uma de cada lado, giravam
no interior de fendas grandes o suficiente para tragarem três homens em
pé. Olhos, percebeu Malfenda, o medo lhe empalidecendo a face. Oito
braços, longos como troncos de árvores, se enfileiravam em um corpo
alongado e completado com duas pernas nada humanas. Asas se contorciam
nas costas largas da criatura, balançando-se no Vazio. O tronco era uma
junção agonizante de rochas, ossos e (seria aquilo carne?) um infinidade
de matérias incompatíveis com qualquer ser vivo que Malfenda já tenha
visto. No centro havia um fissura enevoada, semelhante a um glóbulo.

O metal e o fogo dourado dos guardiões ainda ardiam em varias partes da
criatura, dando-lhe um ar ainda mais grotesco.

--- Eu lhe conheço, criatura. Sei que você me compreende. Solte-os.
Agora. E seu fim será menos doloroso. Permaneça. E você saberá o motivo
da agonia dos antideuses.

Venafelyn. Malfenda vasculhou desesperadamente os arredores, tentando
encontrar a origem da voz trovejante, mas o Forjador das Estrelas estava
fora de seu campo de visão.

Um som bizarro preencheu os ouvidos de Malfenda.

Malfenda já havia ouvido o berro unido de milhares de desesperados
diante da morte iminente, nas prisões de Unurdan. E o chora desesperado
de incontáveis almas perdidas, nos calabouços do deus da guerra. Ele já
havia ouvido a voz irada do próprio deus dos imortais, Rasgranar. Tanta
coisa que, se não fosse pelo medo, teria ficado surpreso em descobrir
que a voz lenta e arrastada emanada do interior da criatura lhe dava
ainda mais calafrio.

--- Ca´elestibu... Vena... felyn... --- Palavra por palavras, a
criatura parecia saborea-las. --- deus... um deus... O Oblívio.
Busca.

A criatura soltou um urro que fez os ouvidos de Malfenda zunirem,
comprimiu a sala entre suas garras e a arremessou. Malfenda se agarrou a
uma das brechas apertas pela criatura, e gritando até se esgoelar. Do
outro lado da câmara, Traun fazia tanto escândalo quanto. O mundo deu
uma guinada, esticando-se para trás com tamanha força que por um tempo
seu corpo levitou na vertical. Então, parou, com tamanha suavidade e
precisão que Malfenda não sentiu sequer o menor dos impactos.

--- Fiquem aqui. --- Ordenou Venafelyn.

Sua mão envolta em aço se firmava ao redor da sala. Estava em tamanho
completo. Era a primeira vez que Malfenda o via pessoalmente assim (ao
menos que ele se lembrasse). Imenso, fogo escarlate ardia ao redor de
sua couraça dourada. Na mão direita sua estrela da manhã rugia num fogo
tão dourado que fazia a couraça parecer opaca.

Malfenda não conseguiu ver em que exatamente ele colocou a sala, mas foi
em algo solido. E bem grande.

--- Escondam-se aqui. --- Estendendo a mão até o alto da cabeça,
Venafelyn retirou seu elmo e o posicionou no centro da sala. Era tão
grande que cobria a quase a totalidade do recinto. A calma de suas
palavras discordava em muito com a expressão rígida em seu rosto. --- O
Antifluxo corrompe e destrói tudo que toca. Sempernico uma das poucas
coisas capaz de resistir. Como veem, nem mesmo o aço regnico pode
suportá-lo.

Girando a cabeça, Malfenda notou do que ele falava. Toda a câmara
fumegava e derretia onde a criatura tocara.

--- Antifluxo! --- Malfenda soltou todo seu desespero. --- Que os falsos
deuses me ajudem! Essa coisa é um antide...

--- Não! --- Interrompeu Venafelyn. Mesmo calmo, a proximidade de sua
fala fez Malfenda se encolher. Não fosse ter ouvido o som da voz da
criatura, acharia isso aterrorizante.

--- O que é então? Diga. Ah, ah. Rasgranar! Maldito Rasgranar! Ele quer
tanto me ver morto assim...

--- Um demônio dos mundos caóticos.

Malfenda se encolheu dentro do elmo. Mundo caótico? É até pior do que
eu imaginava!

Malfenda começou a gaguejar:

--- No caso... Você consegue... é.., digo... matar ele?

--- "Não se destrói o que já foi destruído". Almejantes das Trevas são
receptáculos dos mortos. --- Outro esturro bizarro rasgou o ar.
Venafelyn jogou a estrela da manhã sobre os ombros. --- Eu cuidarei
disso.

Suas asas se estenderam, escarlates como ferro ardente e de aspecto duro
quanto aço. Com um pouco de surpresa, Malfenda notou que agora conseguia
ver os fluxos de Poder Primevo se formarem ao redor do ca´elestibu. Em
um impulso só, as asas se abriram e fecharam. Venafelyn se projetou para
frente, tão rápido quanto o piscar de olhos,. Os fluidos do Vazio Entre
Estrelas se abriram para dar passagem ao colosso em chamas, então ele
sumiu de vista...

Malfenda se encolheu se agachou dentro do elmo, jurando a si mesmo que
nunca falaria mal do capacete de seu ninguém, por mais irritante que
possa ser. Algo desagradável roçou-lhe o braço. Mesmo no escuro que
fazia ali dentro, de imediato reconheceu ser a barba desgrenhada de
Traun, o elestino amalucado.

--- Épico, não é, meu camarada?

Malfenda o afastou com um chute nas costelas. O bafo do miserável era
quase tão insuportável quanto a voz do Almejar das Trevas.

--- Você é louco.

--- Nesse mundão sem deus, quem não é?

Malfenda o chutou ainda mais para longe.

***