A Lenda de Venafelyn · Capítulo 5 de 9
3 — Presságios
por AlkhamPublicado
[Presságios:]{.underline}
[Combate:]{.underline}
--- Deuses...
Girando sua estrela da manhã, Venafelyn cravou os pregos da arma bem no
centro da criatura. Urrando de ira, o Almejar das Trevas recuou. Este
sente dor, pensou Venafelyn. Puxou a arma e se preparou para um novo
golpe.
--- Vena... felyn... --- gemeu a criatura, pela terceira vez desde
que a luta começara.
Uma nebulosidade roxa emanou da criatura, se aglutinando na parte
ferida. Fragmento por fragmento, osso por osso, tudo voltou ao seu
lugar. E também se regenera, ele concluiu nada surpreso*.* O Almejar
do Caos ergueu os oito braços, abrindo as garras e revelando esferas
negras em cada uma delas. A maça da estrela da manhã ardeu, dourada e
intensa, como um sol. Uma estrela, uma luz. Uma chama devoradora.
A criatura se preparou para o ataque, e Venafelyn puxou a arma para trás
enquanto as chamas douradas aumentavam ao redor dela. Então o Almejar do
Caos investiu. Suas presas e chifres balançando-se para lá e para cá
tentando achar um lugar para se cravarem. As garras abertas, prontas
para acertar ao menos uma das oito esferas.
Nem uma pode acertar.
Venafelyn levitou para trás, desviando-se da primeira esfera, que
rodopiou para longe, perdendo-se na imensidão do Vazio Entre Estrelas. A
segunda logo veio, em direção sua cabeça desnuda. É mais esperta que a
maioria. A cabeça no momento era sua única parte sensível. Venafelyn
abaixou-se deixando a esfera de antifluxo passar. Com seu pé envolto em
aço, esmiuçou o tórax da criatura em um pancada que era em parte força
física em parte Poder Primevo em forma de fogo. A besta foi arremessada
para longe.
Tão rápida quanto foi repelida, a criatura voltou, erguendo as seis
esferas restantes na direção do tronco, ombros e cabeça de Venafelyn.
Com as braçadeiras de ouranico, o ca'elestibu barrou os dois golpes
superiores.
As chamas roxas do antifluxo se chocaram contra o aço celeste em um
ribombar estridente, faíscas roxas e douradas rodopiaram sobre o
cinzento apático do Vazio Entre Estrelas, iluminando-o por um instante.
Quatro.
Sem trégua, o Almejar do Caos arremeteu novamente, mirando tronco e
ombro*.* Venafelyn, jogou as asas para frente. Num piscar de olhos, o
sempernico escorreu da armadura banhando as quatro asas em um dourado
metálico. As esferas de antifluxo ricochetearam para longe. Antes mesmo
de a criatura recolher os braços, a estrela da manhã, ardente em Fogo
Celeste, partiu seu crânio em movimento vertical e abrindo-a em duas
bandas.
Sem equilíbrio, as duas partes da criatura giraram no Vazio,
esticando-se para frente, tentando debilmente se agarrar, rasgar ou
cortar algo inalcançável. Venafelyn girou as mãos no ar, fluxos de Poder
Primevo se moldaram ao redor de seus dedos, girando, faiscando. Por um
momento a palidez do Vazio Entre Estrelas foi absorvida pelas chamas
douradas do ca´elestibu até se transformarem em névoa branca, tão branca
que ardia aos olhos. Essência Primeva, a quintessência que banha,
permeia e sustenta todo o Gion, toda a Existência. A raiz verdade. Então
ele a arremessou sobre a criatura agonizante, banhando-a da cabeça aos
pés com o fogo branco. As asas desajuntadas do Almejar das Trevas
buscaram ar, batendo-se em uma tentativa desesperada de fugir. Fugir da
morte. O branco foi se enrolando em seus pés, subindo pela ponta das
asas, envolvendo o tronco. Esmagando o crânio.
O Almejar das Trevas lançou um urro de fúria e abocanhou com sua boca
partida um de seus próprios braços, rasgando-o antes que a energia
pálida a encobrisse e o cuspiu para trás. Venafelyn se preparou para se
defender. Estendeu a estrela da manhã para frente e esperou o impacto.
Então... a criatura girou a boca e cuspiu o braço para trás.
Num primeiro momento, Venafelyn achou que a dor havia feito à criatura
perde a noção. Então, com o canto do olho vislumbrou a trajetória da mão
decepada. Lunam.
--- Amaldiçoado seja. --- Venafelyn brandiu sua estrela da manhã.
--- Caos para os deuses do caos... --- gruniu o Almejar das Trevas.
Por um instante, as faces divididas da criatura pareceram rir,
satisfeitas com sua última revolta de malicia. Mas foi então que os
pregos da estrela da manhã dilaceraram qualquer vestígio de expressão, e
o fogo branco da Essência Primeva varreu da Existência o pouco que
restou do Almejar das Trevas.
O sempernico abandonou as asas do ca´elestibu, e ele as fechou em um
mergulho em direção ao braço que fumegava em labaredas roxo-escuras.
Venafelyn ultrapassou o membro decepado, antes de ele transpor a
atmosfera do planeta Lunam.
Com uma pancada de sua arma, rebateu-o de volta, enviando seus
estilhaços para o Vazio Entre Estrelas em uma velocidade absurda.
--- Está feito. --- Venafelyn jogou a estrela da manhã sobre as costas.
A algumas centenas de milhas abaixo, Lunam brilhava em plena manhã. O
verde encobrindo sua extensão na mais completa harmonia entre pastos,
campinas e florestas. Um rio escorria, alongando-se entre bosques e
montanhas logo abaixo. Uma única porção de antifluxo seria suficiente
para arruinar léguas inteiras e assassinar qualquer vestígio de vida.
Havia antifluxo suficiente naquele braço decepado para corroer uma
cidade inteira em alguns meses. Talvez até um reino, em alguns anos.
--- Nunca acontecerá. --- Concluiu, em voz alta. Não enquanto eu
estiver aqui...
Um alerta soou na mente do Forjador das Estrelas, ao perceber que havia
chegado tão perto de um Mundo Primário. Tão rápido quanto veio,
retrocedeu em direção seu lar, afastando-se de Lunam.
Era Kali-Lunam quem governava aquelas bandas. Mas nunca se sabe...
Falsos deuses representavam um perigo tão grande para ele, quanto o
antifluxo representava para os mundos.
***
[Sédah:]{.underline}
Assoviando de alívio, Malfenda contemplou os arredores. Ainda estava
zonzo com a pancada, mas fez um esforço. O cadáver de Traun era talvez o
que mais chamava atenção. O sujeitinho estava esparramado no chão, asas
jogadas para os lados, torradas. O rosto contorcido em uma expressão que
era metade entusiasmo metade horror. Seu tronco estava irreconhecível,
escuro e quebradiço, parecia uma tora de carvão. Ao redor dele, a sala
estava em uma situação quase tão ruim quanto. O imenso elmo dourado
deixado por Venafelyn jazia um pouco mais atrás.
--- Pelos deuses --- exclamou Malfenda, de cima do elmo, --- isso foi
perigoso. Muito perigoso.
Há poucos segundos, ele havia subido para lá, tentando obter uma visão
melhor da luta entre Venafelyn e o Almejar das Trevas. Traun também
tentou. Mas fracassou miseravelmente. Assim que ele saiu, uma massa
negra, semelhante á uma esfera, se chocou contra o local, queimando-o
ainda vivo, enquanto ele gritava e esperneava entre risos e convulsões
moribundas.
--- Se você não fosse tão chato, eu ficaria até com pena. --- Resmungou
Malfenda, contorcendo o rosto para o cadáver. Fez um sinal piedoso com
as mãos, e se despediu: --- Já vai tarde, meu camarada. Que os
antideuses te recebam...
A sala tremeu. Malfenda olhou para cima. Os dedos de Venafelyn,
revestidos de aço, se fechavam ao redor da sala.
Malfenda quase escorrega de cima do elmo.
--- Ei! Ei! Calma, ai! --- gritou --- Eu ainda estou aqui dentro. Eu
sobrevivi. Tenha mais cuidado.
A resposta de Venafelyn foi um olhar tão duro que fez Malfenda duvidar
se ele estava minimamente preocupado com sua vida.
Então, sem dar ouvido aos avisos de Malfenda, segurou a sala entre as
duas mãos, como se erguesse uma casinha de brinquedo, e a enfiou de
volta no seu lugar dentro do Salão. O realojamento desajeito fez pedaços
da construção desabarem e vigas de ferro caírem em uma barulheira sem
fim.
Malfenda pulou no chão e correu para o interior do elmo. Tomou bastante
cuidado para não tocar no cadáver de Traun e se agachou em um canto.
Quando a barulheira acabou, ele saiu.
--- Essa sem dúvida foi a pior coisa que me acontece em... em... três
dias! Rasgranar deve desejar minha morte ainda mais do que eu desejo a
dele... --- Colocou as mãos na cabeça e balançou-a. --- Dessa vez eu
achei mesmo que ele ia conseguir...
--- Ainda não. --- De alguma maneira, Venafelyn se materializou dentro
da sala em sua forma menor. --- Graças a mim você ainda terá alguns dias
a mais para se arrastar sobre Gion, falso deus.
--- Ah, muitíssimo obrigado!
Será que esse cara não se cansa disso? Falso deus! Falso deus! Que
coisa mais chata! Pelo andar da carruagem, hora dessas Malfenda era o
último em todos os mundos que ousaria se chamar ou ser chamado de deus.
--- E eu pensando que aqui estaria seguro! Por pouco não fico igual o
maluco ali! Por muito pouco! Mas e agora, heim? Você acredita em mim
quando digo que Rasgranar quer me matar?
Ignorando por completo os comentários de Malfenda, Venafelyn se abaixou
ao lado do cadáver de Traun.
--- Como isso aconteceu?
--- Sei lá. --- Malfenda se aproximou. Fumaças ainda subiam do corpo.
Chamas roxas ardiam em varias partes do corpo. Mas onde elas queimavam,
nem mesmo as cinzas restavam. O tecido afetado simplesmente desaparecia.
Virava nada. Coisa mais estranha... --- Uma rajada de antifluxo, eu
acho. Eu estava em cima do elmo. O infeliz ai não teve tanta sorte.
Sujeitinho mais doido, esse. Passou o tempo inteiro gritando o nome de
uma tal "grande senhora sei-la-o-quê". Mesmo quando começou a queimar. È
como eu digo: tolos vivem mal e morrem mais mal ainda...
Venafelyn desferiu um soco em seu elmo. As vibrações do metal
reverberaram com tamanha força que a sala tremeu. Malfenda quase grita.
Seus ouvidos arderam, sua noção de realidade bamboleou.
--- Eu lhe avisei para ficar dentro! --- Rugiu Venafelyn, encarando
Malfenda com um olhar de abalar montanhas. --- Você acha que o antifluxo
é algum tipo de brincadeira?
--- Eu... eu... --- Malfenda estremeceu. --- Não. Acho que não.
--- Louco. Estúpido. Continue a fazer tolices como essa e eu mesmo lhe
entrego para o Oblívio. --- Ergueu a mão na direção do cadáver. Uma
massa de ar se formou ao redor do corpo, levitando-o a uma altura de
dois metros. --- Sabe a diferença entre você e esse outro tolo? ---
Antes que Malfenda abrisse a boca, ele mesmo respondeu. --- Esse é um
tolo que pagou por sua tolice, você é um tolo que ainda irá pagar.
Aguarde, e verá. Guardião. --- chamou.
Em questão de segundos, um dos autônomos de fogo surgiu dentro da sala,
e se abaixou diante de Venafelyn.
--- Sim?
--- Leve-o para o crematório.
O cadáver levitou até o guardião.
--- Prisioneiro 635374. --- O guardião começou a recitar. ---
Meio-sangue: elestino e elderen. Traun, filho bastardo de Elaum,
soberano de Nelial em Surcuyro. Carece de registros maternos. Consagrado
a nevael do Solis Salão pela Assembleia dos Vindicadores, por Khelyndna
da Ordem dos Forjadores de Estrelas. Função essa jamais exercida.
Culpado por traição, roubo e assassinato. Capturado por Lyn Ourum, líder
dos Senhores das Auroras, durante o Terceiro Ciclo S.E, ano 21.850, após
um ataque realizado pela Ordem dos Forjadores de Estrelas, liderado por
Sutangi. Sentenciado a catorze mil cento e quarenta e quatro anos e três
meses, segundo o calendário dos Ciclos Celestes. Encerrasse em três dias
e seis horas e meia.
Malfenda ficou boquiaberto. Informações demais para se processar em tão
poucas palavras. O guardião falava tudo em um único supetão, como se
fosse uma frase única. Venafelyn, que ouviu tudo em silêncio profundo.
Depois de um tempo, respondeu, de maneira quase distraída:
--- Khelyndna enganou muitos... --- Então encarando o guardião,
acrescentou: --- Use as alas de contenção de antifluxo. Não erre. Use as
de ouranico. Nunca as de sempernico.
--- Assim será. Algo mais?
--- Traga-me um guardião de cura.
--- Assim será. Algo mais?
Venafelyn fez uma pausa. Então disse:
--- Se a Cronista perguntar o que aconteceu, diga que foi apenas um
distúrbio que eu estava resolvendo, e não a deixe vir para está área.
Não a preocupem mais ainda. Agora vá.
O Guardião partiu.
Malfenda conseguiu dar uma última olhada no rosto imóvel de Traun, e
fechou o semblante.
--- Apenas três dias... agora sim eu quase sinto pena do miserável.
Catorze milênios... Com tanto tempo assim sequer é preciso ser
meio-sangue para enlouquecer. Até eu ficaria...
--- A pena para um falso deus ainda não foi estabelecida... --- Disse
Venafelyn.
--- Que?
--- ..mas suponho que seja muito maior.
--- Aquela criatura... --- Começou Malfenda, falando bem devagar, como
se testasse a sonoridade das palavras. É serio que ele está calculando
minha sentença. Logo agora?! --- O que aconteceu com ela? Você a matou?
Tudo pareceu muito rápido. Sem explosões nem nada. Ela morreu mesmo?
Está tudo seguro? Eu consegui ver algumas partes da luta, mas...
--- Almejantes das Trevas são apenas receptáculos de um mal maior.
Feitos de coisas mortas, vivas, podres ou até inanimadas. Não há como
matá-las...
--- Ah, é mesmo? Muito curioso. --- Era um interesse genuíno da parte de
Malfenda, mas ele não o estaria expressando se não fosse por medo do
assunto mudar de rumo.
--- ...ainda assim há maneira de se lidar com elas --- continuou
Venafelyn --- Somente não compreendo o motivo para uma destas aparecer
aqui . Há milênios não vejo uma tão poderosa. Raríssimas, hoje em dia.
--- Rasgranar deve ter mandado. Há semanas ele vem me caçando. Eu já
disse isso, não disse? Ele enviou deuses e monstros atrás de mim. Um
verdadeiro tirano, aquele maldito! Ofyoto. Drasnuil. Caçadores áureos.
Draconianos. Chegou ao ponto de enviar os Aspectos do próprio Trono! Até
agora eu consegui lidar com tudo... mas, pelo amor, essa última foi...
Por que você teve de me colocar nessa sala idiota? Fiquei como um
passaro numa gaiola. Não dava para controlar nem mesmo uma fagulha de
Poder... Isso era um hospício, ou o que?
--- Uma sala de contenção.
--- E qual a diferença?
--- Basicamente o mesmo, porém para loucos capazes de usar Poder
Primevo.
Malfenda bufou.
--- Ah! Sinto-me lisonjeado.
--- Se zombar lhe tranquiliza o espírito, --- Respondeu Venafelyn. ---
então, siga em frente, falso deus. --- Depois de uma pausa, acrescentou:
--- Na verdade, coloquei-lhe ai apenas por tempo suficiente para testar
uma relíquia de sempernico.
Malfenda estreitou os olhos.
--- Quase perdi minha vida para você saber se seu brinquedinho
funcionava? --- Deve ser aquela placa que ele segurava mais cedo. ---
É isso mesmo?
--- Seu atrevimento é impressionante. --- Venafelyn caminhou até seu
elmo e o tocou. De imediato a montanha metálica se encolheu até ficar
pouca coisa maior do que algo que Malfenda usaria. --- Mas não se trata
da relíquia, mas sim o que eu estava fazendo com ela. --- Colocou o
elmo. --- Visitei Sédah-Grún.
Malfenda soltou um arquejo.
--- Mentira, --- as palavras saíram de automático.
Sedáh ficava do outro lado do sistema solar central, e esse era o maior
sistema solar de Gion. A não ser que os Senhores das Auroras conhecessem
algum método para saltar de planeta em planeta, da mesma forma que uma
criança faria com poças de lamas, Malfenda não conseguia pensar em
alguém indo e voltando tão rápido.
--- Está falando serio?
Os olhos de Venafelyn faiscaram.
--- Espero que seja a primeira e última vez que lhe digo isso, falso
deus: Eu. Nunca. Minto. Esteja avisado. Eu sou um Senhor das Auroras. O
último, aliás.
Orgulho não reprimido no tom do ca'elestibu surpreendeu mais Malfenda
do que a ameaça propriamente dita. Mudando de tom, Venafelyn prosseguiu:
--- Você é bastante ousado para alguém que há poucos minutos estava a
ponto de chorar. Ou, apenas insensato. Eu ouvi você orar para mim.
Rasgranar, pela sua bondosa força a favor dos fracos, proteja-me de
Rasgranar. Infelizmente eu também ouvi isso.
--- Que? --- Malfenda engoliu em seco. --- Eu fiz mesmo isso...? Mas
você disse que não lia pensamentos... Como...?
--- Você estava falando em voz alta. Quase gritando, tamanho era seu
pavor. Já vi homens semimortos suplicarem por suas vidas com mais
orgulho.
O rosto de Malfenda ardeu de vergonha. Maldição! Que baita covarde eu
sou! Maldita boca, como ousa me trair dessa forma?!
--- Como dito, --- para o alivio de Malfenda, Venafelyn não parecia tão
interessado assim em destruir seu ego --- não vim ao seu resgate antes
por que estava visitando Sédah. E, de fato, ao menos uma boa noticia
trago de lá.
--- Qual?
--- Agora eu acredito no que você diz. Ao menos em partes.
--- Agora? Só agora? Depois de eu quase ser devorado vivo você ainda vem
com essa?
--- Até então, tudo poderia ser encenação. Almejantes das Trevas são
seres raros, mas tenho certeza que ainda devem existir aos milhares na
Zona Morta, além de remanescentes das Guerras do Levante. Não seria tão
difícil para um falso deus como você encontrar algum, caso queira.
Rasgranar pagaria o valor de mundos inteiros pela minha cabeça. O
esforço valeria a pena, creio eu. Caso obtivesse sucesso.
--- Zona Morta?! Quem seria o louco de ir para um lugar daqueles? Nem
Furion seria tão obcecado assim... Dizem que o povo de lá come áureos
na merenda, draconianos no almoço. E deuses no jantar! Se é que jantam!
E também dizem, pensou Malfenda, que é por essas bandas que as
Estrelas Negras orbitam, com milhares de antideuses, furiosos,
aguardando as almas desprevenidas. Sem falar nos deuses da morte. Mesmo
nessas épocas, ainda haviam boatos de que essa corja rondava por lá,
como fantasmas de em castelo desabitado. Tremeliques percorriam o corpo
de Malfenda só de imaginar o horror que se passaria por lá. Coisas de
um tipo que...
--- Nem mesmo Unurdan seria louco o suficiente! --- completou.
--- Se bem me lembro de Wlyndor Alma-Quebrada, eu diria que sim... ---
refletiu Venafelyn.
Esse era o nome de Unurdan?, indagou-se Malfenda, curioso.
--- Mas a questão não é essa. O que importa é que em Sédah eu tive uma
confirmação razoável do que você disse. O planeta está mergulhado em
caos.
--- O planeta? Tem certe...--- Malfenda mordeu a língua.Vê se não
chama o maldito homem de mentiroso de novo. Não tente a sorte três vezes
no mesmo dia... Qual é mesmo o nome da bendita deusa da sorte? Se
Malfenda lembrasse poderia ao menos... Não divague, seu maldito! Pense
no que importa de verdade!
Então Sédah havia entrado em caos, é? Quem se importa. Aquele lugar era
uma infestação de elderes mesmo. Só era lamentável que alguns de seus
experimentos mais bem-sucedidos estivessem por lá. Ah, e também tinha
Moecera. Aquele grande e rabugento draconiano ancestral. Era quase um
cãozinho de estimação. Só que com presas maiores que lanças e algumas
centenas de toneladas de músculos e escamas. Ah, não. Isso é mal.
Malfenda tinha de achar um jeito de tirar Moecera de lá antes que
Rasgranar escolhesse um novo governador para Sédah.
--- Sim. O planeta --- disse Venafelyn. --- A desordem é geral. Falsos
deuses devorando falsos deuses,. Áureos batalhando contra draconianos.
Agora que o líder do lamaçal partiu, os vermes restantes se esforçam
para alcançar uma posição maior no chiqueiro. Lamentável*...* Ao que
parece está assim desde o dia em que você partiu.
--- Ah, ah! É mesmo? Uma pena...
Na verdade nem era. Foda-se Sédah e aquele bando de elderes, áureos e
deuses menores. Irritantes, todos eles. Irritantes! Malfenda era um
pensador livre. Livre! Na maioria das vezes, lidar com essa gente toda
lhe trazia mais aborrecimento que benefício.
A única coisa desagradável nisso tudo era perder seus laboratórios.
Trabalhos milenares repousavam ali. Como curar a loucura áurea. Como
criar homúnculos através do Poder Primevo. Era Venafelyn que se fazia de
tolo se achava que Malfenda não conhecia o antifluxo. Haviam estudos
bastante minuciosos a respeito de sua ação em organismos das espécies
lunarina e humana. Malfenda já tinha até mesmo visitado a Zona Morta
para realizar esses estudos. Criaturas raras andam por lá, pensou,
absorto em alucinações sobre como criar Almejantes das Trevas ele mesmo.
Seria incrível soltar bens uns dez desses bichos pra cima de Rasgranar.
Já até imagino como...
Um pensamento mais urgente cortou-lhe as linhas de raciocínio,
ultrapassando o linear de suas divagações mentais.
--- Quem governa Sédah? --- Era a pergunta urgente.
A pergunta que realmente importava.
Todos os grandes deuses possuíam panteões. Cada panteão era preenchido
por uma gama de deuses. Tinha todo tipo de gente. Desde deuses da chuva.
Do bom tempo. Das estações. Ou da natureza em geral, como Kali-Lunam.
Até deuses guerreiros, como o raivoso Drasnuil ou o brutamonte
inabalável Termano Grandil. A maioria dos plantões eram bem
estruturados, como lideres e tudo mais. No entanto... O meu é um
fracasso!, lastimou-se Malfenda.
Ainda mais bizarro que as junções esqueléticas do Almejante das Trevas,
era a organização do panteão de Malfenda. Todo mundo mandava em todo
mundo. Mas ninguém obedecia ninguém. Não foram poucas às vezes em
Malfenda se virar recuar diante das broncas de um deus menor metido a
mandão.
A pior de todas era Artana, que se autointitulava líder panteônica e
esperava que todos engolissem seus mandos e desmandos goela abaixo sem
emitir nem um pio. Inclusive ele. Se fosse ela a nova governante de
Sédah...
Depois de um longo silêncio, enfim Venafelyn respondeu:
--- A Dama das Estações. Ralyna Nefal.
Malfenda soltou um suspiro, aliviado. A tensão em seu corpo diminuiu.
--- Por um momento achei que... Espera. Quem é essa? Não me lembro
desse nome em nenhum...
--- Era da Ordem dos Construtores de Mundos. Da Assembleia das Eras.
--- Aham, sei. --- Malfenda não compreendia nem a metade do que
significava aquilo.
Como se o esforço para tentar compreender ativasse comandos mentais
esquecidos, imagens giraram em sua mente. Uma mulher. Alta, de corpo bem
definido --- escultural para dizer a verdade --- e... não. Não era uma
mulher. Era alta até demais --- uma árvore de galhos secos se erguia ao
lado, batendo na sua cintura. E também poderosa demais. Sua pele era
fria e cristalina como gelo. Rígida como aço. Quatro asas longas
balançavam ao vento, semelhante a flocos de neve. Seus cabelos eram
alvos de doer os olhos. E...
Para a desolação de Malfenda, Venafelyn respondeu, como se realmente
lê-se seus pensamentos.
--- Você deve conhecê-la. Artana, a deusa do inverno.
--- Ah! --- Malfenda deixou um grito escapar. --- Essa mulher maldita!
Ela vai acabar com tudo! Era melhor ter entregado tudo nas mãos de
Unurdan ou então tacado fogo de uma vez. Deusa do inverno, ora essa...
essa...
--- Adianto-lhe logo que visitei Lorseyn. Lá continua pior do que em
Sédah.
--- É só uma hipérbole. Não chega a tanto.
Malfenda se assentou para processar a noticia, jogando-se no chão sem se
importa se machucaria as costas ao bater na parede. De fato, Artana era
um terror. Mas lá no fundo Malfenda sentia que algo pior... Ah,
maldição. Lembrei! Meu corpo!
Sem se preocupar em escolher palavras mais adequadas, soltou logo de uma
vez, em alto e bom som:
--- Meu corpo ainda está em Sédah. Eu vou precisar dele.
--- Você sempre foi fraco, Fenyl.
--- Que?
--- Não importa se você esta em seu corpo ca´elestibu no de um semideus,
você sempre foi um fracasso em se tratando de Poder Primevo. Não creio
que isso seja de alguma importância agora. Ele está seguro?
Malfenda demorou um pouco para responder. Olhou seu reflexo em um
fragmento prateado de aço regnico que havia caído do teto,
pensativo*.* Ora, isso era até ofensivo. Certo que ele nunca chegou a
ser grandes coisas. Mas, bem... Uma imagem --- que deveria ser uma
sequencia da anterior --- girou em sua mente. Artana, ou melhor, Ralyna
Nefal, com os pés, como cristais de gelo, estendidos. Pisando alguma
coisa. Horrorizado, Malfenda percebeu ser ele a coisa pisada.
Memórias idiotas, pensou*. Isso nem deve ter acontecido.*
Deveria ser só sua mente lhe pregando peças. Bem, deveria ser. Tem de
ser!
--- Nas, ora, não se trata de poder --- começou a dizer. --- Poder,
poder... essas coisas são relativas. Vejo só... --- Malfenda estava à
ponta de explicar sua situação, mas Venafelyn o interrompeu.
--- Seu corpo. Está seguro ou não?
--- Mais o menos...
--- Sim ou não.
--- Eu fiz o melhor que pude, mas...
--- Deve ser o suficiente. Será problema para outra hora. Venha. Se é
verdade o que diz, temos assuntos mais importantes para resolver.
--- Como...?
Venafelyn mergulhou na parede, sumindo na brancura da construção.
--- Sem educaçãooo. --- Malfenda soltou um assobio, assim que as asas
escarlates do ca´elestibu desapareceram.
Olhando para os lados, contemplou novamente a desolação deixada pelo
ataque do Almejar das Trevas. Soltou outro assovio. Essa foi por
pouco. Se Rasgranar continuasse a atacar dessa maneira, duvidava que
até mesmo Venafelyn pudesse lhe proteger por muito tempo.
Distraído em seus pensamentos, notou que algumas partes da sala haviam
se restaurado sozinhas. A vidraça estava quase inteira. Os rasgos
deixados pelas garras do Almejar das Trevas pareciam se cicatrizar. O
ferro, o vidro, o mármore, tudo parecia retornar ao seu devido lugar. A
parede que antes dividira as salas onde ele e Traun ficavam estava quase
intacta novamente.
Imaginado se ficaria preso de novo caso tudo voltasse ao normal,
mergulhou dentro de uma brecha deixada pela fera.
Do outro lado, um guardião --- muito semelhante ao que havia lhe trazido
frutas --- o aguardava. Era apenas um pouco mais esguio e sem a presença
de musgos e ramos pelo corpo. Venafelyn estava mais a frente, o olhar
vítreo cravado em uma porta em forma de arco, a uns quarenta passos do
corredor.
--- Ande, falso deus --- disse ele.
Resignado, Malfenda o seguiu. Queira a Sorte que não seja outra sala de
"contenção". Iria dar um surto caso, depois disso tudo, Venafelyn ainda
quisesse lhe prender. Qual o nome da bendita deusa da sorte, afinal?
Santos deuses falsos! Deve existir pelo menos uma deusa da sorte. Gion é
tão grande...
***
[Destino:]{.underline}
Eora, ofegando de cansaço, acima de um monte contemplava os estouros
eletrizantes que varriam os céus.
Gotas da chuva escorriam sobre sua face, difundindo-se com o liquido
dourado que escorria de suas feridas. Seus longos cabelos negros
balançavam com a força da tempestade. Suas vestes estavam em farrapos;
queimadas e rasgadas em uma dezena de lugares, sem o menor dos vestígios
da glória do soberano que as vestia.
Em Utymgo as tempestades nunca paravam. Os dias eram sempre escuros, as
noites sempre interrompidas pelo ribombar dos trovões. A população era
escassa, amedrontada e sempre pronta a fugir diante do primeiro sinal da
fúria dos deuses. Diziam que Furion era um deus temperamental, assim
como seus trovões. Longo em sua ira e muito curto em sua benevolência.
Poucos se arriscavam a porem os pés para fora da porta sem antes pedir
sua proteção.
Para Eora aquele era um planeta desagradável em todos os quesitos. Não
fosse a urgente necessidade de descansar, jamais teria posto os pés ali.
Durante quase uma semana, desde que Drasnuil e sua hoste começou a
persegui-lo, houve apenas dois momentos em que ele conseguiu
despista-lós. Ele pretendia aproveitar essa pequena trégua o máximo que
pudesse*.*
Ainda irei me vingar de Rasgranar por tudo isso, jurou em silêncio.
Nunca fui tão ultrajado em toda minha vida,
Escorraçado. Perseguido. Humilhado. Seria capaz de arrancar o crânio de
alguém com as próprias presas, se isso fosse o suficiente para aliviar
seu orgulho ferido.
Há pouco tempo, a vida de Eora era tão luxuosa quanto à de qualquer deus
maior. Cidades. Reinos. Riqueza. Poder. Como deus regente de Duae, Eora
tinha quase tudo que alguém como ele merecia. Tudo lhe pertencia. As
pessoas simplesmente se jogavam aos seus pés e suplicavam por sua
magnanimidade e misericórdia. Ele havia batalhado muito ao longo dos
milênios para alcançar tal posição. Poucos de sua espécie haviam sido
tão afortunados.
Foi o destino, concluiu.
O destino o havia escolhido para a grandeza. Muitos de seus
consanguíneos já tinham sido degolados em meio o vendaval das eras --- a
maioria esmagadora, na verdade. Somente ele havia sido escolhido pelo
destino. E era isso que tornava ainda pior sua situação atual. Envolver
Malfenda nisso tudo fora primeiro degrau da sua queda. Ter desvinculado
o deus dos elderes da Coroa, sem dúvida, o último golpe que o
impulsionou ladeira abaixo. Ainda não lhe entrava na cabeça o porquê de
ter feito tamanha tolice. As coisas simplesmente foram acontecendo; uma
em cima da outra. Todoa os anos de planejamente haviam sido jogados no
lixo. Era para eu ter me tornado o mais poderoso entre todos os deuses.
Acima do próprio Rasgranar. Agora sua situação era pouco melhor que a
de um cão, chutado para lá e para, ficando contente com o simples fato
de no momento não ter uma lâmina em seu pescoço. Contemplando o alto,
temerosos, esperando que a qualquer instante os nuvens se rasgassem para
dar passagem a uma legião de deuses e semideuses em busca de sua cabeça.
Olhando para os tempestuosos céus, deixou-se imaginar qual seria o
motivo para tamanha violência. Os trovões rugiam nos céus como o badalar
de dez mil marteladas, e os relâmpagos rasgavam de canto a canto o
panorama celeste, clareando a escuridão das nuvens carregadas. Furion
deveria estar irritando. O deus dos trovões era realmente um ser
temperamental. Até mesmo o menor dos deslizes já era suficiente para lhe
nublar o dia. E quando seu dia era nublado, o mundo também era. Durante
toda sua vida, Eora já tinha escutado muitas histórias sobre o deus dos
trovões. Guerreiro, herói, traidor. E agora, deus. Eora era capaz de
memorizar os mínimos detalhes da vida de alguém, caso estivesse
interessado. É claro, ele nunca foi interessado em nada que envolvesse
Furion. Mas já foi rival dele em muitos eventos passados. Ele conhecia
mais podres a respeito do tal deus, do que Furion conhecia de si mesmo.
Furion, não. Fel Lynail, o Caçador de Dragões. Eora quase ri ao
imaginar quão ridículo era isso. E ainda o chamam de deus. Se alguém
merecia esse titulo era Eora, não um estúpido como Furion que apenas
lutara a vida inteira, seguindo ordens e fechando a boca com medo de
questionar quem considerava superior.
Temer alguém assim era o mesmo que temer a ira de um verme...
Um trovão especialmente raivoso vibrou os ares, abalando os picos das
montanhas e pautando o fim de suas reflexões. O azul repentino iluminou
o monte onde seus pés se cravavam. Não é um bom lugar para se pensar,
concluiu deslizando para baixo. Às vezes até mesmo um lacaio deveria ter
seu momento de fúria...
Pegando impulso em uma pedra, dobrou os pés e se jogou de cima do monte.
Um vento frio e molhado o acompanhou durante a queda. Seus olhos
castanho acompanhavam o movimento das gotas d'água ao seu redor.
--- Quebre-se --- sussurrou.
Fluxos de Poder Primevo o envolveram. Uma aura dourada o cercou,
revestindo, envolvendo. Banhando sua existência com o poder...
--- Agora.
A aura dourada se expandiu, englobando tudo ao seu redor, transformando
todas as cores do mundo em tons de dourado.
Então o tempo parou.
As gotas d´água ao seu redor travaram. Cada uma delas, como desenhos
pintados no ar. Um relâmpago que caia a cinquenta metros, se cristalizou
em plena queda, estático. Imóvel. O som foi calado. Sequer o respingar
de água, ou o farfalhar do vento era audível.
Eora pisou no chão, suave e tranquilo, como se tivesse descido um degrau
de dez centímetros, e não uma queda livre de cem metros em um solo
pedregoso e enlameado. O mundo ao seu redor era uma pintura surrealista.
Tudo estático, tudo parado. Não havia movimento algum. Sua respiração
era o único som audível.
O verdadeiro poder de um deus, pensou, observando o relâmpago travado
em pleno ar.
--- Retorne. --- Ordenou, fazendo um gesto de mão.
Eora recolheu sua aura de Poder Primevo. O luzir dourado que cercava os
arredores se encolheu, retornado a ele, deixando a negritude da noite
tomar seu devido lugar.
As gotas caíram.
O relâmpago pipocou em uma árvore, repartindo-a, e o som de seu estourou
rugiu alto. A ira da tempestade retornou a tudo sua potencia.
Eora lançou uma careta de desdém para os céus. Caçador de dragões, é?,
riu consigo mesmo. Então, segurando as bordas de sua túnica para não se
enlamearem no solo aquoso, partiu.
Uma cidadezinha se erguia a poucos quilômetros dali.
Suas muralhas altas enfileiradas com torres e estandartes de guerra eram
um claro sinal de que nem todos confiavam sua proteção a vossa
divindade, Furion. Apenas alguns poucos prédios ultrapassavam a altura
estabelecida pela muralha. Os poucos prédios visíveis pareciam bastante
simples, considerando a proximidade entre a cidade e o famoso panteão do
deus dos trovões. A única coisa digna de nota era uma enorme estrutura
em forma de domo, cravada bem no centro da cidade.
Dois vigias --- humano e gannaio --- escondidos da chuva abaixo de um
abrigo posicionado no pé da muralha faziam a guarda da entrada da
cidade. Ao verem Eora se aproximar, soltaram um alerta. Os ventos fortes
e o rugido constante dos trovões dificultava a audição, mas Eora já
imaginava o que eles queriam.
--- Sou Dasvalem. --- Gritou, usando uma pitadinha de Poder Primevo para
aumentar a sonoridade e impor temor nos sentinelas. --- Dasvalem, o deus
andarilho. Deixem-me entrar, mortais.
Caso não o fizessem, Eora seria obrigado a usar de violência. Violência
significava Poder Primevo, e a última coisa que ele desejava no momento
era gastar Poder ou chamar atenção de seus perseguidores.
O vigia gannaio lhe deu uma olhada de alto a baixo, analisando-o com uma
carranca de puro desdém. Os olhos do vigia se travavam principalmente
nas feridas de Eora e em suas roupas maltrapilhas e encharcadas. Seu
companheiro humano acenou com um cajado para que Eora se aproximasse
mais.
--- Nunca imaginei que vós vestisses pele humana, deus andarilho. ---
Zombou o vigia gannaio, encarando Eora e dando palmadinhas em seu
companheiro humano.
--- Não brinca com isso, --- disse o humano, afastando-se do outro
vigia. Uma linha de preocupação se formou em seu rosto. --- Você sabe o
que acontece com quem recusa passagem ao deus andarilho.
--- Tu és crédulo, rapaz. --- O gannaio riu.
--- Talvez ele esteja falando a verdade... --- sussurou o humano, com
certa desconfiança.
Quase todas as civilizações conheciam de uma maneira ou outra a lenda do
deus andarilho. Em Utymgo ela deveria ser especialmente conhecida devido
as muitas guerras e conflitos em que seu panteão se envolvera.
--- De onde você vem, meu bom senhor?
Empertigando-se em uma posição dramática, Eora declamou:
--- De onde venho apenas os deuses sabem, meu jovem. Não importa os
caminhos que águia, o importante ela repousar suas ao fim da jornada.
Tudo o que busco são agasalho e a boa companhia dos mortais... ---
franziu o cenho, tentando se lembrar do resto da tradição. --- Em
recompensa, lhes trago prodígios e novos tempos.
O vigia gannaio cruzou os braços, o semblante fechado.
Eora comprimiu as palmas das mãos, uma luz dourada as cercou. Depois,
lentamente, as abriu. Um bastão metálico surgiu, levitando. O vigia
humano arregalou os olhos. O gannaio limitou-se a soltar um resmungo
mal-humorado e pouco surpreso.
Eora girou o bastão entre os dedos, uma flama dourada vibrou no ar.
Dessa vez até o gannaio arregalou os olhos. Em compensação o humano
correu até os fundos e, sem dizer nem perguntar mais nada, começou a
acionar os mecanismos que erguiam a entrada da cidade.
Eora ficou um pouco surpreso com a reação ligeira do homem. Mas, talvez,
com o grandioso Panteão do deus dos trovões tão perto, fosse de se
esperar uma atitude dessas.
Esses mortais, pensou aprovativo, parecem devidamente adestrados. Já
se lembrava com nostalgia de como eram os habitantes de Duae.
O gannaio lançou um olhar de dúvida em direção de Eora, mas também não
disse mais nada antes de se juntar ao seu parceiro.
Prodígios e novos tempos, refletiu Eora enquanto observava os portões
se abrirem. De certo modo não estou mentindo.
Assim que deu o primeiro passo para dentro da cidade, o vigia humano lhe
interpelou. Depois de uma tentativa frustrada de puxar conversa, o
sujeito lhe entregou sua própria capa de chuva.
--- Houve uma época em que os deuses estavam mais próximos de nós. ---
Disse ele, assim que entregou a capa. --- Da minha parte espero que
esses dias voltem.
Eora apanhou a capa. Era marrom-escura, pesada e feia. Mas estava em
melhores condições que os trapos que usava no momento. Além do mais
possuía o tamanho ideal.
--- Fique com isso. Considere o primeiro sinal de nossa hospitalidade.
O humano fez uma reverência temerosa então retornou para seu posto.
Sem responder, Eora jogou-a sobre si e mergulhou na chuvarada que tomava
conta das ruas.
Embora o mal tempo fizesse que todas as casas se fechassem,
esgueirando-se para uma pequena guarida --- projetada com a exata
finalidade de proteger os transeuntes do clima intempestivo --- Eora
conseguiu avistar uma movimentação estranha na rua adiante. Figuras
embrulhadas em seus mantos de chuva zanzavam, enfrentando o vento forte
e a chuva para entrarem na construção em forma de domo que Eora havia
visto antes. Curioso, decidiu se aproximar.
A obra toda possuía a forma de uma imensa laranja cortada ao meio, à
parte de cima esférica e constituídas de algo semelhante a encaixes
formados por enormes placas. A construção em si era imensa, deveria
tomar bem um décimo do tamanho de toda a cidade, erguendo-se por no
mínimo quinhentos metros. Dezenas de entradas em forma de arcos lotavam
as laterais, dando a impressão de que o local era uma espécie de gaiola
gigantesca. Porém lonas haviam sido jogadas por todas elas, lonas tão
grandes e pesadas que nem mesmo a força do vento era capaz de sacudi-las
pelo mínimo que fosse. Apenas um dos arcos estava descoberto, as figuras
encapuzadas se movimentavam para lá.
Após analisar o padrão das roupas dos passantes, Eora se esgueirou até
um beco e teceu pequenas quantidades de fluxos de Poder Primevo ao redor
de sua capa. Tão pouco não chamará atenção, pensou. Manipular a
realidade, desacelerar o tempo ou fazer viagem de longo alcance
requeriam enormes quantidade de Poder, mas uma ilusão tão simples quanto
aquela era quase imperceptível. E, a não ser que seus perseguidores
estivessem na sua cola, era pouco provável que alguém notasse. Se a
Essência Primeva era um rio, manipular a realidade era mudar seu curso a
força. Desacelerar o tempo era um esforço equivalente a parar seu curso.
Mas ilusões como aquela eram pedrinhas jogadas na margem.
Saindo do beco, Eora acompanhou duas das figuras, imitando o jeito
apressado como elas caminhavam. Talvez, por causa da escuridão que se
fazia, sequer notaram a presença de Eora.
Ao chegarem diante do arco de entrada, uma delas parou. Deu uma olhada
para os lados, depois entrou. O outro fez o mesmo.
Eora, pensativo, hesitou um pouco antes de tomar a decisão.
Pelo incrível que fosse, o interior do local estava iluminado. Holofotes
posicionados nas laterais banhavam tudo com uma forte luz amarela. Sons
de metal sendo puxado e gritos autoritários entrecortados por suspiros
agonizantes ecoavam pelos ares. Um rebuliço se fazia mais a frente.
Vários escravos trabalhavam, puxando massa, erguendo vigas, formando
concreto.
Eora notou que as duas figuras que ele seguira haviam puxado as capas de
chuvas. Eram dois draconianos. Mas não simples draconianos. Eram do
Sangue do próprio Ofyoto. Permaneciam eretos, com seus olhos de serpente
encarando os escravos. Seus rostos eram tão humanos que chegava a ser
perturbador. Mas as escamas cinza-avermelhadas que cobriam suas faces
alargadas e as presas salientes lhes davam o aspecto de uma estranha
caricatura, como se alguém tivesse misturado um humano e um réptil sem
se importar com o resultado final. Com longas orelhas e dois chifres
cumpridos cruzados para trás, dando ainda mais estranheza a situação.
Asas de couro se projetados para trás. Placas de ferro lhes cobriam o
tórax, e uma cobertura de malha descia atésuas longas garras. Insígnias
militares que, pela quantidade, deveriam representar uma alta patente
entre o exército de seu deus, reluziam no busto de ambos.
Dezenas de escravos, sobre o açoite constante, arrastavam um imenso
pilar. Olhando ao redor, notou que vários outros se dedicavam a fazer o
mesmo. Cinco buracos no piso demarcavam os locais onde os pilares seriam
colocados. Alguns já estavam em pé; três, na verdade, com varias dezenas
de metros. No mais alto deles, uma corrente havia sido pendurada na
ponta --- seus aros eram tão grandes que daria para um homem passar por
dentro. Dava a impressão de uma imensa forca. Que curioso, pensou
Eora.
--- Ei, você ai --- Exclamou uma voz serpentina. Erguendo as
sobrancelhas, Eora percebeu com uma dose de indignação que estavam
falando com ele. --- O que faz aqui?
Um draconiano de escamas azuladas brandiu um chicote, caminhando na
direção de Eora com as presas á amostra. Esse era da prole de Coasyco.
Troncudo com a face mais animalesca que seus dois superiores do Sangue
de Ofyoto, em suas mãos o chicote pingava sangue, dando amostras de seu
uso recente.
--- Apenas observando. --- respondeu Eora, com bastante suavidade.
--- Observando?! Isso não é lugar para vagabundos e humanos, --- o
chicote estralou no ar. --- Se é falta de trabalho logo lhe arrumarei
um.
Vagabundos e humanos?, Eora se indagou. Isso era até ofensivo. Nem
todo vagabundo é humano, pensou com um pouco de bom humor. Em seguida
lançou um olhar tedioso em direção aos lamuriantes escravos. Alguns
estavam caídos de cansaço, a esses os draconianos esmurravam e punham em
pé. Mais os que estavam em pé não pareciam muito melhor.
--- Acho que não.
O draconiano soltou um silvo e partiu para a agressão.
Pequenas ondulações brilharam ao redor de Eora, encobrindo seus olhos
com uma luz dourada. Antes que chicote estalasse novamente, Eora encarou
olho no olho o draconiano, que se imobilizou em pleno ato, tomado por
uma expressão vaga, como se de repende houvesse perdido a visão ou senso
de orientação. Suas mãos se afrouxaram. O chicote caiu.
--- Não me incomode. --- Ordenou Eora, firme e calmo, como se falasse a
uma criança. --- Deixe-me aqui, está entendido?
Sem pestanejar o draconiano assentiu, balançando a cabeça da mesma forma
que um cãzinho abanaria a cauda ao agradar seu dono.
Olhando para os lados, para se certificar de que mais ninguém os
observava, Eora sacudiu a mão, enxotando-o.
--- Agora volte para seu trabalho. E não deixe que mais ninguém me
incomode. Invente alguma coisa, ponha esse cérebro de lagartixa para
funcionar.
O draconiano assentiu novamente, pegou seu chicote e caminhou em direção
aos dois Sangues de Ofyoto. Um traço de preocupação se formou na face de
Eora ao observar os três conversarem. Ás vezes o controle mental era
bastante útil e sutil; apenas uma ordem, um comando, um desejo, e a
criatura assim faria sem questionar ou perceber que estava sobre
domínio. Mas outras vezes...
Se os outros draconianos percebessem, ele não perderia seu tempo usando
Poder Primevo de novo. Iria sair dali, por mais curioso que estivesse
para saber o que estava sendo feito naquele local.
Os dois Sangues de Ofyoto pareceram concordam com seja lá o que tenha
sido dito para eles, pois olharam na direção de Eora e, assentindo,
viraram-se em direção à obra e o ignoraram completamente, como se ele
não estivesse mais no mesmo plano de existência. Por um tempo ficou
apenas ali, pensativo, observando o monótono trabalho. A chuva lá fora
estava forte, e embora o clima fosse sempre ruim em Utymgo era provável
que hoje estivesse ainda pior. Acho que vou passar a noite por aqui.
Descansar. Reabastecer as forças.
Certamente Drasnuil não iria lhe procurar ali. Embora houvesse se
disfarçado de humano, aquele corpo era apenas uma materialização, e
possuia pouca necessidade de conforto. Além do mais os gritos dos
escravos e o estralar dos chicotes lhe davam uma sensação de paz
nostálgica. Recordava-se dos bons tempos em que ainda era o senhor de
Duae.
Eora supôs que já era quase meia-noite quando enfim os chicotes dos
draconianos se aquietaram, e os escravos, arrastados ou empurrados a
pontapés, foram levados para um alojamento dentro da estrutura. Haviam
tantos que era quase um desafio ás leis da lógica rudimentar caberem
todos num lugar tão pequeno. O alojamento dos mestres da obra ficava
mais afastado. Amplo, quase duas vezes maior que o dos escravos, só que
com bem mesmo residentes e um ar de dignidade soberana que lhe agradava.
Eora chamou para si o draconiano de antes. Servil, a criatura se
aproximou dele. Fingido estar sendo escoltado pelo draconiano, Eora
adentrou o dormitório.
Ao que parece a obra era chefiada pelo próprio panteão de Furion, ou
talvez por ele mesmo, pois também tinham alguns áureos no alojamento.
Deitado em uma cama, Eora entreouviu a conversa de alguns deles, altas
horas da noite.
--- ...mas como ele era? --- perguntou alguém.
--- Parecido com um draconiano. --- Afirmou um segundo. --- Um de
baixa estirpe, como esses da Geração de Moecera. Mas eu nunca vi um tão
grande, era quase do tamanho de uma nave de guerra, maior até. As
escamas eram roxas, e possuía asas enormes apregadas por ferro. E...
bem, ele caberia aqui. Eu acho. Mas por pouco...
--- Pelos deuses! Olha o que você está dizendo. É claro que ele cabe
aqui. As medidas foram dadas pelo próprio deus Furion.
--- Às vezes você parece um paranoico com essas suas histórias, Lauin.
Eu já ouvi outras histórias, mas nada tão exagerado assim...
--- Tem gente que chama ele de deus-trovão... Acho que..
--- Hereges! --- rugiu alguém, acompanhado por uma pancada seca
enfatizando sua indignação. --- Todos hereges! Furion é um único deus
dos trovões!
Então vozes se aquietaram.
Eora se aproximou da parede, tentando ouvir mais. Pensou em usar algum
truque com Poder Primevo, mas desistiu. A conversa havia se encerrado.
É uma pena. Ele estava bastante curioso para saber qual era o assunto.
Mas não se deixou abalar. Se o destino assim quisesse, certamente ele
descobriria não só o tema daquela conversa como o motivo da construção
em andamento.
Recostou-se novamente na cama, deixando-se imaginar o que faria em
seguida. Haviam muitas opções, na verdade. A maioria delas, no entanto,
desagradavam profundamente tanto o orgulho quanto as ambições de Eora.
Entre todas, voltar para Duae era uma das que mais lhe agradava. Mas era
óbvio que todos os grandes e pequenos reinos de Duae já estavam sob a
vigilância de Rasgranar. Voltar para lá seria entrar de cara em uma
arapuca. Eora havia tentado aplicar um golpe no próprio deus dos deuses,
era loucura imaginar que Rasgranar não tentaria lhe matar de qualquer
maneira possível.
Talvez eu devesse visitar Furion, pensou. Não. É melhor não. Furion
não era alguém a se recorrer. Com o deus dos trovões não havia diálogo
ou proposta a se oferecer.
Enfiou a mão no bolso e puxou um pequeno objeto triangular. Era
semelhante uma lasca de vidro escarlate. Ardia e brilhava como fogo e se
agitava em suas mãos como se tentasse escapulir. Era um estilhaço, na
verdade. Um estilhaço das asas do próprio Venafelyn.
Eora apertou com força, impedindo-a de fugir.
Em Duae, Eora era conhecido como o deus dos tesouros. Um título
apropriado. Somente sua fortuna líquida superava a maioria dos impérios
e reinos que ele já vira. E ele já vira quase todos os que se mostraram
dignos de sua presença. No entanto sua verdade fortuna era feita de
coisas como aquele estilhaço.
Quanto Rasgranar me daria por algo assim?, perguntou-se, girando o
estilhaço diante de seus olhos. Um valor exorbitante, sem dúvida. É uma
pena que eu não esteja disposto a negociar. Não depois de tanta
humilhação. Não depois de ser perseguido como um cão por causa de um
crime que nem sequer chegou a cometer.
Eora se colocou em pé.
Hoje não haveria descanso.
Ainda estava muito cansado, mas os pensamentos amargos que rondavam sua
mente não lhe permitiria passar nem mais um segundo parado. Deixou uma
fina camada de Poder Primeva emanar de suas mãos, formando uma película
dourada em pleno ar. Então, girando os dedos, entrelaçou uma magia
dimensional. Aquela fina camada se abriu ao meio, dando um leve
vislumbre de um micro-universo. O resplendor dourado de seu tesouro
lançou feixes de luz através da brecha. Eora enfiou a lasca escarlate
para dentro, então desfez a magia. A brecha se fechou, e as feixes de
luz dourada desvaneceram.
Pois bem. Está feito.
Eora não tinha muita certeza quanto a usar aquele artefato. Ele não
sabia até que ponto Venafelyn poderia ser receptivo. Talvez o recebesse
de braços abertos, como um velho companheiro que retorna ao lar. Ou,
provavelmente, o recebesse com fogo e ira, como se faria a um traidor e
ladrão. Assim como Malfenda, Eora não tinha deixado um legado imaculado
entre os Construtores. Ele não se arriscaria a tanto enquanto ainda
pudesse se manter sozinho.
Eora empertigou em frente, por um instante assumindo toda a majestade
que um dia possuiu. Então se abaixo para pegar o desgastado manto que o
vigia lhe dera, e caminhou para fora do alojamento.
Parou diante dos enormes pilares erguidos pelos escravos,
contemplando-os por um momento. O pilar principal tinha quase setenta
metros. E tinha uma textura que... Eora franziu a testa. Regnico,
surpreendeu-se. Tudo isso é feito de aço regnico. Nem mesmo em Duae,
terra de riqueza e fortuna sem fim, alguém usaria algo precioso assim de
forma tão leviana. Erguendo o olhar, novamente Eora viu sua atenção
novamente captada pelas correntes cravadas na ponta do pilares.
Principalmente no principal.
Um riso se formou em seus lábios.
Então é isso, concluiu. Uma forca.
Do lado de fora a chuva continuava; pesada e agressiva. Não havia dado
sequer um instante de trégua. As nuvens continuavam a enegrecer os céus,
como imensos mantos negros, se contorcendo sobre si mesmas enquanto
arrematavam trovoadas sem fim. E os relâmpagos... os relâmpagos...
Havia algo de estranho ali.
Eora fechou o semblante.
Os relâmpagos se cruzavam no céu, caindo uns sobre os outros, fazendo
curvas anormais ou simplesmente se dissipando em pleno ar. Eora jogou o
manto sobre si e mergulhou na chuva. Dobrou numa esquina e parou diante
de uma aglomerado de pequenas casinhas cujos tetos achatados ficavam
muito próximo do solo. Agarrou-se em um deles e subiu. Caminhou pelos
telhados até alcançar o ponto mais elevado entre as casas.
Vejamos.
A pele ao redor dos olhos de Eora se endureceu e se descascou. Pequenas
pigmentos cairam de sua face. E seus olhos castanhos foram substituídos
por orbitas douradas.
Sentiu como se o mundo clareasse.
Através daqueles olhos, conseguiu ver cada gota de chuva, cada traço de
luz e de sombra, cada mínimo detalhe antes ocultos de seus olhos falsos.
E, acima de tudo, viu os fluxos de Essência Primeva dançarem sobre a
existência como pequenos rios de energia ou veias pulsantes.
Nas nuvens os fluxos eram tortos e intensos. Eram pesados e brutos. Como
se alguém os tivesse amarrado á força. Furion andou brincando...
Mas...
Havia um outro fluxo ali.
Era bem mais leve. Sutil, até. Como uma película invisível entrelaçada
ao redor das nuvens e do ar. Fascinante. Por que não percebi antes?
Era realmente sutil. Quem teria um controle tão preciso assim? Embora
duelassem de igual para igual, os dois fluxos de Poder Primevo eram de
naturezas totalmente diferente. Eles nunca se repetiam, Eora sabia
disso, mas era primeira vez que via fluxos tão diferentes disputando
entre si.
Isso não era da sua ossada, é claro. Nem sequer tinha a ver com seus
problemas (que por si só já eram muitos) e, no entanto, não conseguia
tirar essa dúvida da mente. Apenas de olhar para aquele fluxo
desconhecido, Eora já se sentia compelido a descobrir quem era o dono.
Era uma ânsia estranha, como uma nostalgia profunda e latente.
Decidiu procurar um ponto mais elevado.
Cálculou que donos dos fluxos (Furion e seu opositor) estavam muito
longe. Provavelmente nem sequer estavam na mesma região. Mesmo assim
talvez conseguisse observar um pouco mais desse raro combate. Avistou um
prédio mais elevado que outros. Uma torre de vigia abandonada
posicionada ao pé da muralha interna. As casinhas emparedadas forneceram
uma plataforma para seus pés enquanto ele se equilibrava em direção a
torre, a chuva forte abafando qualquer barulho provocado por ele.
Parou na borda do último telhado, encarando a torre.
Se eu fosse um mago humano, perguntou-se, quão bom eu seria?
Eora ergueu as mãos para frente. Uma aura dourada emanou delas, vibrando
entre seus dedos como uma neblina densa e agitada. Com movimentos
ligeiros de dedo, entrelaçou os fluxos de Poder Primevo e o lançou sobre
o ar a sua frente. Então saltou em direção a torre. No meio do caminho
foi apanhado por um vendaval ascendente que o empurrou para o alto, como
se erguido por palmas invisíveis. Ao chegar acima da torre, começou a
liberar os fluxos de Poder Primevo. A força do vento foi diminuindo, até
se tornar um leve empurrão.
De fato, disse para si mesmo ao se projetar para o interior da torre,
eu seria o melhor. Mesmo se fosse humano.
A lateral da torre havia desmoronado a bastante tempo, criando uma
espécie de janela horizontal. O teto esburacado tinha enormes vagas, por
onde a chuva penetravam com insistência. Eora posicionou um pé sobre a
janela improvisada, fitando o horizonte sombrio. Havia algo de realmente
familiar naquele fluxo intrincado. E isso pertubava Eora. Algo familiar
nunca é bom. Não quando se era um drayno. Não quando se era considerado
um demônio pela maioria dos viventes. Algo familiar realmente não é
bom.
Bem, de todo modo isso não é da minha conta. Eora deu as costas para
as nuvens negras. Furion que se vire... Um estrondo terrível
reverberou do alto, como o estouro de um vulcão. Uma rajada de vento
sacudiu a torre, fazendo-a tremer desde a base. O senso de equilíbrio
apurado de Eora conseguiu lhe manter em pé. Mas o choque da ventania
repentina o empurrou para trás.
A torre continuou a se inclinar em direção ao chão. Eora soltou
impropérios e correu de volta para a abertura. Entrelaçou outro fluxo de
Poder Primevo e se jogou para fora da torre. Enquanto aterrissava no
telhado de uma casa, conseguiu vislumbrar a queda da torre. O
desmoronamento do prédio lançou grandes blocos de concreto sobre a
muralha, ultrapassando o bramido dos trovões. Eora vasculhou os
arredores, estreitando os olhos em direção as nuvens. O que foi isso?
Um relâmpago? Terremoto? A torre não deveria ter caído por si só. Não
estava tão ruim assim. E todos os edifícios construídos nas próximidades
do panteão de Furion eram projetodos para climas rígidos. Não cairia com
um simples chuva. Não foi algo natural.
Eora voltou a se conectar com o fluxo de Essência Primeva. Ao fazer
sentiu um tremor tomar conta de seu corpo. Um formigamento. Suas mãos
tremeram. Havia presença ali, uma aura de puro poder. Abrangendo tudo ao
seu redor. E a fonte vinha do alto. Eora contemplou os céus. As nuvens
estavam esparsas, como se uma lufada de ar as tivesse afastado para
longe. A chuva havia diminuido, e os trovões cessaram. Mas não havia
nada anormal ali. Uma sombra cruzou seu campo visual. Seguindo seus
instintos, abaixo um pouco mais seu olhar, em direção a construção em
forma de domo. Acima dele havia algo. Alguém. Grande e volumoso,
encoberto pelas trevas da noite e oculta pela chuva.
Um último relâmpago rasgou o céus horizontalmente. Iluminado a imensa
forma que se esgueirava ao redor da construção. Dragão. Eora sentiu
seus instintos entrarem em alerta. Um dragão? Não. Não pode ser. Essa
palavra possuía apenas um significado. Drakóus Trógon. O Trono de
Gion. Eora reprimeu seus instintos irracionais. Não, não poderia ser
ele.
A criatura se remexeu ao redor do domo. Suas garras se cravavam ao redor
da construção, a cabeça erguiasse acima, como se lançasse olhares em
direção a cidade. O domo era cinco vezes maior que a criatura, o
equivalia a dizer que o ser possui no mínimo cem metros. Aquela
criatura era maior, pensou Eora com uma estranha sensação de alívio.
Um drainario. Sim, é isso, um drainario.
Algumas figuras agitadas começaram a saír de dentro do domo. Áureos e
draconianos encarregados da construção. Cerca de cinquenta ao todo. Duas
formas altas, com asas longas, e postura humanoide se prostaram a frente
do grupo. Eram os Sangue de Ofyoto que Eora havia visto mais ceda. Eles
pareciam trêmulos. O grupo de feitores recuava, olhando para o alto,
como se não soubessem se corriam, lutavam ou rezavam. Um único áureo
gesticulava freneticamente em direção o topo da construção. Eora
estreitou os olhos, tentando focar sua visão. O que esses infeliz acham
que estão fazendo? Eles realmente estão pensando em lutar? Lutar dentro
da cidade? Seria uma catástrofe. Eu podia ficar aqui e assistir, mas
isso não iria dar certo para mim. Um evento desse nível iria se
expandir rápido, logo até mesmo ele seria envolvido. E, como nunca se
esquecia, o panteão de Furion está a poucos quilômetros dali. Eu devo
fugir enquanto ainda dá tempo. Para a opção mais óbvia.
Quando aqueles infelizes tiverem sido mortos e Furion decidir enviar
patrulhas para verificar a região, Eora já estaria longe dali. Com
sorte, poderia até alcançar algum Portal Entre-Mundos. Sim. É isso,
concluiu Eora*.* Fugir podia até ser covardia, mas recuar ante a
desgraça iminente era outra coisa.
O drayno serpentinou até o alto da construção, erguendo sua cabeça e
abrindo as mandíbulas para os céus. Faíscas e linhas eléctricas
irradiaram através dos ares, puxadas em direção a criatura e formando
uma massa eletrizante no interior de suas mandíbulas. O que esse
desgraçado está fazendo? Vai destruir a cidade? Mas em troca de quê?
Os áureos e draconianos abaixo pareciam tão confusos quanto.
Eora deslizou para fora do telhado. Devo ir logo, antes que algo pior
aconteça. Começou a se locomover em direção oposta a agitação. Então a
meio caminhou, parou. Lançou um olhar para trás. Uma nova linha de
raciocínio surgiu em sua mente. Rasgranar havia descoberto que Eora era
um drayno. E, de certa forma, Drasnuil também sabia. Eora havia
despistado Drasnuil e seus caçadores há um bom tempo. Mas Rasgranar
possuia olhos atentos. Um drayno destruindo uma cidade não era uma
notícia muito comum. E quando o deus dos deuses soubesse disso,
então... No lugar dessa besta desastrada, eu serei o suspeito. E se a
notícia se espalhasse rápido demais, era muito provável que Eora ainda
estivesse em Utymgo quando Drasnuil fosse enviado atrás dele. Ah, que
encontro desagradável, pensou dando meia volta em direção ao aglomerado
de áureos e draconianos.
Acima do domo, o drainario continuou a juntar quantidades exorbitantes
de Poder Primevo em forma de correntes elétricas. Os raios giravam ao
seu redor, aglomerando-se entre suas presas. Eora acelerou o passo,
praticamente correndo em direção ao domo. Parou próximo do grupo de
feitores áureos e draconianos. Todos olhavam para o alto, em estado de
choque. Não pareciam disposto a correr, mas tampouco pareciam querer
lutar. Era estranho. Por que não faziam nada? Por que continuam a
tremer? Era um grupo de cinquenta.
--- É ele, --- disse um áureo, gesticulando em direção ao topo ---
o Deus-trovão.
--- Cale-se, semideus! --- retrucou um dos draconianos do sangue de
Ofyoto. Virou-se em direção aos outros membros do grupo. --- Não se
entreguem ao terror. Furion é nosso senhor. Ataquem a criatura. Confiem
na bênção de nosso mestre. Ataquem!
Alguns áureos se remexeram, incomodados. Mas ninguém fez menção de que
iria seguir a ordem. Continuaram a olhar para o alto, os relâmpagos
emitindo feixes em suas peles cor de ouro. Não é medo, Eora pensou. É
algo mais. Respeito, talvez? Admiração?
--- Vermes! --- O draconiano estralou um chicote no ar, e fogo surgiu
ao redor do instrumento, lançou feixes de luz sobre a face dos
semideuses e draconianos. --- Honrem seu deus, vermes!
Eora deu um passa para frente. Alguns entre o grupo perceberam sua
presença.
--- Fiquem onde estão. --- Ele disse.
--- Afaste-se, humano. --- Ao menos alguém entre o grupo teve presença
de espírito o suficiente para lhe responder. Os demais apenas
continuaram o fitar o alto. --- Isso não é algo que um profano como
você possa se meter.
Eora identificou o falante como um áureo de alta casta que estava um
pouco mais afastado do grupo. Respondera apenas por impulso, mal olhou
na direção de Eora e logo afastou o olhar, dando o assunto como
encerrado.
--- Se atacarem, irão morrer e levar a cidade inteira junto.
O semideus lhe lançou olhar raivoso.
--- E você será o primeiro, caso não recolha logo sua insignificância.
A frente do grupo, o sangue de Ofyoto se lançou aos céus acompanhado uma
dúzia de outros draconianos. Estendeu as asas negras e as dobrou pegando
impulso.
Não. Isso não. Só vai piorar as coisas. Eora ergueu as mãos,
entrelançando ondas de Poder Primevo na direção deles. Um a um, eles
congelaram em pleno ar, como se tivessem sido apanhou por uma mão
imensa.
Os áureos que permaneciam no solo se sobressaltaram, olhando para os
lados. O semideus mais afastado do grupo foi o primeiro a notar.
--- Um mago. --- Exclamou, apontando o dedo na direção de Eora. ---
O humano é um mago.
Eora abaixou as mãos, liberando seu poder. Os draconianos parados por
ele voltaram a se movimentar, mas não tentaram voar novamente. Acho que
é o suficiente para chamar a atenção deles. Era até de mais. O sangue
de Ofyoto aterrissou com um baque, seu chicote em chamas chiando com as
gotas da chuva. Os olhos do draconiano repousaram, severo, sobre Eora.
--- Matem. --- Ordenou, sacudindo o chicote. --- Matem esse verme.
Ele deve ter algo a ver com a chegada desse monstro.
Draconianos avançaram na direção de Eora, sibilando como serpentes
famintas por sangue. Eora por instinto deu passo para trás. Por que ele
estava fazendo isso afinal? Talvez fugir tivesse sido uma opção
melhor.
--- Façam isso, e perderão a única chance de parar essa fera.
Os draconianos se posicionaram ao seu redor, formando um circulo,
bloqueando a fuga por terra. Droga.
Fora do círculo, uma agitação surgiu. Eora ergueu o olhar. Um draconiano
de escamas azuladas e troncudo, se esforçava para entrar dentro enquanto
os outros, pelo estranho que fosse, tentavam lhe impedir. Era o mesmo
que Eora havia controlado assim que entraram na construção.
O draconiano rompeu com o círculo e se colocou ao lado de Eora. Que
curioso. O controle lançando sobre a criatura já havia acabado a um
bom tempo. Então por quê?
--- O que você está fazendo, As-gru? --- Indagou um dos draconianos. ---
Saia da frente agora, ou eu mesmo lhe mato, desgraçado.
--- A mim você pode matar, irmão. --- Respondeu o draconiano As'Gru,
colocando-se a frente de Eora. Que belo escudo, pensou Eora,
aproveitando a oportunidade. --- Mas este é um mensageiro dos deuses.
Mensageiro? Do que esse louco está falando?
--- Você que diz isso --- disse o Sangue de Ofyoto, dando um passo para
dentro do círculo.
As'Gru estremeceu ante a aproximação de seu superior de casta mas
elevada.
--- Eu vi.
--- Você se enganou. --- As presas do descendente de Ofyoto
entreabiam-se, como navalhas, enquanto suas palavras sibilavam para
fora.
O círculo se fechava ao redor de Eora. Eles que realmente acreditavam
que ele tinha alguma ligação com o drainario? Eora sentiu um tremor se
apossar dele. Olhou para o alto. A criatura permanecia acima do domo:
gigante, ameaçador. Os trovões rodopiavam ao seu redor, aumentando cada
vez mais. O que seria dessa cidade quando tamanho poder se despejasse?
Não, pensou Eora, o que será de mim? Essa era a pergunta correta. Os
draconianos ao seu redor continuam a grunir, prontas para atacar.
Estavam receosas por suspeitarem que ele fosse um mago. Mas demoraria
muito para deciderem avançar.
Ao seu lado, o draconiano da prole de Coasyco se remexeu, encarando o
grupo ao seu redor.
--- Eu o vi em seu reino --- disse --- Ele é um deus. Um deus entre nós.
Está disfarçado, mas eu vi quando sua glória tocou em mim.
O grupo caiu em ficou silêncio. Alguns áureos se entreolharam, a dúvida
surgindo em seus rosto.
--- Ele não pode ser um deus encarnado --- um deles enfim disse.
--- Por que não? --- Perguntou Eora, vendo a oportunidade surgir.
--- Você é um humano! --- O sangue de Ofyoto soltou um grunhido.
Criatura maldita, pensou Eora. Se eu não estivesse tão enfraquecido a
primeira coisa que faria era matar esse infeliz. Mas ele estava. E no
momento não tinha certeza se conseguiria lidar com meio centena de
draconianos e semideuses ao mesmo tempo. Eora precisava deles, na
verdade. Caso quisesse obter algum sucesso no que planeja.
--- Fui enviado por Furion. --- Ele exclamou de repente, sem tempo para
pensar em uma alternativa melhor. --- Tenho ordens de parar essa besta.
Eora via a hesitação na face deles. Alguns pareciam em dúvida, outros
chocados. Mas ninguém aparentava não estar levantado a ideia em
consideração. Se havia algo de bom em estar tão perto do panteão de um
deus maior era isso; coisas absurdas poderiam muito bem se passar por
verdades aceitáveis.
O sangue de Ofyoto a sua frente hesitou. As garras ao redor do chicote
se afrouxaram.
--- Prove, então! --- A criatura disse num urro. --- Prove que você é
quem diz ser.
Eora sorriu. Agora você me paga, criatura dos infernos.
Eora inspirou fundo, fechando os olhos. Sentindo a aura de poder se
formar ao seu redor. Envolvendo seu corpo, agitando as barras de sua
túnica, fazendo seus longos cabelos girarem. Exclamações de áureos
surpresos surgiram ao seu redor. Mas ele não fez questão de olhar para
eles. Estava concentrado. Focado. A aura de Poder formou um vórtice
dourado ao seu redor. Com um forte comando mental, controlou o vórtice,
fazendo fluir em uma única direção. Abriu os olhos e juntou as mãos para
frente. O poder se enrolou em seu braços, em seu pulso, e aglomerou-se
no interior de suas mãos. Então, ele as abriu na direção do sangue de
Ofyoto. A criatura arregalou os olhos, e tentou fugir batendo suas asas.
Mas a descarga de poder lhe alcançou primeiro, corroendo suas escamas
como fogo, devorando a carne. Desintegrando todo o tecido que constituia
a criatura. Nem mesmo pó restou. Tudo se desfez num estouro luminoso.
Eora sentiu sua visão ficar turva. Os sentidos enfraquecerem. Usei
energia demais. Exagerei. Suas pernas fraquejaram para o lado. Fique
em pé! Ordenou para si mesmo*. Em pé!*
Com esforço, retomou o equilíbrio de seu próprio corpo. Então sustentou
um olhar duro em direção a multidão que o encarava. Era tamanho o estado
de admiração deles, que ninguém pareceu ter reparado em seu lapso de
fraqueza. Muito bem. Isso facilita as coisas.
--- Um verdadeiro deus! --- Disse o draconiano ao seu lado, o tal de
As'Gru.
--- Um deus, de fato. --- Disse um áureo, um tanto mais hesitante. ---
Humano algum faria isso.
Eora franziu o cenho. Sim, fariam sim. Semideuses tinham a tendência
de menosprezar as outras espécies. Mas, bem, as vezes isso é bom.
Eora abriu os braços em direção a multidão, em um gesto abrangente.
--- Vocês virão com seus próprios olhos. Alguém mais dúvida de mim?
Silêncio.
Um semideus deu um passo a frente. A face encoberta por micro peliculas
douradas, dando um aspecto de realeza. Filamentos de aço dourado
encobriam seus cabelos. Parou diante de Eora, inclinando-se em uma
reverência.
--- Sou Tylun da casa Lofind --- ele disse. --- Se você é um deus
encarnado, diga-nos, então, o que fazer.
Eora alargou um grande sorriso. Enfim alguém sensato.
Então apontou para cima.
--- Eu irei parar aquela criatura--- disse. --- Infelizmente, para isso
precisarei da ajuda de vocês. Formem um vínculo.
--- Um vínculo? --- Perguntou um áureo, lançando um olhar
significatico em direção a Eora. --- Tem certeza que é possível? Mesmo
com um deus, o corpo de um humano permanece humano.
Em linhas gerais, ele estava certo. Mas...
--- Não questione. Apenas faça logo. Não há muito tempo.
Tylun-Lofind assentiu, e se virou na direção dos outros áureos.
--- Unam-se, semideuses! --- Ordenou. --- Formem um vínculo.
Praticantes de at'lucea á frente. Não praticantes e draconianos para
atrás.
Sob as ordens do semideus Tylun, o grupo foi se configurando. Treze
áureos ficaram a frente, junto com Tylun e Eora. Um bom número,
considerando que haviam apenas dezoito áureos em todo o grupo. Eora
conseguia sentir os resmungos soltados pelos draconiano. Eram guerreiros
ferozes e algozes de escravos sem igual, mas quando se tratava de Poder
Primevo a concorrência era desleal. Apenas as duas castas mais elevada
conseguian se equiparar.
Os áureos at'luceos se aproximaram de Tylun.
--- Quatorze --- ele disse olhando para Eora. --- É mais do que
suficiente, não?
Eora assentiu.
--- Deve servir --- respondeu. É muito. Mas não o suficiente, pensou
desgostoso. Séria necessário ao menos dez vezes mais para restaurar sua
força completamente.
--- Vínculem! --- disse Tylun.
O semideus colocou a mão sobreo ombro de Eora. Seus dedos radiavam
flamas douradas, seus olhos ardiam, brilhante como esferas de ouro. Os
outros at'luceos se mantiveram afastado. Mas ergueram as mãos na
direção. O Poder Primevo fluia em seus corpos, formando uma linha que
conectava cada um deles e depois passava para Eora.
Eora se empertigou conforme o poder prenetrava seu ser. A sensação como
de um êxtase terrível. Frenético. Como se mil e uma coisa acontecessem
ao mesmo tempo. Sentia-se poderoso. Novamente, poderoso. Não igual
sempre fora, porém melhor do que antes. Mas, ainda assim, havia de
amargo. Ainda que não fosse um vínculo pessoal, fragmentos dos desejos
de cada áureo se chocoalhavam em sua mente. Sentia-se um servo; a
ajoelhado diante de Furion --- terrível, vestido em sua armadura de
trovões entrelaçados --- tendo plena consciência de que não lhe era
permito negar nem mesmo o menor dos desejos de seu deus e imperador.
Sentia-se um conquistador; pisado sibre o crânio de inúmeros mortais,
com sua pele dourada embebecida no vermelho do sangue. Sentiu-se um
opressor; rasgando a pele à chicotadas...
Então as sensações desapareceram. Apenas o Poder permaneceu.
Tylun se afastou, ofegante.
--- Está... feito.
Sua face dourada, havia perdido o brilho, sendo substituído pie tons
menos radiantes, quase prata. Os áureos ao redor também ofegavam,
cansados física e mentalmente.
--- Faça... bom uso.
--- Farei --- respondeu Eora.
--- Há... algo mais que possamos fazer? --- Perguntou um dos áureos
at'luceos.
--- Não. --- Eora coçou o queixo. --- Bem, talvez sim. Certifiquem-se de
se manterem longe e não permitam que ninguém se aproxime.
Tylun assentiu.
--- Agora, se me permite a pergunta, que deus é você?
Eora riu.
--- Vocês me conhecem --- disse. --- Sou Dasvalem.
Várias exclamações de surpresa surgiram entre o grupo. Eora não esperou
que novas perguntas se formassem. Acreditem no que quiserem, tolinhos.
Concentrou Poder ao redor de si, formando um turbilhão e levitando em
direção ao topo do domo.
Os relâmpagos se convulsivam a cima da construção. Eora pousou na
lateral do teto. O drayno estava logo adiante; cabeça erguida para os
céus, as descargas elétricas girando ao redor de seu crânio. Suas
feições assemelhavam-se um pouco com um crocodilo. As mandíbulas mais
retraidas e grossas. As escamas brilhando em tons roxos refletindo o
azul celeste dos relâmpagos. Eora não reconhecia àquele drayno. Nunca o
havia visto antes. Estranho. Não restavam muitos deles hoje em dia, e
Eora possuía uma memória infalível. Se eu ao menos soubesse quem ele
é...
Eora se aproximou mais. A fera relampejante parecia concentrada demais
no que estava fazendo para reparar no mundo exterior. Ele planeja
destruir a cidade?, indagou-se Eora. Pela demora provavelmente era
disso para algo pior. O braço direto do drayno estava estirado diante do
topo da construção, grande e pesado. Estacas metálicos estavam fincados
em certos pontos, como pregos imensos e mal colocados. Eora passou por
cima dela, tomando cuidado para não chamar a atenção da criatura para
si. Draynos nunca foram conhecidos por seu bom senso admirável, no
entanto se chegasse mais perto Eora pudesse resolver isso de uma forma
mais sutil. O poder unido de quatorze semideuses e as reservas quase
esgotadas que ele possuí seria suficiente apenas para mantê-lo vivo caso
as coisas desandassem.
Ao chegar a vinte metros, Eora soltou fluxos de Poder Primevo
materializando um égide para lhe proteger das descargas. O ar tremeu
ao seu redor, cristalizando-se em um fino escudo semitransparente. O
draynario inclinou a cabeça levemente, mas permaneceu concentrado.
Eora parou diante da face da criatura. Seu queixo pesado está erguido
para cima de modo que era pouco provavelmente que Eora estivesse em seu
campo de visão.
Eora puxou ar, enxendo os pulmões:
--- Você deve parar agora.
Não houve resposta.
Eora repetiu.
Silêncio.
Eora suspirou. Essa criatura é racional? O pensamento vagou na sua
mente por um tempo. Gotas de chuva caíram em sua face. Eora limpou,
jogando-as para longe da mesma forma que fazia com aquele pensamento
absurdo. Draynos eram racionais. Tinham de ser. Eu sou racional. Por
que ele também não seria? Era um lógica fácil de contestar,
considerando que a criatura está prestes de varrer uma cidade inteira
sem nem um motivo aparente.
Eora s locomoveu mais para frente, tentando entrar no campo visual do
drayno. Mas o queixo protuberante da criatura, erguido para alto como
estava juntamente com os relâmpagos que giravam diante de sua face não
ajudavam muito. Estacas de aço havia sido fincadas ao longo do crânio da
criatura, formando uma estranha coroa que se curvava para trás. Os raios
se chocoalhavam entre as estacas; e estes eram os únicos som que se
ouvia da criatura. E as gotas da chuva.
--- Ouça, --- gritou Eora, sua voz normalmente controlada saindo como um
trovão acima dos outros trovões. Poder Primevo, é claro. --- Você deve
parar. Parar! Compreende? Não continue mais com isso. PARE!
Silêncio.
Eora cerrou os dentes*.* Gritar não era de seu feitio*.* Sempre algo
tolo. Gritos... Eora nasceu soberano. Seus sussurros eram ordem
irresistível. Era absurdo ter de gritar para se fazer ouvir.
Besta estúpida! Será que não consegue mesmo me compreender?
Eora juntou as mãos, liberando as reservas de Poder recém adquiridos.
Vejamos se ele se mantém quieto depois disso. Ergueu a mão diante de
si, mirando na fronte da criatura. Não iria lhe matar, é claro. Se
tivesse poder para isso, Eora já teria partido de Utymgo há muito. Seria
mais como uma agulhada bem colocada. Entre as escamas e...
O draynario se mexeu. Eora deu um passo para trás, apagando a chama de
poder que se formava em suas mãos.
A face predatória do drayno se enclinou um pouco. Seus olhos se viraram
para encarar Eora. Eram como imensas tochas esféricas ardendo em chamas
azuis, como estrelas distantes.
--- Estou lhe vendo, pequeno homem mágico --- disse a criatura.
Eora sentiu uma leve entusiasmo. Ao mesmo sabe falar. Homem mágico?
As descargas elétricas continuavam se aglutinando ao redor do drayno,
Eora parecia ter de fato tomado suas atenções. Ao menos por um tempo.
--- O que você está fazendo? --- perguntou.
O drayno não respondeu. Ao lugar disso inclinou o pescoço ainda mais.
Uma descarga elétrica se desprendeu de sua coroa, estralando como um
chicote na direção de Eora. Foi tão rápido que Eora só viu quando sua
luz se dissipou ao tocar em seu égide, a barreira de Poder Primevo. O
drayno pareceu um pouco surpreso.
--- Acontece, às vezes... --- disse. Sua face ficou tão próxima que
Eora conseguia sentir as rajadas de ar provocadas por sua fala. O drayno
estreitou os olhos. --- Você não é humano, sim? Sinto algo... um
cheiro... Parece-me familiar...
Ah, é claro. Ele consegue sentir. É claro. Há muito tempo não um
desses. Alguém que lhe fosse igual. Havia até se esquecido das
capacidades de sua própria espécie. Nem mesmo dentro do próprio Panteão
das Chamas Sagradas, em Lostath, trono de Rasgranar, alguém desconfiara
dele. Não era uma sensação agradável ser desmascarado nos primeiros
instantes de um diálogo.
--- Sim. Você é um dos nossos, certo? Veio me ajudar... sim? --- O
drayno se inclinou mais. --- Senti algo estranho... vindo lá de baixo.
Áureos. Achei ser coisa desses pseudo-ca'elestibus... mas foi você,
sim? O que deseja, aqui? Diga..
--- Você deve parar com isso...
--- Isso... "Isso" o que? --- Retrucou o drayno.
--- Você não deve destruir essa cidade, nem qualquer coisa que esteja
próxima dela.
O drayno encarou Eora por um tempo. Silêncioso. Não há como dar certo,
pensou Eora. Se eu estivesse meu Tesouro, seria fácil convencê-ló...
Sem o Tesouro Eora se sentiu quase impotente. Não, impotente não. Porém
bem menos poderoso.
--- Isso... --- as mandíbulas do drayno se abriram bem diante de Eora.
Presas revestidas aço residiam ali, ordenadas em fileiras e mais
fileiras. Eora sentiu uma estranha vontade de recuar. --- Isso é uma
ordem?
--- Não. --- Eora se apressou a dizer. Se havia que draynos odiavam eram
ordens. Disso ele se lembrava muito. Até mesmo vivendo com deus de Duae,
ele tinha problemas com isso. --- Não. De maneira alguma. É apenas uma
sugestão lógica que, creio eu, seja totalmente aceitável, considerando a
situação...
O drayno fez uma expressão de curiosidade.
--- Que situação?
Eora apontou para o leste.
--- Vinte quilômetros. --- Ele disse, sério. --- Essa é a distância que
separa essa cidade de Furion e seu panteão. Qualquer coisa feita aqui,
será vista por ele.
--- Sim. Fel Lynail... --- disse o drayno, usando o antigo nome de
Furion. Tão velho e desgastado que nem mesmo o deus dos trovões se
lembrava. --- Você acha que eu temo ele?
O drayno ergueu o olhar para o oeste.
--- Cento e oitenta quilômetros naquela direção. Essa é distância que
nós separa.
Eora alinhou seu olhar. Sim, de fato, havia algo de estranho naquela
região. Os céus estavam visivelmente mais brumosos, pesados e...
Furiosos. Também era dali que emanava o pesadíssimo fluxo de Poder
Primevo. Juntamente com sua contraparte, o fluxo suave e intrincado.
--- O que você fez?
O drayno lhe lançou um olhar sinistro.
--- Enganei o tolo. --- Respondeu. --- Confundi o deus dos trovões e
todos os seus lacaios.
Eora não compreendeu. Ele realmente está dizendo que tapeou todo o
panteão central de Furion, sozinho. Ele não parecia estar mentido, nem
louco.