A Lenda de Venafelyn · Capítulo 6 de 9
4 — Ira de Falsos
por AlkhamPublicado
[Aspecto da Cólera:]{.underline}

Dizem que nos últimos duzentos anos que procederam a morte de Avantu
VentoVil, Lutinavel alcançou um estado de liberdade nunca visto em Gion
desde que Rasgranar passou a governar.
Foi um tempo em que a humanidade pôde progredir, já que
a sombra protetora de Venafelyn impediu a maioria das tentativas de
reconquista de Lutinavel. Áureos, draconianos, falsos-deuses,
servidores da Coroa de toda estirpe tentaram e fracassaram. Então
desistiram. Lutinavel passou a ser ignorada.
No entanto, ainda havia em tudo isso uma mácula a
manchar as obras de Venafelyn. Em secreto muito dos homens ainda nutriam
medo e admiração para com os ídolos do Panteão da Coroa. Unurdan era
louvado a todo instante. Jarmenur, o falso-deus da guerra, recebia seu
tributo diariamente. Guerra, caos e desordem ainda reinavam abaixo da
proteção de Venafelyn. Sob um aspecto tão puramente humano, que nem
mesmo o Forjador das Estrelas seria capaz de impedir. E o ódio de
Rasgranar á Lutinavel esteve contido apenas por isso.
Desde que o Trono e a Coroa partiram de Gion, houveram
inúmeros levantes contra o novo governo. O Grande Exército Elestino foi
um dos mais notáveis. Milhões de elestinos, furiosos com a partida de
Avalyn, encobriram o Vazio Entre Estrelas e fizeram guerra contra
Rasgranar durante quinhentos anos. Foi nessa época que os últimos nevaes
desapareceram e que grande parte das glórias elestinas ruíram.
Já o Tirano da Zona Morta de Gion infestou os ares ardentes
de Talutra com um frota quase infinita de combatentes da quase extinta
raça tuiren. Enquanto seu aliado, o Império das Treze Terras, marchou
com mais de quinhentas mil feras do Vazio Tenebroso vinculada
No entanto nem um deles obteve êxito. De um jeito ou de outro,
todos fracassaram.
Ora em combates lendários. Ora em genocídios planetários, como no caso
da Coligação de Lunaris, que foi exterminada pela divina fúria do
Maioral dos falsos deuses. Rasgranar. O Príncipe da Coroa, o Lorde do
Trono, o Deus dos deuses e dos Imortais. O Abençoado pelas Chamas
Sagradas de Ylnurduion.
E com tantas perdas e desgraças, por séculos nem mesmo o mais
otimista dos mortais acalentava alguma esperança de vitória em um
confronto contra o governo do Trono e da Coroa. Eles eram deuses. E
mortais não tinham vez em um mundo governado por deuses.
Mas no planeta Lutinavel uma nova onda de progresso e liberdade
proporcionada por Venafelyn e seus cinco arautos começava a contrariar
esse consenso de tão longa data.Ao lugar de servirem aos falsos-deuses,
de louvarem o falso Unurdan, os humanos começaram a erguerem seus
impérios e reinos com cada vez menos ligação com os ídolos e
falsos-deuses.
E a Rasgranar isso cheirou pior que todos os golpes
anteriores de Venafelyn.
Das bordas do templo do deus dos imortais, espíritos antigos
emergiram, rodopiando em fúria. Eram os dez Aspectos do Trono.
Um, dentre todos, se ergueu maior e mais apto a realizar os
desígnios de seu novo mestre. Seu nome era Comura, á penitencia do
próprio Trono, cuja forma assumida assemelhava a um touro sombrio,
apodrecido e caindo aos pedaços como que numa doença.
E, trotando sobre as sombras, Comura partiu, veloz, para
realizar o dever que lhe foi dado.
Ao sair do Panteão Sagrado em Lostath, a primeira parada do
Aspecto foi em Talutra. E foi recebido com calorosa satisfação por
Jarmenur, que preparou sua armadura e legiões. Satisfeito com isto,
Comura trotou em direção de Lorseyn, aquele mundo apodrecido onde
Unurdan, louco como é, escraviza homens.
Feito isso, o espírito partiu a Jarrayam. E também Furion foi
convocado para o festim, e o falso-deus aceitou com todo prazer. O deus
dos trovões passava por graves problemas em seu reino, e qualquer
justificativa para abandona-lo lhe parecia agradável.
E vendo Comura como se agradavam os deuses com a convocação de
seu mestre, decidiu também ir a Lunam.
E eis que Kali, a deusa daquele mundo, repousava em um morro,
cercada por seus súditos elementares.
No entanto ao ver as imundas feições do espírito, Kali-Lunam
hesitou. Porém conteve o espanto, e indagou o motivo da visita.
Informada de que era a guerra, a deusa aborreceu-se ainda mais com a
presença da criatura e o mandou ir embora sem resposta.
Mas Camura insistiu.
E a insistência do imundo, provocou tamanha aversão em Kali-Lunam
que ela ameaçou bani-lo da existência caso não a deixasse logo.
--- Eu lhe arremessarei para além de Gion. Para a Zona Morta ---
disse-lhe a deusa. --- E lá você servirá de brinquedo nas mãos dos
antideuses. Eternamente perdido! Não me obrigue a tanto.
Porém Comura não se intimidou nem um pouco com a pose intimidara
da deusa, e continuou a vagar por Lunam. Kali não chegou a cumprir sua
ameaça, temendo que ao fazer isso blasfemasse contra o Trono de Gion e
trouxesse para si à ira de Rasgranar.
Porém o Aspecto não voltou à importuna-lá.
A deusa, então, se aconchegou em seu trono, e chamando seus
mais leais súditos para perto de si, colocou-se a ponderar o resultado
dessa empreitada, e, de forma herética, rogar ao Trono e Coroa de Gion
que não fosse bem-sucedida.
Comura se enveredou para o leste do planeta onde encontrou
Ravilyna, a falsa-deusa dos céus, em um de seus passeios por aquele
mundo. E esta lhe deu ouvidos, e aceitou o chamado,.
Comura retornou, então, para o Templo das Chamas Sagradas, em
Lostath. Onde voltou a assumir o aspecto volúvel de uma sombra,
aninhado-se ao redor das seis asas de Rasgranar e lamentou a ausência de
seu antigo mestre e deus.
[Fúria Divina: ]{.underline}

Unurdan, que se dizia deus dos homens e do ódio, foi quem o
liderou a invasão. Sendo também Jarmenur um dos quatro maiores dentre os
falsos-deuses e comprazendo-se muito com a guerra, trouxe uma grande
legião de draconianos. Já Furion tinha um número quase igual de áureos
cujas imensas naves ensombraram os céus de Lutinavel. Ravilyna também
trouxe outros tantos. Além de vários deuses panteônicos.
Era um exército de milhões. Uma força aniquiladora preparada não
só para acabar com a civilização de Lutinavel, mas principalmente com
Venafelyn. O último dos primeiros deuses. O mais odiado inimigo da Coroa
de Gion, que por incontáveis anos escapara ao poder de Rasgranar. O
assassino de Avantu. O Anaantanha.
Também alguns do servos do antigo deus do vento que haviam
escapado do extermínio de Venafelyn, voltaram a se reerguer dos confins
de Lutinavel e se juntaram ao avanço.
O primeiro reino a sofrer da fúria dos falsos-deuses foi
Turadyca.
Unurdan e Jarmenur atacaram juntos, e dos céus invocaram
fogo e pestilência, incendiando os campos e empesteando as roças,
bosques e florestas. As cinzas e podridão alçaram os ares enquanto
abaixo os homens queimavam e enlouqueciam com o terror dos céus.
Um terço do Reino se foi no primeiro ataque. Depois as hostes
áureas e draconianas atracaram em terra, e guerrearam com os homens.
Em número Turadyca tinha o segundo maior exército de
Lutinavel. Homens fortes criados no ardor das forjas pelas quais seu
reino era famoso. E suas armas em muito ultrapassam ás dos outros
reinos. Espadas, couraças e lanças feitas com de Poder Primevo.
Suas fortalezas eram dotadas de arsenais balísticos de alta
tecnologia. A pólvora já era algo conhecido. Tinham de tudo o que a
prosperidade dos últimos tempos garantira. E tal modo foi o uso desses
aparatos que áureos e draconianos se viram pressionandos a recuar num
primeiro momento, surpresos com a resistência.
E enquanto seus inimigos recuavam, os defensores de Taradyca
debateram entre si quais as possibilidades, e chegaram a inevitável
conclusão de que o fim os aguardava. Sem clemência, sem escapatória.
Desde que os Cinco surgiram, Venafelyn havia sumido do mapa por
anos. Ninguém tinha nem ideia de onde estaria, nem se algum dia ainda
voltaria a visitar Lutinavel. Venafelyn era lenda. Da mesma forma, nem
um dos Cinco se encontravam em Turadyca --- embora não fossem de grande
ajuda num aperto daquele
As chances de evacuar as cidades eram ínfimas.
Dentro das muralhas barreiras de Poder Primevo haviam
protegido os habitantes da pestilência e do fogo dos falsos-deuses, mas
se tentassem fugir estariam condenados. Assim, os lideres de Turadyca,
juntaram os mais velozes mensageiros do reino e os montaram em bestas e
os enviaram aos outros reinos de Lutinavel --- Tabya, Wihiaz, Brawo,
Lopsu e Mupar --- na esperança de que ao menos os outros estivessem mais
preparados quando chegassem a hora deles.
As hostes dos falsos-deuses voltaram a atacar. As legiões
de demônios de baixo escalão foram enviados na frente, atracando e
rasgando as gargantas dos combatentes que permaneciam fora das muralhas.
Os draconianos de maior estirpe vinheram em seguida e terminaram de
cortar, queimar e devorar os soldados restantes.
Pararam, então, na base das muralhas, enquanto os áureos se
aproximavam para desfazer as correntes de Poder Primevo que formavam a
defesa de Turadyca.
Mas antes que a Defesa se desfizesse pelo lado de fora, ela
se desfez por dentro. E dos portões de Turadyca toda a armada do reino
saiu, gritando e brandindo as armas.
--- A Estrela da Manhã de Promestan ainda há de raiar sanguinária! ---
gritaram e lutaram.
--- Queimem o Trono! Quebrem a Coroa! --- gritaram e morreram.
Enquanto seus exércitos adentravam as muralhas, Unurdan e
Jarmenur decidiram se separarem, e buscarem cada qual seu próprio
mérito.
Jarmenur que havia reivindicado a cabeça de Venafelyn partiu
sozinho, em sua busca.
Unurdan ficou para trás, e dividiu o exército em duas frontes.
Uma sob o comando de Furion e Ravilyna em direção de Tabya. Enquanto
ele, com outra, partiu a Wihiaz desejando conquistar para si a glória de
destruir aquele reino.
Dentre os mensageiros de Turadyca, apenas dois chegaram aos
seus destinos: os reinos de Tabya e Mapur.
Ao ouvir a mensagem, o jovem Bumoruy Terceiro, rei de
Tabya, quase deixa o coração saltar do peito. Desesperado, anteviu o fim
que teria tanto ele quanto o reino.
Mas, no estado em estava, o reino foi a última coisa a passar por
sua cabeça. Já estava mesmo a ponto de fugir quando se deparou com
Norol, vagando por entre o palácio com se fosse um príncipe, ou um
segundo rei.
Era o único dos cinco mensageiros de Venafelyn que se
encontravam em Tabya. E embora o rei tivesse escondido a notícia de
todos, ele não a escondeu de Norol, por quem tinha muita consideração.
--- É uma verdadeira desgraça! --- dizia Bumoruy, segurando a coroa e
maldizendo o dia em que, muito feliz com a vida, foi coroado rei. ---
Uma armada infinita de demônios. De áureos. E de falsos deuses! Imagine
só, falsos deuses! Aqui! Aqui em Tabya! Há quase cinco séculos um desses
não pisa em Lutinavel! E logo eu fui sorteado com essa desgraça... Ah,
pelo Criador! Logo agora. Logo eu... Eles chegaram há quase três dias e
devastaram Turadyca. Fogo e sangue desceram dos céus e todos morreram.
Tão facil quanto cordeirinhos.
Norol o ouviu envolto em um silêncio analítico. E por fim
disse, com a calma que somente um elestino poderia possuir:
--- Se não abandonarmos Tabya a morte é certa. Isso é óbvio. Vamos para
Wihiaz ou Mupar, onde, se o Criador quiser, as defesas resistirão mais
tempo. Tabya não foi construída para a guerra. Nem há guerreiros aqui,
como em Turadyca. Proclame isso, rei. Rápido. Se há alguma chance de
vocês escaparem, não vai ser em Tabya.
Quando Ravilyna e suas hordas chegaram, as grandes cidades de
Tabya já haviam sido evacuadas. Ravilyna, então, partiu para Brawo, onde
encontraram pouca resistência.
Os mortos de Brawo foram empilhados, e incendiados junto com sua
capital, em holocausto a Rasgranar e ao Trono e a Coroa de Gion.
***
[Loucura:]{.underline}

Unurdan, no entanto, já estava chegando a Wihiaz, onde os
Mensageiros de Venafelyn, Lenentu e Ayran, se encontravam.
Wihiaz embora não possuísse um grande exército como Turadyca,
possuía homens capazes de vislumbrar a Essência Primeva, a força
invisível suspirada pelo próprio Criador que sustenta a criação. Esses
homens se chamavam esse dom de Manispretia. E em Wihiaz haviam muitos
deles.
O próprio rei, Barnan III, era um exímio manipresto. Era capaz
de evocar trovões em um dia ensolarado. Ordenar o fogo. E moldar o ar.
Movimentava o Poder Primevo tão bem quanto uma aranha tecendo suas
teias. A realidade moldava-se ao seu querer. A tradição monárquica
exigiu que o rei fosse assim.
E ao lado do rei estava Wumgo, seu irmão, que, além de um
grande manipresto, era também seu conselheiro.
Quando os exércitos de Unurdan marcharam, Ayran, de muito longe,
os avistou do alto e alertou ao rei o que se passava.
As defesas de Wihiaz foram erguidas. Os maniprestos defensores
se posicionaram sobre as muralhas. Lenentu e Ayran ficaram na linha de
frente, no aguardo da armada aérea. E quando as primeiras naves, áureos
e draconianos revoaram sobre a capital, os dois se juntaram para trazer
uma tormenta. Ayran drapejou as asas sobre o ar, enquanto circundava a
capital. O vento aninhou-se ao seu redor em nuvens pesadas.
Os maniprestos sobre as muralhas ergueram as mãos e teceram
seu querer sobre as nuvens, que pesaram e se firmaram em grossas camadas
acima das hostes invasoras.
Então, Ayran desceu.
Lenentu tomou seu lugar sobre os céus.
O elementar planou por entre as nuvens, suas asas douradas
abertas sobrecarregavam as nuvens com descargas elétricas. Depois, a
plenos pulmões gritou, evocando a fúria de Gion.
E Gion ouviu.
E as negras nuvens choraram. E o seu choro foram trovões. E o
seu bramido, descargas elétricas que caíram de céus em saraivadas.
As descargas elétricas forraram os ares, ameaçando consumir a
todos, senão fossem os maniprestos sobre as muralhas e Lenentu
direcionando essa fúria contra as hostes de Unurdan, que morreram e
caíram como folhas secas atacadas pela peste.
Mas Unurdan riu ao ver isso.
E ao sentir os inebriantes vapores das naves áureas se
explodindo em fragmentos, o falso-deus soltou uma longa e sonora
gargalhada que ressou ainda mais alto que os trovões de Lenentu.
--- São os espasmos finais de um verme ao ser esmagado. --- disse o
falso deus dos homens, fascinado com os trovões. O brilho dos relâmpagos
que lançava luzes e sombras sobre sua armadura escarlate. --- Essa é
sempre a melhor parte, não?
Por estar longe da confusão, assentando numa imensa nave áurea,
seguro, ao redor de legiões de adoradores draconianos do Sangue de
Ofyoto, o falso deus gargalhava ainda mais.
Depois de um tempo, porém, se aborreceu com a demora dos áureos
em desfazerem as barreiras. E se aproximou, voando com seus idólatras
draconianos formando um círculo ao seu redor.
Pousou sobre os pés da muralha, onde os at'luceos áureos
labutavam inutilmente com as intrincadas barreiras de Poder Primevo. Com
os trovões ainda ribombando acima, Unurdan começou a incita-los com
palavras ríspidas e ameaças de morte.
A presença do falso-deus foi sentido por todos maniprestos na
proximidade, e também por Lenentu. Qualquer um que vesse ou sentisse o
fluxo de Poder Primevo, notaria a movimentação de Unurdan. Da mesma
forma que um peixe sentiria a mudança da correnteza de seu rio.
E o elementar ao encontrar a localização exata do falso-deus não
hesitou. Ao contrário, abriu suas asas e voou ao redor da muralha,
alertando todos os maniprestos defensores que encontrou de sua
intenção.
Rápidos, os defensores abandonaram suas funções para se
juntarem a Lenentu. E dessa vez foi o elementar que riu ao contemplar o
falso-deus abaixo, focado em fustigar os áureos. Distraído.
--- Lá está, o deus da estupidez! --- disse Lenentu aos maniprestos. ---
Devemos dar-lhe a devida saudação. Não acham, pequenos humanos? ---
Depois voou em direção das nuvens tempestuosas, para preparar sua
saudação.
Abaixo, os maniprestos ficaram á elaborar suas tramas, também.
Os céus rugiram, enquanto Lenentu trespassava as nuvens,
agitando-as em turbilhoes ao seu redor.
Então, em um rasante, o elementar dobrou as asas de ouro e
desceu em direção da muralha, atrás de si raios tilintavam, atraídos por
sua presença. Os maniprestos cruzaram as mãos sobre a cabeça,
giraram-nas, e num movimento repentino, miraram-nas todas no mesmo
local: Unurdan.
Lenentu pousou na borda da muralha, lançando olhares para baixo,
bem a tempo de ver os maniprestos dobrarem os raios em um turbilhão
eletrizante, depois arremessarem-no no falso-deus.
Unurdan sentiu algo estranho.
Olhou para cima.
Abaixo de seu pesado elmo, seus olhos se arregalaram. Surpresa,
raiva, indignação, cada um dos sentimentos cintiliou naqueles olhos
sanguinários. Espanto.
Mas não houve tempo de reação.
O mundo se clareou. A escuridão das nuvens tapando o sol foi
vencida pelo azul-celeste dos relâmpagos. Por um instante não houveram
trevas no mundo. Apenas, luz. Luz mortal.
Unurdan foi acertado em cheio, banhado desde a cabeça aos pés
pelas descargas elétricas.
O chão ao seu redor virou poeira, ou vidro. Fragmentos incinerados
giraram no ar. Pedaços fumegantes de at'luceos áureos e de draconianos
rodopiaram.
As hostes do falso-deus, tão barulhentas, tonaram-se mudas por
um instante, contemplando as fumaças do incêndio de seu deus e
comandante. Até mesmo o mais vil dos demônios fez silêncio, abandonando
seu frenético mastigar de carne humana --- até os céus nebulosos pararam
seus rugidos, apreensivo.
Apenas uma louca gargalhada ecoava de cima da muralha. Lenentu
ria a toda potência.
--- Ouçam! --- gritou --- Ouçam esse riso com atenção! Pois é este o
riso de Gion, que zomba de todas as criaturas que ousam se intularem
falsamente de deuses!
Um rugido animalesco tomou voz desde a base da muralha,
interrompendo a alegria dos homens.
Unurdan se ergueu, cambalente, as mãos cerradas em direção a
muralha. Mesmo de longe, os homens puderam sentir o ódio do falso-deus
pesando sobre ele. A armadura escarlate tornara-se um aglomerado
retorcido, fumegante. O elmo era apenas um monte metálico de lama. Ele o
jogou para longe. E começou a andar em direção da muralha.
Ao fundo, os rugidos e bramidos de áureos e draconianos
retornaram, enquanto o riso de Lenentu se tornava em um deboche a si
mesmo.
Unurdan parou a dois palmos das barreiras invisíveis, e
começou a toca-lá. Seus dedos, desnudos das manoplas escarlates, eram
podres pelo poder de Trone Theon a qual estava eternamente vinculado.
--- Chorem. Não riam. Pequeninos mortais, pois hoje provacaram a ira de
seu deus.
No entanto, suas mãos giraram. Retorceram-se. E nada. Fechou os
punhos. Bateu com força sobre a barreira, as muralhas tremeram.
Abaladas. Mas a invisível barreira permaneceu. Seu pescoçou girou, seu
olhos arderam em puro ódio enquanto observava a intransponível oposição
dos pequenos mortais. Como uma fera, voltou a atacar a barreira. Os
dedos podres se emolduraram ao redor dos fluxos de Poder Primevo, e, com
puxão abrupto, o falso-deus rasgou o próprio essência da existência. A
barreira foi-se abrindo, como um fino tecido diante do corte de uma
faca.
A ordem veio, em seguida:
--- Avante! Avante! Bebam sangue e devoram carne! Eu sou o deus
Unurdan!, e lhes ordeno: À guerra!
A infantaria draconiana foi a primeira a marchar. Feras
sanguinárias do Sangue de Ofyoto e da Prole de Coasyco se posicionaram
ao pé das muralhas, e marcharam em direção a brecha aberta por Unurdan.
Lâminas encurvadas e desnudas de cabos tilitavam em suas mãos revestidas
por escamas negras. Os rugidos dos demônios eram clamores por sangue, e
desejos de morte. De devorar carne mortal, como lobos famintos em um
rendio.
No entanto os maniprestos logo se colocaram a reparar a fenda,
enquanto abaixo Ayran e a infantaria de Wihiaz barravam a entrada da
esquadra draconianos. Com muito esforço eles conseguiram barrar, mas a
cada draconiano caído, cerca de seis a sete guerreiros tombavam. Ou
partidos ao meio pelas lâminas dos demônios ou incinerados pelo hálito
das feras. Ou, muitas vezes, devorados ainda vivos e gritando em pânico.
Quando o último membro da esquadra draconiana caiu, os
maniprestos já haviam recuperado o controle da barreira e fechado-a.
Já em sua nave, Unurdan esbravejou, e chingou mil infernos,
quando viu que seu esforço para abrir a barreira houver sido em vão.
Para sua felicidade, e completa desolação dos defensores, nessa
hora Jarmenur, que por dias procurou Venafelyn em cada canto de
Lutinavel e não o achou, retornava.
Ao ver o que se passava, Jarmenur, não demorou muito
pensando no que faria.
Com apenas as mãos, o falso-deus abriu um rombo no topo da
barreira.
A brecha era pequena, não cabendo mais que a entrada de alguns
soldados de cada vez. No entanto o falso-deus sacudiu uma das mãos
dentro dela, fazendo com que ventos cancerígenos flutuassem para dentro,
infestando o ar da cidade com a miasma.
De imediato, os pulmões dos soldados se viram comprimidos pelo
gás cancerígeno. Muitos morreram sem nem mesmo terem a chance de se
defenderem.
As barreiras de Poder Primevo formavam um invólucro ao
redor da capital, de tal forma que vento era escasso e as fumaças se
arrastavam em direção de todos os homens, sufocando-os.
A barreira, então, deixou de ser uma defesa, e converteu-se
no instrumento do próprio carrasco.
E os homens gritaram, e se encolheram em espasmos de morte. Nem
mesmo os maniprestos sobre as muralhas escaparam. Com as mãos sobre a
boca, caiam, como frutos ressequidas, de suas posições, se estatelando
no chão.
Ayran expandiu suas asas em forma de turbilhoes, tentando
afastar a fumaça mortífera, mas era inútil. Se soprada para um lado, a
fumaça iria para outro, onde também mataria.
No fim, por ordem do rei Barnan, os maniprestos foram
começando a ceder brechas na Barreira para que a fumaça saísse. Mas logo
que se abria uma, vários demônios crias de Moecera eram enviados para
dentro.
Estas eram criaturas irracionais, verdadeiros demônios, que
entravam sem medo de inalarem a fumaça e tinham como único alvo os
maniprestos sobre as muralhas.
No entanto, sempre que uma cria de Moecera conseguia matar um,
logo a criatura também caia, asfixiada pelo miasma. Mas os demônios
vinham em grande número, e não importava quantos fossem mortos, eles
pareciam nunca chegar a um fim.
Finalmente, quando o miasma estava quase completamente
banida, e restavam poucos maniprestos vivos, Unurdan voltou a colocar
um esquadrão de at'luceos áureos em marcha.
Dessa vez eram da casta dos Reis-Dourados, a mais alta estirpe áurea.
Seus corpos eram tão radiantes quanto o mais polido ouro. As cabeças,
adornadas por chifres e cabelos dourados eram sinal de poder. As faces
estampavam toda a loucura dos falsos-deuses, enquanto suas mãos
desfaziam, com uma maestria insuperável, os fluxos de Poder Primevo
lançados pelos maniprestos ao redor da muralha.
Em pouco tempo a Barreia foi ruindade ante a at'lucea
áurea.
Os poucos maniprestos que restaram sobre a muralha
continuaram a dar tudo de si. A barreira, porém, estava próxima a queda
completa.
As naves áureas investiram, flagelando com explosões as
partes que ainda estavam firme. Draconianos e combatentes áureos
passaram pelas fendas que se abriam.
Um massacre teve início. A frágil infantaria de Wihiaz não
oferecia praticamente nenhuma resistência em um confronto direto. Alguns
civis foram devorados pelos demônios. Outros, incinerados pelo hálito
draconico. Muitos se voltavam contra sua própria gente e os atacava como
feras selvagens. E, ao fundo, os áureos que os controlavam se divertiam,
vendo suas marionetes se rasgarem com unhas e dentes até a morte.
Quando Unurdan viu que a defesa do inimigo já estava em
um estado fragilizado, o falso-deus ordenou que sua nave avançasse até a
muralha. Então, desceu sobre a muralha onde matou alguns do poucos
maniprestos restantes. Ergueu aos mãos, e, cheio de ira pela modo
insolente como fora tratado pelos mortais, começou a fluir todo seu
poder. A muralha estremecia, os ventos rugiam. Tudo ao redor do
falso-deus se agitava ao sentir a aura do antigo ca'elestibu ser
liberta.
Nessa hora, o rei Farnan já havia ordenado que seus
soldados agrupassem o máximo de civis que pudessem sobre a proteção dos
muros do castelo e arredores. Mas cada vez mais as legiões inimigas se
aproximavam, cercando tanto em solo quanto pelo ar. Seguindo o conselho
de seu irmão, Wumgo, o rei enviou Lenentu e Ayran para trazem os
maniprestos que ainda restavam sobre a muralha.
Cerca de cem maniprestos haviam sobrevivido. Nove em cada
onze pereceram.
E ao retornarem ao castelo, Wumgo assumiu a liderança sobre
eles, e, juntos, lançaram mão do Poder Primevo para formarem uma
barreira ao redor do castelo.
Com um pouco de tempo ganho, todos colocaram suas mentes a
conjecturar alguma possível solução.
Lá fora, no entanto, os áureos já estavam a desfazer a barreira do
castelo. Os sobreviventes lá dentro não passavam de ovelinhas para o
abate, e eles sabiam.
O Poder Primevo dos áurea eram como as correntezas de um
rio. Fortes, violentas. Impossível de barrar. Herdadas, não aprendidas.
Já a maniprestia dos mortais, aprendida desde a juventude
até a extrema velhice, eram como as correntezas de um córrego.
Normalmente fáceis de parar, pacíficas.
Mas os maniprestos de Wihiaz estavam entre os melhores que a
humanidade já possuiu. E o rei Farnan, treinado desde meninice até os
seus duzentos e cinquenta anos ( garantidos pelo uso da magia) era um
dos maiores de Lutinavel. Sendo superado apenas por aqueles que foram
ensinados pelo próprio Venafelyn.
E quando o Rei, postado sobre o parapeito de sua janela,
viu a situação de seu reino. Os incêndios. Os saques. A destruição tanto
do património material quanto da vida de seus súditos. As risadas de
Unurdan que ecoavam desde a muralha como a voz de um demônio, anunciando
o fim de todas as obras humanas.
O velho rei, vivo desde a segundo geração depois da morte de
Avantu VentoVil, não se conteve.
--- Preparassem para guiar a retirada de Wihiaz. --- ordenou o rei,
dirigindo-se a Ayran, Lenentu e a Wumgo. As três pessoas em quem mais
confiava. --- Eu irei lhes abrir uma oportunidade de fuga. Nem que mova
céu e terra! Assim farei. E vocês irão todos ao mesmo tempo. Vocês dois
irão guiar a evacuação, Lenentu e Ayran. E você também, Wumgo. E se
alguém realmente sobreviver, será você o novo rei. --- Então o rei
explicou seu plano.
Após ouvirem, Lenentu e Ayran concordaram, mesmo que com
relutância.
Mas Wumgo protestou;
--- Novo rei coisa nenhuma! O velho ainda está vivo, e eu já estou
contente em ser o irmão dele. Você não vai se meter a heroísmos, Farnan.
Estamos velhos demais para essas tolices.
No entanto o Rei estava decidido. E não voltaria atrás em sua
palavra nem mesmo se o próprio Promestan descesse das nuves e dissesse o
contrário. Farnan não era um homem de meias palavras.
--- Não há outra opção. --- retrucou o rei, em tom cabal --- Ou vocês
tentam sem mim, ou todos morreremos bem aqui. Devorados, enlouquecidos
ou queimados até as cinzas. E isso sim, seria desgraçadamente tolo. Eu
vi com meus malditos olhos a loucura dos deuses, e eu sei o que virá em
seguida: Unurdan! Unurdan irá destruir tudo. E não tardará muito.
Wumgo não conseguiu conter seu espanto.
--- Mas há servos dele aqui. Muitos deles...
--- E qual a importância disso para ele? Unurdan é louco. Tão louco que
me impressiona ainda estarmos vivos.
Então Farnan caminhou até os portões do castelo, e muitos dos
maniprestos sobreviventes decidiram acompanha-ló. Até mesmo Wumgo foi
um deste.
Cerca de cem dos mais poderosos maniprestos que já pisaram
em Lutinavel.
Os at'luceos áureos riram, ao perceberem que de fato
aqueles mortais planejarem realizar um ataque direto. Algo que na mente
deles seria tão frutífero quanto tentar apagar estrelas jogando baldes
d'água.
Mas dizem que as gargalhadas dos áureos foram se tornando em
prantos e lamentos de acordo com que os maniprestos adentravam suas
defesas e desfaziam seus fluxos de Poder Primevo antes mesmo de serem
entrelaçados.
Fogo e relâmpagos desceram do céu. A terra sacudiu, e as
muralhas tremeram. Até Unurdan teve dificuldade em se manter em pé
enquanto preparava seu golpe final.
Os maniprestos foram um círculo no centro das hostes
áurea, e vincularam suas auras, e ninguém conseguiu se aproximar, quer
fosse draconiano quer fosse combatente áureo. Com o tempo os guerreiros
armados foram se retirando ante a impossibilidade de chegarem até os
maniprestos e somente os at'luceos prosseguiram no duelo.
Os fluxos da Existência eram dobrados e redobrados, como num
cabo de guerra entre at'luceos e maniprestos. Chegou a tal ponto
que a realidade se tornou banal. A noção de tempo e de espaço era a mais
tênue das ilusões.
Um manipresto moldava água, e o cascalho era água. Um
at'luceo moldava fogo, e, de repente, o ar já não era mais ar, e sim
fogo. A realidade era batida e rebatida de ambos os lados.
Áureos morreram, e o sangue divino escorreu como lama dourada.
E maniprestos foram incinerados, quebrados, trucidados em
estouros de sangue e carne, pichando o asfalto de vermelho.
Mas aqueles restavam não gritavam... Eles manteiveram seus
postos até o fim, pois sabiam que enquanto todos tinham suas atenções
voltadas para aquele singular espetáculo garantido por suas vidas,
abaixo deles, nos túneis do subsolo, a esperança residia. Fugindo em
direção da liberdade além das muralhas. Tudo o que precisavam era
aguentar um pouco mais. Apenas um pouco mais de sangue. Sangue vermelho
e dourado...
Então houve um estrondo
Inumano, terrível. Como o badalar de um sino celeste, prenunciando o
fim. Áureos fecharam a boca, em pleno ato de molderem outro de seus
poderes.
Maniprestos abaixaram seus cajados. Maniprestos e
at'luceos se aquietaram. Um único som era audível. A gargalhada
escarnecedora de um deus. De um falso deus.
Unurdan, sobre a muralha, rígido como uma lança. Sobre suas
mãos rodopiavam poderes. Energias loucas preparadas para um único
propósito. Destruição.
Não era magia. Não era feitiçaria. Era algo maior. Algo
supremo, que somente um ser capaz de se intitular de deus poderia
controlar.
Um ca'elestibu, afinal. Um filho da onipotência.
O silêncio era total, a exceção da gargalhada do falso-deus
louco.
De repente a acirrada batalha contra os pequenos mortais pareceu
perder a graça, e os áureos se entreolharam. Será mesmo que seu deus
seria capaz de extermina-los?
Draconianos de casta elevadas fizeram o chão tremer ao bateram
suas asas em uma fuga desesperada. Até mesmo seres chamados de demônios
pelos homens possuíam amor a sua vida.
Os áureos já tinham sua resposta.
Rápidos, tal qual um relâmpago, os áureos, desde o mais alto
ao mais baixo, lançaram-se sobre o ar, e voaram.
Para áureos não há honra na morte. E nunca haverá.
--- Mas nós devemos ficar! --- disse o rei. Seus olhos estavam voltados
para o solo, onde a alguns metros de profundidade seus súditos
acreditavam fielmente estarem seguindo em direção a sobrevivência.
As gargalhadas ecoavam...
Mas ninguém pretendia fugir. Os maniprestos faziam suas
orações e agradecimento finais. Seria simples para maniprestos daquela
categoria fugirem dali. Voando, teleportando, se desmaterizando... Mas,
não.
--- Morte aos falsos-deuses, os indignos da Existência!
Cruzaram os pés, levintando em posição meditativa a poucos
palmos do chão. Seus cajados, varas, jogados sobre a terra. Enquanto
formavam um círculo e proferiam as palavras finais.
Rei Faran, com Wumgo ao lado, contemplou cada milésimo de
segundo como se fossem anos.
--- Salve o novo rei! --- exclamou ele. Então, empurrou seu irmão em
direção de uma pequena brecha na realidade aberta em um fracção de
segundo.
--- Salvem o novo rei! --- responderam os outros maniprestos no exato
instante em que Wumgo desaparecia.
A gargalhada cessou, em seu lugar um retumbante som ecoou
desde a muralha. Unurdan decretou o fim. Das mãos do falso-deus, desceu
a destruição.
Os maniprestos se colocaram de pé, seus olhos e mão erguidos
em direção daquela massa de puro poder ca'elestibu. Como um sol
devorador pronto a varrer da face de Lutinavel qualquer resquício do que
um dia foi Wihiaz, o mais glorioso dos reinos daquele mundo.
Wihiaz abençoado por Promestan.
Wihiaz dos maniprestos...
Então Unurdan soltou sua ira sobre Wihiaz.
--- A Estrela da Manhã de Venafelyn ainda rairá, sanguinária! ---
gritaram, e Unurdan riu.
Em um esforço final, os maniprestos entrelaçaram uma
tênue linha. Finíssima, um membrana incolor, semelhante a um espelho
côncavo. Em união, giraram suas mãos, dedos, cajados, todos em direção
do espelho reverso. Todas suas forças, em gesto. E seus espíritos de
vida os abandonaram.
Unurdan, aos vê-los tombarem antes mesmo do final, se
surpreendeu. Quem diria que somente a visão do ca'elestibu seria
suficiente para mata-los?
A energia destrutiva do ca'elestibu foi puxada em direção do
espelho e refletido para todos os cantos --- exceto para baixo. Para o
alto, onde dezenas de naves áureas pipocaram e draconianos e
at'luceos que acreditavam terem escapado da morte se tornaram cinzas.
Para os lados, onde dezenas de construções foram varridas da existência
em um raio de quilômetros. Para a muralha... onde um deus falso ria de
si mesmo:
--- Venafelyn! --- Exclamou Unurdan --- você seria um esplêndido deus
dos suicídios!
A muralha foi reduzida a cinzas. As rígidas construções se
tornaram montinhos flutuantes de pó e concreto.
Nada mais restou, a não ser um falso-deus dos homens... parado
sobre os entulhos da desolação, gargalhando ao sentir os distantes
passos ecoarem no subsolo.
***
Depois que alvoroço provocado pelo revide dos magos
passou, e a poeira baixou, a armada de Unurdan se reagrupou novamente.
O falso-deus retornou para uma nave áurea, onde Jarmenur já o
esperava para partirem.
Olhando para a desolação lá embaixo, concluiu que não havia
necessidade de incendiar Wihiaz, nem havia nada que pudesse ser saqueado
pelos seus súditos. Todo o lugar não passava de poeira e ruinas
fumegantes, ainda queimando com o poder do falso-deus.
Unurdan possuia alguns poucas escoriações. Sua armadura escarlate
estava deformada, amassada, tanto pelos trovões de Lenentu quanto pelos
danos infligidos pelos magos. Mas não era grande coisa. Era apenas uma
armadura, e nem era das melhores.
Das ruínas de Wihiaz, a legião partiu para Lopsu, onde somente
alguns retardatários restavam. A maioria dos habitantes já haviam se
refugiado em Mupar.
Unurdan e Jarmenur também não demoraram muito ali. Somente o
necessário para que seus lacaios áureos capturassem alguns escravos, e
depois incinerassem qualquer vestigio da civilização humana que já
habitaram aquelas bandas.
Então, Jarmenur, ainda na esperança de encontrar Venafelyn, voltou
a procurar pelo paradeiro do Senhor das Auroras.
Montanhas, campinas, florestas; o falso-deus perambulou por
todos os habitats e regiões de Lutinavel. Os olhos do deus da guerra,
escondidos sobre um capacete cinzento, eram como estrelas negras
prescutando cada canto do planeta. Supondo que talvez encontrasse o
ca'elestibu escondido abaixo de alguma pedra.
Ravilyna e Furion retornaram do massacre em Lopsu, e
tomaram a dianteira em direção no ataque ao Reino de Mupar, da Lua de
Prata, para onde os sobreviventes de Wihiaz e as forças de Tabya se
encontravam refugiados sobre as muralhas da grande Capital.
O mensageiro de Venafelyn, Vaston, o gannaio, comandava um
grupo de expedicionários para além das muralhas de Mupar quando avistou
a chegada dos exércitos invasores.
Todos na capital de Mupar já estavam preparados para o confronto.
O exército de Tabya, comandado por Norol, haviam se preparado com
antecedência de dias, assim como os de Lopsu.
Quando Vaston chegou com a notícia, as barreiras
mágicas já estavam prontas para serem erguidas. E em questões de minutos
os os três exercítos se preparavam para investir contra os
falsos-deuses.
As hostes inimigas estavam divididas em quatro, cada
falso-deus liderando seus próprios acólitos. Assim também as forças de
Lutinavel se dividiram: os guerreiros de Lopsu formavam uma. Os de
Tabya se dividiram em duas; uma guiada pelo rei, a outra por Norol.
Ainda restavam guerreiros suficientes de Wihiaz para formarem outra,
seguindo a Wumgo e Ayran. E Mupar, que era a principal força, cuja
própria rainha liderava.
Ravilyna e suas hostes de áureos preencheram os céus de Mupar
com suas naves erguidas por feitiços e tecnologia áurea.
A tropa de Norol se encarregou de intercepta-los no
ar.
Antes mesmo da batalha de fato se iniciar, Norol moveu as
tropas aéreas de Tabya em direção a falsa-deusa.
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