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A Lenda de Venafelyn · Capítulo 7 de 9

5 — Os Cinco

por AlkhamPublicado

[Juramento dos Cinco:]{.underline}

G:\Crônicas de Gion\- Especies & Raças\Raças (Imagens e Descrição
)\1 - Ca`elestibus\1.2 - Falsos
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...após derrubar Ravilyna, durante o ataque das hordas do Dragão aos
reinos libertos de Lutinavel, Norol estava bem próximo de por um fim a
existência da falsa-deusa. Já nesta hora todos os civis sobreviventes e
a maioria dos soldados --- pouquíssimos, alias --- já haviam recuado.
Apenas os mais guerreiros restavam em combate, dentre estes estavam
todos os cinco: Aryan, Norol, Vaston, Lenentu e Janos que lutavam para
permitir a evacuação.

Dizem, porém, que assim que Norol firmou sua lança sobre a forma mortal
de Ravilyna, um batalhão de áureos o cercou, impedindo-o de matar a
deusa, e depois o prenderam, acorrentando suas asas e mãos com corrente
de aço regnico que nem mesmo ele foi capaz de quebrar.

Lenentu, vendo que não podia fazer mais nada ali, e sabendo que os
poucos sobreviventes já haviam fugido, recuou também, e enviou Ayran em
busca de Venafelyn. Já Vaston havia se convertido em um representante da
morte. E a cada rasante que ele dava dezenas de inimigos caiam sob o
peso de Sopro Fúnebre, sua clava, que sozinha pesava mais que ele. O
gannaio de asas de aço foi exterminando tudo em seu caminho enquanto
voava ao resgate de Norol. Vaston seguia em linha reta, e turbilhões
ressoavam abaixo de suas asas, enquanto girava a clava arrastando em um
arado de destruição todos aqueles que se impunham no seu caminho.

E dizem que Vaston estava a apenas dois bater de asas para libertar
Norol, quando viu Jarmenur voar pelos céus.

Muitas coisas provocam a ira de um gannaio. Mas Jarmenur, que se
intitulava deus da guerra e dos gannaios, não chegava a enfurecer
Vaston. Nem provocava ódio, ou algo assim. Era simplesmente um desejo.
Latente, profundo. Irresistível, tal qual a morte. Seu desejo era como
da fera diante de seu oponente natural.

Era necessário matar. Matar. Transformar em pó cada partícula que
compunha a falsidade chamada Jarmenur.

Desde o topo de seus chifres retorcidos como galhos de uma velha árvore,
até seus lábios de bebedor de sangue. Seus pés fendidos iguais aos de um
touro. Ou sua pele cinzenta como de um céu tempestuoso. Toda a infame
imitação da fisionomia gannaia que a falso-deus fizera para si. Cada
minúscula partícula que compunha a abominação chamada Jarmenur, Vaston
desejava esmiuçar até virar pó. E até mesmo esse pó ele desejaria
incinerar depois...

A aversão do gannaio contra a existência do falso-deus era mais pesada
que qualquer amizade ou aliança.

Irracional, implacável, ele abandonou seu objetivo, deixando Norol ser
arrastado pelas legiões de Ravilyna, e avançou contra o falso-deus.
Brandindo sua clava no ar, enquanto suas asas de aço cerravam tudo ao
redor.

Contasse que os céus, trêmulos, recuaram diante das pancadas de Vaston,
o gannaio de aço, e Jarmenur, que se proclamava deus da guerra e dos
gannaios e que havia acorrentado o desejo de muitos do povo de Vaston,
usando-os como lacaios sem mente.

Tamanho foi o som emanado pelo bater da clava de Vaston contra a maça
laminada de Jarmenur, que, aqueles combatentes que haviam caído
inconscientes ou feridos, levantaram-se e correram, somente para poderem
morrer em tranquilidade, muito longe dali.

E as hostes de áureos e de demônios, contemplaram aquela cena,
abismados, pois jamais haviam visto alguém desafiar Jarmenur em duelo, e
acreditavam que seu deus era invencível. No entanto Vaston acertou o
corpo do falso deus da guerra em uma centena de lugares quebrando sua
armadura e fazendo o falso sangrar sua essência como se fosse uma
criatura mortal, e nem um áureo ou demônio ousou interferir até o
desfecho.

Mas no fim Vaston, o gannaio, cansou-se e ficou lento, e Jarmenur
lançou-lhe o feitiço em seu olhar, e tentou impor-lhe seu desejo. Então,
Vaston vendo seu fim se aproximar e temendo perder a sanidade mais do
que a vida, cegou-se jogando sangue de áureos sobre seus olhos e
continuou a investir contra o falso-deus.

E quando o sangue ardeu como fogo nos olhos do gannaio, a chama de seu
ódio se reacendeu ainda mais e lutou pelo dobro do tempo que já tinha
lutado, só que dessa vez já não desviava dos golpes do falso-deus, pois
ele mesmo não os podia ver e também já não dava mais brecha para
contra-ataques e Jarmenur teve de recuar dos golpes do gannaio, que
agora somente se guiava pelo som de fornalha acesa emanado da armadura
quebrada do falso-deus.

E, vendo-se diante de todo o exercito, aquele que se intitulava deus da
guerra e dos gannaios sentiu a vergonha corroer-lhe, amarga, já que
recuava diante de um mortal. E irou-se o deus da guerra de tal modo que
assumiu toda sua grandeza, quebrando a estrutura de seu corpo mortal e
deixando toda sua essência ca'elestiba transbordar e girar em
turbilhoes de poder, materializando para além de seus limites físicos
autoimpostos.

Em forma de um colosso sanguinário trajado em uma armadura pesada mais
escarlate que sangue, agarrou o gannaio nas palmas das mãos, como se
fosse um mosquito pertinente, e foi apertando-o com toda sua ira.

Mas Vaston ainda conseguiu atirar sua clava no falso e arrancar-lhe o
elmo, alargando uma ferida no seu crânio, antes de ser levado como
espantalho de tortura por Jarmenur. E Jarmenur, com as lembranças da
vergonha que havia passado, jogou o gannaio nas prisões de Ravilyna, que
fica em Nevaeh, a fim de atormentá-lo quando lhe apetece-se o desejo. E
também para que pudesse evitar qualquer comentaria sobre um valente fim
de Vaston --- os prisioneiros sempre tinham um fim indigno. E essa foi à
última cena do massacre dos Reinos Livres de Lutinavel, agora sem reis
ou reinos.

Dos cinco grandes reinos de Lutinavel nem um restou. Foram todos
destruídos assim como seus reis e rainhas, que foram empalhados em um
montão na frente dos portões de seus castelos, com suas coroas, cetros e
joias.

Mas a Ravilyna, que também havia passado por um sufoco nas mãos de Norol
e retornara para sua fortaleza que ao sul de Nevaeh, ainda lhe restava
forças para descontar a ira em seu prisioneiro. E riu-se ao imaginar que
destino daria a seus dois novos e mais prezado prisioneiros.

Mas quando a falsa deusa se viu diante de Norol, um assombro tomou conta
dela, pois ela via no elestino das asas de fogo a perfeita imagem de um
deus antigo e seu entusiasmo diminuiu, e não teve coragem de torturar
Norol. Mas ainda assim mandou a seus servidores que o prendessem em uma
jaula de trevas, onde ela esperava que o poder de Norol fosse definhando
até ele tornar-se mais parecido com os mortais que, mais comumente, ela
afligia.

Porém Vaston das asas de aço, não teve o mesmo destino. Ravilyna usando
seus poderes curou-lhe a cegueira, e, feito isso, o entregou a Jarmenur,
dizendo-lhe:

--- Tome. Aqui está, meu senhor. Ele é seu. Mesmo que ele já tenha
servido ao Anaantanha, eu não conseguiria suportar a presença de uma
criatura dessas. Nem mesmo em uma cela. Essa raça me dá nojo. Se o
senhor me permite, desejo apenas o elestino. Eu posso achar utilidade
para ele.

E assim dizia ela porque os gannaios são um povo que não se entregava de
boa vontade de nem um deus, nem a Coroa nem ao Trono. Em sã consciência,
nem mesmo Jarmenur os controlavam. Os punhos de um gannaio eram os
únicos deuses que eles conheciam.

Mas quando Jarmenur, parado, já em uma forma menor, ao lado dos grilhões
que prendiam o gannaio das asas de aço, ouviu aquilo respondeu:

--- Você diz isso porque nunca viu como estes brutos são lacaios fieis
em minhas fortalezas e minas. E este aqui será mais fiel deles. E pagara
por ter desafiado o poder de seu deus. E sim,

Então Jarmenur jogou o gannaio acorrentando nos ombros e, agarrando-o
por seus dois chifres maiores, levou seus duzentos e poucos quilos como
se não fossem nada.

--- Jamais pense, gannaio, --- disse para Vaston enquanto o arrastava
--- que por ter servido ao Anaantanha você terá um tratamento diferente
dos outros de sua raça. Lembre-se disso.

O gannaio retribuiu o alerta com um série de rugidos e chingamente que
se prolongaram por quase todo o percurso. Só pararam quando o falso-deus
decidiu se pronunciar. Em um tom calmo e seguro, Jarmenur disse, com
aquela voz férrea:

--- É um erro seu, gannaio, pensar que vai conseguir me provocar. E um
erro ainda maior achar que, caso eu fique mais irado, sua morte chegará
mais rápido. Provoque-me e você verá como é lenta e dolorosa a fúria de
um deus.

Depois disso, Vaston fez silêncio. Não que fosse covarde, apenas não
havia motivos para ser tolo.

Mas, ainda que tivesse dito aquilo sobre servir em minas e fortalezas, o
falso-deus da guerra jamais colocou Vaston entre um de seus escravos,
pois ao chegar a seu recinto ele tentou impor sua vontade ao gannaio.
Porém Vaston foi firme em seu ódio, e enquanto Jarmenur tentava impor
seu poder, Vaston o cuspiu e o amaldiçoou, balançando-se para lá e para
cá contra as correntes que o suspendiam. Tanto foi isso que no fim as
correntes que prendiam sua asa direita se soltaram, e, sem demora,
Vaston serrilhou a asa como se fossem navalhas dentadas e passou-as no
rosto de seu captor.

Jarmenur urrou como uma fera, e tratou de arrancar a asa de Vaston com
um puxão. O gannaio grunhiu quando a carne de suas costas se rasgou como
um saco velho, sangue jorrou. Seu olhar, no entanto, se mantiveram fixos
em Jarmenur, encarando o falso deus com todo ódio que tinha a oferecer.

Jarmenur balançou a asa no ar.

--- Isto é para que aprenda a temer o deus que teu povo adora. São de
aço regnico, não? Guardarei junto de meus mais precisos troféus.

Ao ouvir isto, Vaston teve de gargalhar.

---Te temer?! Seria como fugir diante do miado de um gatinho ou se
esconder da ira de um verme. --- riu o gannaio --- Nem a Valcon eu temo.
Imagine a um lacaio como tu! Verme! Coma fezes, maldito!

Vaston só fechou a boca quando Jarmenur o esmurrou na barriga. O ar
escapou-lhe dos pulmões, e ele não teve forças para continuar. Cuspir
sangue foi à única coisa que conseguiu fazer.

--- Você realmente não deveria temer ao Anaantanha, pois ele já deve
estar morto. Ele e todo o resto dos velhos deuses que se opuseram a
Coroa e ao Trono. Eu, no entanto, vivo ainda hoje, poderoso e divino. E
você, gannaio, esta sob meu poder, e eu lhe recompensarei por teus atos.

E como prometido, Jarmenur recompensou o gannaio.

Levou Vaston ate as muralhas de Karventu que fica ao leste em Talutra,
uma das grandes fortalezas do deus da guerra e dos gannaios. E lá
chegando arrancou um dos seis chifres do Arauto de Venafelyn, e o usou
para fixar o tronco de Vaston contra a parede. Para servir de alvo para
as flechas. Mas vendo que apenas isso não conteria o gannaio, Jarmenur
também o deixou passar fome e sede por vários dias antes de lhe permitir
sentir a luz do sol.

Dizem que a principio foi o próprio Jarmenur quem lhe cravou as
primeiras flechas, de quase dois metros, e que a intenção era mesmo
matar o gannaio. Já que acabou percebendo que era impossível controlar o
gannaio. Isso porque Venafelyn havia entrelaçado seu próprio poder sobre
o gannaio, e Jarmenur não conseguiu quebrar os fluxos de Poder Primevo
entrelaçados pelo Senhor das Auroras. Mas depois da quinta flechada,
tomou gosto e decidiu deixar o gannaio ali, como um exemplo a outras
tentativas de rebelião e, mais ainda, porque gostara de flechar o
resistente gannaio.

E por lá ficou Vaston, abaixo de sol e chuva sendo alimentado muito
raramente. E de tempos em tempos grupos de áureos e outros servos de
Jarmenur vinham testar sua mira no gannaio. Porém sempre evitavam os
pontos vitais, o que, para a desolação de Vaston, permitia a rápida
regeneração de sua raça o manter vivo para ser atormentado por chicotes,
grilhões e flechas, no dia seguinte.

Vaston, no entanto, não voltou a ver Jarmenur novamente. Através dos
boatos e comentários ouvidos em meio às sessões de flechadas, o gannaio
acabou descobrindo que Jarmenur havia partido de Karventu, deixando o
comando da fortaleza sobre a tutela de Lâmfay, um deus menor submisso ao
grande deus da guerra que não se importava muito com prisioneiros.

***

Quando Aryan já havia partido em sua busca e Norol preso nas trevas, o
elementar Lenentu e o humano Wumgo reunidos com os sobreviventes de
Lutinavel maquinavam o que fariam para evitarem novos massacres, que sem
dúvida viriam caso nada fosse feito. A única decisão sensata que
encontraram foi partirem de Lutinavel.

Para a infelicidade deles, nessa época, os Portões Entre-mundos, que
ligavam os cantos de Gion, estavam em grande parte dominada pelas crias
do Dragão. E foi penosa à procura por uma passagem segura para levar
tantas pessoas. Mas, no fim das contas, conseguiram alcançar dois
grandes arcos feitos de aço sempernico que datavam de antes da Era do
Último Dragão. Circulares como aros de uma roda, estavam localizados na
florestas ao sul do Reino de Mupar.

Na primeira tentativa de adentrar o Portal Lutinavel-Nevaeh e
Lutinavel-Umdo, descobriram que ambos estavam dominados pelos demônios.
Diferente de Wihiaz que tinha um boa relação com Nevaeh, e, por algum
motivo, os Reinos de Ferro de Umdo não se relacionavam com Mupar a quase
vinte anos. Os Portais haviam sido negligênciados por um bom tempo.

Somente a ideia de terem de enfrentar novamente as hordas do inimigo já
era suficiente para atiçar pânico em todos. Ninguém se arriscou a se
aproximar muito dos Portais após as primeiras vítimas serem devorados
pelos demônios. E assim tiveram de se contentar em se esconderem em
abrigos e florestas ocultas, na esperança de que outra solução surgisse
ou que os inimigos se esquecessem deles por tempo suficiente para que
eles mesmos encontrassem uma.

Wumgo acreditava que a qualquer momento Venafelyn pudesse aparecer em
meio os céus. Lenentu não era tão esperançoso. E os sobreviventes de
Lutinavel, cabisbaixos e esfomeados, pendiam para o lado do elementar.
Se Venafelyn fosse aparecer, deveria ter feito isso antes. Antes que os
falsos-deuses chegassem. Antes que Unardan destruísse Wihiaz, e que o
Jarmenur infestasse o ar de Lutinavel com miasmas. Ou de Ravilyna ter
feito holocausto com os habitantes de Brawo.

Um grupo de elestinos vindos de Amsita, o Reino Sul de Nevaeh, havia
marchado pelo Portal Nevaeh-Lutinavel. Eles estavam em uma cruzada
contra os draconianos da Cria de Moecera que infestaram a área do Vazio
Entre-Estrelas do Portal, impedindo suas negociações com os Reinos
Libertos de Lutinavel. Durante cerca de um ano, os elestinos, com suas
lanças envoltas em Poder Primevo e sua rígida disciplina, exterminaram
os demônios que infestavam seu lado do Portal e agora estavam a ponto de
acabar com toda a infestação --- que somente restava na parte de
Lutinavel.

Os demônios, que tantos temores provocaram nos sobreviventes de
Lutinavel, foram chacinados em questão de horas pelos elestinos da raça
aliel e eliel, e os que não foram mortos no momento, fugiram em seu
bater de asas flamejantes só para serem logo interceptados e abatidos
com a fria precisão das lanças elestinas.

E quando os guerreiros elestinos já estavam em marcha de partida, para
avisarem aos seus compatriotas que uma nova passagem entre Lutinavel e
Nevaeh estava livre e pronta para sem usadas, Lenentu, voando em suas
asas douradas, os avistou.

E os elestinos ao ouviram o relato do que aconteceu com Lutinavel, com
as faces inexpressivas, parecendo apenas um pouco afetados com a
notícia.

Por muito tempo --- desde que souberam do interesse de Venafelyn por
essa raça --- os elestinos foram fortes aliados dos humanos, tanto no
comercio quanto na defesa da liberdade de todos os povos e raças. E
diziam que quase tão grande quanto a consideração que eles tinham por
Lutinavel, era a que tinham por Norol, a quem chamavam de último dos
nevaes.

--- E do povo humano, quantos ainda há? --- perguntou o líder da
campanha. Seu nome era Derael um dos filhos do rei Tahrafo de Amsita,.
Da raça dos alysaundreos, com suas típicas asas largas como águias e
branquíssimas, como se o próprio vento as tivesse esculpido com o esmero
de um artesão. O rosto era como uma escultura entalhada em rochas alvas.

--- De cada dez, acho que apenas quatro sobreviveram.--- respondeu
Lenentu, pouco afetado.

E ao ouvir isso até mesmo Derael, hesitou, surpreso. Os elestinos também
tinha problemas com falsos-deuses. Principalmente com Ravilyna. Mas
nunca havia chegado a tanto. Elestinos também não envelheciam. A morte
para eles era um conceito estranho. Distante. Vago. Quando alguém morria
em combate --- o que era raro para guerreiros tão eficiente ---, se dava
uma comoção tão sublime e memorável, e por décadas as pessoas
continuavam a falar receosas, sobre o fato.

Quando Derael convocou os outros lideres daquela campanha, as expressões
em seus rostos foram se solidificando em máscaras de horror, espanto, e
até de compaixão. Alguns dos líderes, com faces etéreas e serenas,
ficaram tão sinistros quanto o Vazio Tenebroso ao ouvirem o relato.
Parecia difícil, para eles, aceitar a mortalidade.

***

Com muita algazarra os sobreviventes dos reinos de Lutinavel, receberam
o aviso que Lenentu trouxe dos elestinos. E alguns de tão feliz que
ficaram que mal conseguiram acreditar que seriam de fato levados a
Nevaeh, o Mundo Sobre Céus e Mares, onde as cidades, erguidas em
montanhas, jamais foram dominada pelo Trono ou pela Coroa, nem
falso-deus algum.

Mas depois que cessou a confusão, logo se puseram a marchar desde os
abrigos nas florestas, onde viveram seus últimos dias como animais
selvagens, prontos a debandarem ao menor sinal de perigo.

Wumgo --- que já era respeitado quase como um rei entre os sobreviventes
de Wihiaz --- guiou até o Portal, tendo apenas que, vez ou outra,
enfrentar alguma das crias de demônio que, mais rápidas ou sortudas que
as outras, conseguiram escapar das investidas elestinas e, famintas,
tentavam carregar alguem.

A multidão foi repartida em vários grupos de centenas de pessoas. As
crianças, depois os velhos e as mulheres. Wumgo, parado ao lado do
Portal, observou com atenção a partida das crianças, das pequeninas até
as mais crescidas. Estavam sujas e famintas com após dias de fuga.
Poucas conservavam a força da juventude, e Wumgo duvidava que algum dia
voltassem a sorrir como antes. Um menino passou segurado na mão de uma
mulher alta e loira, vestida em uma túnica de seda. O que chamou a
atenção na dupla foi a maneira sigilosa como a mulher aninhava uma massa
de panos ao abaixo do braço direito. Quando Wumgo fez um vento repentino
esvoaçar os panos na mão da mulher, ele percebeu que a forma oculta
abaixo dos panos era uma estatueta de Unurdan. Rápida, a mulher tratou
de esconder a estatueta antes que alguém mais vesse.

A maioria das mulheres e crianças adentraram o Portal. Os próximos eram
os velhos, que foram entrando em uma marcha lenta e resignada, digna de
alguém que acreditava ter vivido mais do que deveria. Não pareciam
satisfeitos em estarem recebendo preferência. Não em tempos como esses.

Wumgo ainda observava a mulher --- que ele havia percebido ser nada
menos que Galatena, a rainha de Mupar, --- quando um sujeito lisonjeiro,
chamado de Andraen, provávelmente um nobre de Tabya, se aproximou,
sugerindo --- ou melhor, conduzindo --- enfaticamente que ele deveria se
juntar a marcha. Wumgo franziu a testa, irritado. E quase chegou a
expulsar o homem a pontapés.

Felizmente não chegou a tanto, pois Lenentu se aproximou antes disso
dizendo querer falar com Wumgo. O tal de Andrean se desculpou de
qualquer importunio que pudesse ter causado, e se afastou, apressado,
assim que viu o elementar.

Lenentu não parecia em seus melhores dias. E não era de se julgar que
Andrean tivesse quase corrido ao afastar distância o suficiente para
manter a elegância.

[De Partida:]{.underline}

--- Você vai mesmo nós deixar, Lenentu? --- Perguntou Wumgo, ainda
lutando com as palavras do Arauto de Venafelyn.

--- Foi o que eu disse, não foi?

Wumgo se sentiu um pouco desapontado ao perceber que não havia nem um
pingo de constrangimento no elementar. Ele havia dito que faria, e não
parecia a fim de voltar atrás.

Talvez apenas por força do hábito, Wumgo voltou a tentar.

--- Sim. Mas eu esperava que você ficasse. Ou ao menos que nós
acompanhasse até Nevaeh. Eu nunca passei pelo Entre-Mundos, mas dizem
que é uma viagem perturbadora. A presença de alguém que já fez a
passagem poderia ajudar a tranquilizar as pessoas. Tem certeza que não
quer vir?

Ignorando a pergunta, Lenentu se encostou em uma árvore e fitou a
multidão a frente. A maioria dos idosos já havia adentrado o Portal. Os
guerreiros elestinos, sob a tutela de Derael, vigiavam com atenção a
entrada de cada um dos humanos. Se alguém demorava um pouco mais, ou
atrapalhava a passagem de outra pessoa, bastava um olhar, frio e
analítico, de algum dos guerreiros de Nevaeh para que o retardatário
entrasse na linha. Às vezes era necessário erguer um pouquinho a lanças
quando o cidadão era especialmente grosseiro e tumultuoso. Suor o frio
escorria da face do valentão ao se ver diante daqueles olhos frios e
rostos rígidos, mas era o erguer de lanças que fazia suas pernas
cambalearem antes de entrarem na fila. Eram sujeitos severos, aqueles
elestinos. E ninguém desejava saber até que ponto seriam capazes de
suportar a indisciplina.

--- Os elestinos estão fazendo um bom trabalho. --- disse Lenentu, em um
tom vago. --- Às vezes eles podem parecer cruéis, mas eles sempre fazem
o que é certo.

Wumgo assentiu. Dizem que era mais fácil comprar o sol do que subornar
um elestino.

--- Por que está nós deixando, Lenentu?

Parecendo ofendido, Lenentu se remexeu, incomodado com o olhar de Wumgo.
E por fim disse:

--- Para mim não há mais motivos para permanecer na companhia de vocês,
humanos, --- O elementar acrescentou a última parte em um tom de
gozação. --- Sabe, foi agradável viver entre vocês. Eu aprendi muitas
coisas. Vocês são um povo interessante... mas...

--- Lutinavel chegou ao fim. --- interrompeu Wumgo, sombrio.

Lenentu continuou a falar como se não tivesse percebido.

--- ...eu vou buscar os outros quatro, depois irei encontrar meu
próprio caminho.

--- Como? --- Exclamou Wumgo. --- O que você quer dizer com isso?

--- Eu vou atrás de Janos, Vaston, Norol e Ayran. E os trarei de volta.

--- Isso é loucura. Norol foi pego por Ravilyna, e deve estar em alguma
dos covil da falsa-deusa, somente o Criador sabe onde. Vaston não teve
um destino melhor. Nós dois nos despedimos de Ayran quando ela partiu em
busca de Venafelyn. E o jovem Janos? Ninguém ouviu falar dele desde o
Ataque. O Criador queira que não, mas talvez ele tenha morrido.

Lenentu inclinou um pouco o pescoço, para encarar o velho.

--- Janos está vivo.

--- E como você sabe disso? Ele nunca foi herói, mas eu sempre o
considerei um bom garoto, e duvido muito que ele tenha cruzado os braços
enquanto Lopsu era devastada.

--- Eu sei que ele esta vivo, por que eu sinto isso. Eu consigo sentir
cada batimento do coração dele, assim como o de Norol e Vaston...

--- E Ayran?

Lenentu hesitou antes de acrescentar:

--- E Ayran. Eu sinto todos eles. Esse foi um dom que Venafelyn concedeu
somente a mim. Eu posso senti-los, e é por isso que deve ser eu a
trazê-los de volta. --- Com resignação, acrescentou como para si mesmo:
--- Eu admito não gostar disso. Ah, como eu preferia perambular pelas
noites tempestivas do Oeste de Fimagion a ter de fazer isso..

--- Então porque você faz?

--- Por que eu estou em dívida com Venafelyn. Uma dívida que eu devo
pagar ainda que a contragosto.

--- Seu juramento na montanha Jarven...

Lenentu se remexeu de novo, parecendo incomodado. Ou arrependido de ter
falado tanto.

--- Meu assunto com Venafelyn não tem nada haver com o Juramento dos
Cinco ou a Montanha Jarven, mas eu não foi falar sobre isso. Na
verdade... --- Lenentu se levantou --- tudo o que eu tinha para falar
com você já foi dito. Foi bom conhecê-ló, Wumgo. Espero que você seja um
bom rei.

--- E eu espero que você seja bem sucedido em sua jornada, amigo
elementar. Foi um prazer para mim conhecer um filho do trovão.

Lenentu fez uma careta estranha. As feições do elementar eram
semelhantes a uma escultura de safira. Duras e inexpressivas. Wumgo
ficou indeciso se interpretava aquela careta como um sorriso amigável ou
um zombaria silenciosa. Mas não importava, as vezes o humor do elementar
era difícil de entender. Wumgo sentiria falta dele.

Lenentu se afastou um pouco e abriu as asas. Eram douradas com
filamentos de ouro se interligando em quase quatro metros de
envergadura. Faíscas azul-celeste saltitavam dos ombros do elementar em
direção a elas.

--- Se algum dia você encontra-ló, --- gritou Wumgo quando Lenentu
começou a erguer voou --- diga a Promestan que não importa o que nós
tenha acontecido ou o que possa vir a acontecer, a humanidade sempre se
lembrara do que ele fez por todos nós!

Lenentu girou a cabeça em direção a Wumgo.

--- Você é velho, rei Wumgo, mas ainda poderá ver muitas coisas antes do
fim. Quem sabe você mesmo não possa dizer isso?

Dessa vez Wumgo teve certeza que a careta do elementar era um sorriso,
largo e zombeteiro. Lenentu. A alegria de Wumgo, porém se desfez, ao
perceber que havia sido chamado de rei duas vezes.

--- Rei é minha avó --- saiu resmungando, baixinho, enquanto se afastava
em direção a multidão. --- Não serei rei nem que me amarrei. Passei a
juventude inteira querendo isso, e logo agora o maldito Farnan decide
morrer. --- Gargalhou.

Um sujeitinho que se aproximava levou um susto, e se afastou. Wumgo riu
ainda mais alto ao perceber que era o tal Andrean.