A Lenda de Venafelyn · Capítulo 8 de 9
7 — Draynos de Gion
por AlkhamPublicado
[Draynos:]{.underline}
O Vazio Entre as Estrelas, por onde a Morada de Venafelyn navega
--- e que tanto confundira Aryan ---, era como nada diante das asas
incendiarias de Venafelyn, e logo o ca´elestibu chegou ao seu destino.
Lá, em sua Morada, ficou a matutar sobre o futuro de Gion.
De fato, ca´elestibus não são arrogantes, mas menos ainda
são humildes.
Um verdadeiro ca´elestibu. Um Senhor das Auroras, sabe seu
lugar, conhece seu poder, e nunca duvida de sua capacidade para o mal ou
para o bem. Venafelyn era um Senhor das Auroras, alias, o último, e
jamais duvidou de seu poder, nem jamais o superestimou.
Destruir o Dragão e o Demônio não estava ao seu alcance...
Jamais esteve.
Mas, menos provável ainda, seria desistir de seu dever para
com Gion, para com os mundos que seu povo tão arduamente moldou. Há
muito tempo Venafelyn, e todo seu povo, fizera um juramento. Um
juramento que não quebraria enquanto a Existência perdurasse.
De seu lar acima das estrelas, vislumbrou novamente Eviterna,
o esconderijo inalcançável de onde certamente seu povo jamais
retornaria.
Sim, seu povo jamais retornaria... "Mas talvez outro."
***
Como os raios solares traspõem o Vazio Tenebroso até irradiarem
seu calor por sobre os mortais, assim também o olhar de Venafelyn recaia
sobre Gion enquanto vasculhava cada um daqueles mundos que compunham a
Morada da Vida.
Ah, antes haviam sido tão belos. Cheios de vida e ordem, hoje,
porém, haviam decaido tanto sob o julgo de demônios, de áureos, de
falsos-deuses. De vermes que sequer mereciam o prazer da existência,
ainda menos de serem chamados de deuses.
Mas havia um lugar. Um ínfimo mundo. Gélido, distante, onde as
chamas do Último Dragão não consumiam. Onde a ganância do Demônio era
repelida com o ímpeto de um poder frio que jamais se entregava.
Batalhando por cada grão que compunha seu mundo, estava o
Soberano de Hjamurlna. De lá saia um frio que nem mesmo o mais poderoso
dentre as hostes do Último Dragão ousava desafiar. E que somente graças
o uma camada de fogo e ardência lançada pelo próprio Dragão por todo o
arredor daquele planeta, o frio parecia não se alastrar para além das
fronteiras desse recluso planeta, abarcando em um inverno letal tudo e
todos.
"Esperança. Esperança."
Esperança fria e gélida como Venafelyn jamais sonhara encontrar
nesta existência condenada pelas chamas.
"Mas qual seu nome? "
Qual o nome daquele que, mesmo em um momento onde a dominação de Gion
se revelava quase completa, ainda se levantava contra o Demônio...?
Venafelyn deveria saber.
Venafelyn era mais antigo que o universo, e não havia poder ou
força em Gion que ele não conhecesse.
É, não havia...
Partiu veloz em direção daquele pequeno mundo, reduto da
resistência gélida.
***
Venafelyn pousou em um campo congelado, e nem mesmo com as
suas chamas a frieza daquele mundo se abalou por um instante sequer.
Pelo contrário, o frio parecia tomar mais força ao seu redor. Ele sentia
como se sua presença não fosse bem vista. Era como se toda aquela
atmosfera o rejeitasse. Rejeitasse seu calor, sua vida, sua
existência...
Seja quem fosse o senhor daquele mundo, ao menos de uma coisa
Venafelyn sabia: não era com bons olhos que ele via a chegada do
Forjador das Estrelas.
Venafelyn expressou sua chegada. Trovejou seu nome, um brado que
estilhaçou as pedras congeladas, derretendo a neve; fazendo vibrar os
alicerces daquele mundo.
E sua voz foi ouvida...
Um alvoroço surgiu perto de seus pés, como que um pequeno
redemoinho de neve. E da nevasca surgiu um algo... A principio informe,
mas logo ganhando tamanho e existência. De lá, da tormenta de neve e
gelo, ergueu-se de fato uma nova criatura.
E Venafelyn viu que se assemelhava um mortal, mas sua forma era
gelo e neve. Era caótica... Percebeu o ca'elestibu com certa aversão.
***
[Fúria Gélida:]{.underline}
Enquanto era guiado em direção do recinto do soberano de
Hjamurlna, Venafelyn também percebeu que a criatura não pensava por si
mesma. Havia chegado à conclusão que o ser era apenas uma emanação
criada pelo mesmo poder que mantinha aquele mundo. Mas falava, e disso
soube, pois ela o recomendou segui-la:
--- Meu senhor... o ouviu, ca'elestibu... --- dissera a criatura.
Venafelyn notou algo de estranho na forma como era dita o nome de sua
espécie. Mas não soube o que era. --- Venha...
E assim ele fizera, seguindo-a pelos meandros daquele
planeta.
Por caminhos congelados, e sob sombras de altas torres
criadas pelo Soberano Gélido, Venafelyn andou ao lado da criatura de
gelo, seu guia naquele desconhecido reino de Hjamurlna. Quando chegaram
a uma ponte (obviamente feita de gelo) que ligava duas montanhas,
Venafelyn conseguiu ter uma visão de varias figuras belicosasas se
movendo em uma espécie de base de combate no pico da montanha.
Venafelyn observava as criaturas --- iguais a aquela que o
guiava --- vagarem para lá e para cá, como marionetes de uma mente só.
Algumas moldavam na própria matéria do planeta mais e mais criaturas de
gelo que logo ganhavam movimento e se juntavam a fileiras.
Outras faziam armas e instrumentos para combate --- tudo de
gelo, é claro --- e lhes entregavam. Também observou que algumas
criaturas após serem criadas logo se derretiam, sem motivo aparente. No
entanto, vez ou outra as criaturas recém-formadas se aglomeravam em
grupos armados grandes o suficiente para os propósitos de seu criador e
partiam pela ponte indo para sabe-se lá onde.
Mas além daquelas criaturas insensíveis, o ca´elestibu não avistou
vida nenhuma ali. Provavelmente não existia. Venafelyn bem sabia que só
estava ali graças a suas chamas calorosas que o protegiam de um fim
gelado.
Enfim atravessaram a ponte e chegaram ao topo da montanha. Um
lugar mais largo do que seria de se esperar, onde a neve, varrida por
fortes ventos, cobria a visão e dificultava até mesmo os passos de
Venafelyn.
A criatura-guia desapareceu, desfazendo-se em partículas de
neve que rapidamente foram levadas pelos ventos. Mas Venafelyn continuou
parado no mesmo local, conjecturando quão tremenda deveria ser a força
que governava aquelas terras. "Seria de se esperar que eu o
conhecesse."
Um estrondo de vento sendo rasgado pelo bater de asas, fez que
Venafelyn abandonasse suas ponderações e se colocasse em alerta,
vasculhando seu arredor em busca da causa do barulho. Mas não chegou a
ver muito em meio aquela nevasca sufocante.
Houve outro estrondo, como se alho pesado se batesse contra o
chão. Em seguida veio à voz, pesada e cortante, como uma navalha fria,
ou o arranhar de gelo contra gelo.
--- Quem veio a contemplar meu belíssimo reino? --- surgiu o som de
algum lugar da nevasca. Falava na Língua
Primordial.
Os ventos gélidos cresceram, como em resposta ao som da voz,
aumentando a níveis ameaçadores.
--- Venafelyn! --- disse-lhe o ca'elestibu. Suas asas flamejaram, para
protegê-lo do frio. --- Eu venho de muito longe a sua procura.
--- Você não é bem-vindo, ca´elestibu. Ninguém de teu povo é. --- Asas
bateram, e Venafelyn sentiu o frio aumentar de acordo com a aproximação
do ser. Para Venafelyn isso era algo raro, o frio. --- No entanto, não o
matarei agora... --- Calou-se abruptamente e a aura opressiva de frio
aumentou, pesando como chumbo batido. --- Extinga o calor, ca´elestibu!
--- Ordenou e a sensação de sua voz agora era a de duas montanhas de
gelo topando-se.
--- Seria suicídio. Eu não suportaria estar aqui de outra forma.
Mas diminuiu o calor de suas asas. O frio também pareceu
diminuir.
--- Que seja. O que procura, ca´elestibu? Ou veio apenas contemplar as
glórias de meu gélido mundo? Está procurando abrigo das chamas de
Drakóus Trógon em meus reinos? Se for este o caso, eu não o aceitarei,
pois seu povo provocou isto...
--- Não. Eu venho em busca de ajuda, mas não contra ele.
--- Ajuda? --- Riu-se a voz gélida. --- O bravo forjador de estrelas,
procura-me, e pede... ajuda? --- Gargalhou --- Vejo que seu povo
fracassou desgraçadamente em seus desígnios, como era de se esperar. Por
acaso não fui eu quem lhes disse serem tolas suas intenções? Vocês não
me ouviram, não foi mesmo? E o que veio de bom disso? "Joguem água no
sol" foi o que eu disse "talvez vocês consigam apaga-lo com esforço.
No entanto suas intenções não se concretizaram nem mesmo com um esforço
mil vezes maior que este!."
--- Mudigirf. --- A lembrança surgiu na mente de Venafelyn. Este só
podia ser Mudigirf, o Gélido. Tinha certeza. Essa havia sido a mesma
frase que ele havia dito aos Construtores antes de partir para além de
Gion e nunca mais ser visto por Venafelyn. Venafelyn jamais pensara no
drayno desde aquele dia, mas se lembrava de seu discurso final, palavra
por palavra. Na verdade, imaginava que o drayno houvesse morrido durante
a grande batalha de Occidere Mundos. Mas ali estava ele, regendo todo um
planeta, soberno e arrogante como sempre. --- É você, não é?
Houve um novo bater de asas --- cada vez mais frio --- e depois o
som pesado de algo se despencando na neve.
--- Sim. Ao menos se lembra de mim, ca´elestibu... Mudigirf é
inesquecível. --- Já estava tão próximo que era bem possível sentir o
bafo glacial do drayno. --- Mas ainda assim, se procura auxilio em
Hjamurlna, não irá ecebera. Jamais permitirei que alguém de tua laia
permaneça em meu reino ou importune meus súditos.
--- Súditos? Não seja tolo, drayno. São apenas espantalhos. Coisas sem
mente. Você não tem súditos, Mudigirf. --- Enquanto falava Venafelyn
tentou encontrara a direção do drayno, mas a neve constante e os ventos
impetuosos não facilitavam. --- E, lembresse, foi você que se isolou de
todos. Meu povo nunca provocou mal algum a você. Vê, Mudigirf, nós que
viemos primeiro estamos padecendo um a um. E Gion, que meu povo
construiu para todos os seres habitarem, inclusive você, esta em um de
seus piores momentos. Até Hjamurlna irá ruir algum dia. Seu poder não é
eterno, Mudigirf.
--- Você que diz isso. Na verdade eu tenho crescido cada vez mais em
poder, e hoje sou ainda maior que naquelas épocas. Saiba, ca´elestibu,
que mais dia ou menos dia, eu, Mudigirf, expandirei meus reinos até os
confins de Gion e a tornarei em eterno frio. Ah, será gélido, e será tão
belo. --- Havia algo de estranho no tom de voz do drayno, percebeu
Venafelyn. Era a loucura. --- Portanto, ajoelhe-se e suplique, forjador
de estrelas, e talvez quando este dia chegar eu o permita viver em
alguma caverna qualquer, como teu povo fez a mim.
--- Isso é loucura.--- Venafelyn abriu as asas em chamas e caminhou em
direção a voz do drayno. --- Você ignora que todo meu povo se foi há
muito tempo? Está cego? Você se isolou por aua própria conta e hoje
acusa quem não existe. Afinal você finalmente enlouqueceu?
Então, encontrou o drayno...
...lá estava Mudigirf, o drayno que de tão frio tornasse até
desnecessário dizer que também o chamavam de o Gélido.
O soberano de Hjamurlna estava tombado sobre um trono congelado,
suas asas soberbamente longas e seu corpo esticado na semelhança de uma
serpente composta inteiramente de gelo, derretiam-se.
Mudigirf, o Gélido, desfazia-se. Gota a gota sua essência caia na
neve.
Até mesmo a face estava se desfigurando; as mandíbulas e presas
caiam para o lado em uma visão decadente daquele que um dia fora um dos
mais poderosos seres da Segunda Existência. O flanco direto, na junção
entre o pescoço e as patas dianteiras, ardia em chamas que pareciam não
se apagar de maneira alguma. Mas as chamas eram escarlates, e não
negras.
Mudigirf percebeu o olhar de Venafelyn.
--- "Louco", você diz... --- Por um momento, sua voz, fraca como um
sussurro de geada, transpareceu sua fraqueza. Mas então voltou a erguer
o tom: --- Veja, então, a loucura! A loucura daquele que não foi
covarde de abandonar seu reino, e sozinho desafiou o fogo negro de
Drakous Trogon! O maldito tolo dos mil infernos achou que iria devorar
todos nós!, mas isso não aconteceu. --- Escancarando a boca, gargalhou.
Várias presas se desprenderam de suas mandíbulas, mas ele continuou a
rir. --- Logo, eu, Mudigirf! Eu mostrei-lhe que não. Que ele coma
pedras, rios, reinos e mundos. Que ele coma suas malditas estrelas,
ca'elestibu. Mas Mudigirf, não! Por três mil anos eu o desafiei. E
ainda hoje vivo! Frio e eterno.
O drayno ergueu todo seu corpo, firmando-se com todas as forças
que ainda lhe restavam. Abriu as asas (uma delas desprendeu-se do corpo
e caiu no chão com o estrondo de uma montanha caindo), e ergueu seu
longo pescoço com toda o poder que recusava-se a perder.
Venafelyn o fitava, mal conseguindo acreditar.
--- Para onde foi seu poder? Você o perdeu, não foi? Na defesa deste
mundo vazio. Deste planeta sem valor algum. Uma luta inútil.
Mudigirf fitou as chamas de Venafelyn enquanto se locomovia,
serpenteando na neve na direção do ca'elestibu..
--- Mesmo hoje tuas chamas ardem poderosas, ca´elestibu, no entanto
vejas a mim... Apague-as. Vê! Já não preciso de mais fogo --- Uma
gargalhada fraca veio do drayno, zombando de si mesmo.
Venafelyn desfez as chamas. As quatro asas do ca'elestibu
retornaram ao negro-avermelhado típico. O frio era intenso, mas ele se
obrigou a suportar.
--- Tenho uma proposta a te oferecer, rei cujos súditos não pensam...
--- Começou a dizer, mas foi interrompido.
--- Eu bem sei o que tu procuras, ca´elestibu. Por milênios e mais
milênios eu e meus súditos, que tu dizes não pensarem, temos enfrentado
o poder do Traidor e de sua abominação. Mas também compreendo que o fim
de meu reino está por chegar. Tuas chamas são poderosas, Venafelyn, no
entanto, nada se compara ao fogo negro do Dragão. Digo-te que sim,
ca´elestibu.
O Drayno passou por Venafelyn, e logo sumiu por entre as camadas
flutuantes de neve, deslizando como uma serpente.
--- Vá para longe, ca´elestibu! --- gritou de dentro da nebulosidade,
sua voz retornara a toda a sua potencia. --- Voe para fora deste mundo,
Venafelyn. Pois hoje Hjamurlna chegará ao seu fim, e tu não deves estar
aqui para que não sejas destruído juntamente.
E o ca´elestibu assim fez.
Mas Mudigirf deslizou-se do cume da montanha até a base dela e
pôs suas forças a atuar em todo aquele mundo.
Hjamurlna, o mundo gélido, entregou de volta á Mudigirf todo o
poder que o drayno havia dedicado ao planeta, e, assim que o fez, tudo
ruiu. As camadas de gelo. As tempestades. Os gélidos ventos, as altas
montanhas criadas pelo querer de Mudigirf, tudo isso, e o resto também,
desfez-se em estilhaços, em vapores, em cristais de gelo.
Assim também desapareceu aquelas criaturas de gelo criadas pelo
soberano de Hjamurlna. Nem uma delas escapou.
E o fogo do Último Dragão, que antes fora combatido pela
gélida presença de Mudigirf, atacou com fome e desejo de destruição,
devorando todo o mundo.
Hjamurlna acabou-se em um inferno de labaredas negras.
E houve um brado final.
Mesmo do alto, Venafelyn ouviu quando o drayno que sempre lutara
suas batalhas só, rugiu com a lendária fúria dos draynos:
--- PARA Á GUERRA! --- e o som da ira do drayno foi ainda mais poderoso
que o do mundo quando se desfez.
***
Da tormenta que devastava Hjamurlna, retornou Mudigirf, o drayno que
somente encontrava contentamento em sua própria presença. Mudigirf, que
jamais se rendeu ao poder do inimigo. Mudigirf cujo nome significa Frio,
e que a ira desafiava até mesmo o poder do Último Dragão.
***
--- Milênios sem conta se passaram desde a era em meu povo voava sobre a
Primeira Existência, com orgulho, poder e altivez de espírito. --- Disse
o drayno enquanto, ao lado de Venafelyn, contemplava os últimos
resquícios de Hjamurlna serem devorados pelo fogo do Último Dragão. ---
Mas ainda existem outros. Eu consigo sentir suas presenças, como
ondulações em um lago. São poucos, é claro. Nós já éramos poucos mesmos
antes do Último Dragão, mas agora somos menos ainda. Mas suponho que eu
não seja o primeiro, sou?
Venafelyn assentiu. Mudigirf não pareceu surpreso. Na verdade era
provável que, em seu orgulho, ele não aceitasse nada menos que isso.
--- Uma guerra... --- murmurou o drayno gélido. --- há muito eu não
participo de nada mais que afugenta
Abaixo, o fogo invencível do Dragão extinguiu da Existência qualquer
vestígio do que um dia fora Hjamurlna.
--- Qual o motivo, Mudigirf? --- perguntou Venafelyn. Mudigirf pareceu
não entender.
--- O motivo? O motivo para eu lhe ajudar? Ora, um dia isso teria de ser
feito. Hoje é um dia tão quanto qualquer outro...
--- Não, Mudigirf. Não é isso. Por que, entre todos os seres da Primeira
Existência, logo você decidiu se isolar tanto tempo em lugar como esse.
Eu lhe conheço bem demais para acreditar que foi medo. Muitos draynos se
acovardaram diante de Drakous Trogon, mas você... Você não faria isso,
faria? Qual o motivo, Mudigirf?
Mudigirf gargalhou.
--- Vocês, ca'elestibus, são sempre assim, não é? Buscando motivos
ocultos onde talvez não haja nem um. --- Controlou seu humor, e
acrescentou, sombrio. --- Mas, sim, existe uma razão para eu ter
permanecido aqui por tanto tempo. Quando o Último Dragão, que até então
não era o último, começou sua onda de assassinatos. Devorando e
destruindo tudo pela frente, alguns draynos, afligidos pela desgraça da
covardia, se espalharam por Gion e se esconderam como vermes abaixo da
primeira coisa que acharam. Então um dia uma drayna qualquer veio até
mim para aconselhar a abandonar Hjamurlna e me esconder até que vocês
resolvessem tudo... --- Mudigirf estendeu as asas e ergueu a cabeça,
altivo. Uma aura azul, gélida e pesada como um oceano emanou de seu
corpo. Era uma manifestação de Poder Primeva e, percebeu Venafelyn, era
mais do que até mesmo ele supunha que um único ser pudesse conter. Era
demais até para um ca'elestibu ou drayno. --- Que absurdo! Eu não me
escondo de ninguém! --- Rugiu --- Eu expulsei a drayna daqui como a um
cão, e prometi para mim mesmo que ficaria nesse planeta até o último
suspiro ou até que Drakous Trogon moresse. Eu esperava que o maldito
vinhesse atrás de mim. Ele sabia onde eu estava, mas nunca se deu ao
trabalho de vir pessoalmente devorar Mudigirf. É um covarde! Um
miserável, traiçoeiro, abominável, uma verdadeira desonra para toda a
nossa espécie.
O fluxo de Poder Primevo ao redor do drayno diminuiu, e a aura gélida
foi desaparecendo. Em se tratando de Poder Primevo, draynos e
ca'elestibus eram praticamente equivalentes, mas durante toda sua vida
Venafelyn só conheceu uma dúzia de seres capaz de se equiparar a
Mudigirf. O próprio Venafelyn não era um desses.
--- Eu o fiz quebrar sua promessa? --- disse Venafelyn, em parte
perguntando em parte afirmando.
Mudigirf respondeu rápido.
--- Promessa, é? Acho que não. Veja, já faz um bom tempo que Hjalnurma
deu seu último suspiro ... --- Quando Mudigirf riu novamente, Venafelyn
notou que havia o toque de algo mais. Talvez pesar, era um sentimento
que o Senhor das Auroras conseguia compreender.
[Drainarios:]{.underline}
Agradon foi o primeiro.
Ele vivia em um mundo distante, --- nas fronteiras entre Gion e
o próprio vazio --- no limite do governo do Trono e da Coroa, regiões
onde raramente algum falso-deus punha os olhos. Mas ele não estava
alheio ao que acontecia fora de seu planeta. E vez ou outra passeava
pelos planetas mais no centro de Gion e levava-lhes, e os ajudava. Fazia
crescer a vida, brotarem árvores e florescerem as flores. E mundos,
enegrecidos e devastados por guerras e conflitos ganhavam nova vida com
o poder do drayno.
Foi durante uma destas excursões que Venafelyn e Mudigirf o
encontraram a fazer nascer uma floresta em um planeta incendiado.
Agradon era o drayno mais pacifico que Venafelyn já encontrou.
Embora isso aborrecesse Mudigirf, Venafelyn ficou maravilhado. E o
Senhor das Auroras passou muito tempo conversando com ele e tentando
convencê-lo a se juntar a eles.
Agradon, embora possuísse um enorme fluxo de Essência Primeva, não
gostava de lutar. Não importando se era um bom ou um mal motivo.
Para ele só o que importava era a vida. Principalmente a vida vegetal.
Ele não nutria muito afeto algum por qualquer raça pensante. Na mente
dele não entrava a ideia de que humanos, elderes, gannaios, lunarios,
etc, tivessem de cortar árvores e "assassinar" (para se alimentar)
frutas e animais menos evoluídos.
--- Brutamontes subdesenvolvidos, é o que são todos esses seres da
Segunda Existência. --- dizia ele.
Exceto Senhores das Auroras e elementares, do resto ele preferia passar
longe. E ele ficou tão incomodado com a presença de Mudigirf que
Venafelyn teve de pedir que o drayno gélido seguisse em busca de outros
draynos apenas para que Agradon não fosse embora sem ouvi-ló. Mudigirf
saiu, fungando gelo ao perceber que estava sendo discretamente expulso.
No entanto ele nutria um grande afeto pelos Senhores das Auroras, e
irradiava felicidade ao ver que Venafelyn, o último dos construtores de
Gion, lhe honrara com uma visita. Talvez tenha sido por isso que no
final acabou aceitando seguir Venafelyn, ou talvez tenha mesmo se
convencido que alguém deveria se opor pessoalmente contra o reinado de
Rasgranar. Agradon odiava poucas coisas, porém Jarmenur, Malfenda e
Rasgranar conseguiam despertar toda sua ira. Esses três, em sua cobiça
de dominação e pela procura constante em busca de Aço Regnico haviam
provocado estragos irreversíveis na natureza de Gion.
Quando enfim Venafelyn convenceu Agradon, Mudigirf apareceu, com ar
de indignado. Venafelyn supôs que era por ele ter sido boicotado, mas
explicou que não.
--- Eu encontrei outro drayno. --- disse ele. Há muito tempo, antes
mesmo de Drakous Trogon escancarar suas presas e varrer a Segunda
Existência com seu estranho, um cataclismo quase deu fim a todos os
draynos, dragões e drainarios. Encontrar dois deles em um único planeta
era muita sorte, ou azar. Mudigirf não parecia satisfeito. --- Lembrasse
da drayna covarde que veio, estupidamente, me alertar sobre Drakous
Trogon? É ela.
Kairian, que vivia no mesmo planeta que ele.
Chegando lá, foi o próprio Agradon que conversou com Kairian.
Agradon também falou de certo conhecido seu que habitava um planeta
não muito distante dali, mas que já haveria sucumbido há muito tempo
perante o fogo do Dragão se não pela presença dele.
Seu nome era Essam, o Sábio, que, ao contrário da maioria dos
draynos, não usava seus poderes naturais. Essam prática o domínio da
Essência Primeva. Ele manipula os fluxos invisíveis que sustentam a
Existência, e conseguia fazer o fogo se tornar ar, e a água se tornar
fogo. Haviam poucas coisas que não pudesse fazer com sua "magia"
Essam, que era um conhecido de Mudigirf de longa data, e assim
como drayno gélido odiava todos os dragões de outrora e o do presente
mais ainda.
Mas diferente de Mudigirf, que achava a vida de um mortal tão
fútil quanto uma pedrinha no meio da estrada, Essam possuía alguma
compaixão pelas raças de Gion, e não foi difícil convencê-lo a juntar-se
ao grupo.
Então, veio Guermanor.
Guermanor fora um dos combatentes das legiões draynas em tempos
passados, cujo poder era notável até naqueles tempos. Agora, no entanto,
rondava pelas regiões aos arredores de Gion Central, com as presas
escancaradas. Atacando, como um clarão repentino, todos os servos do
Trono e da Coroa, matando-os com rápidos relâmpagos que saíam tanto dos
céus quanto de suas presas.
Mas Guermanor nunca foi desses que morrem heroicamente, e sempre
que se via cercado pelos exércitos áureos e draconianos, percebendo que
sozinho não teria chances, revestia-se de correntes eletrizantes e voava
para longe numa velocidade impossível de ser alcançada.
Então descansava.
Retornando suas forças, fazia questão de metodicamente evitar
atacar os mesmo locais. Ao lugar disso, Guermanor atacava onde ninguém o
conhecia ou esperariam, com rápidas e bruscas chuvas de raios, trazendo
um horror fulminante para seus inimigos que se viam como que pegos pela
fúria de um deus.
E sua fama entre os exércitos do Dragão e do Demônio era de
conhecimento geral. Chegou a tanto que alguns tolos --- para a desolação
de Furion
--- passaram a chama-lo de Deus-Trovão, o que se tornou motivo de
comentários por todos os cantos.
Dizem que Rasgranar, Príncipe da Coroa, Lorde do Trono de
Gion, e Deus dos deuses e dos Imortais, o Abençoado pelas Chamas
Sagradas!, daria recompensas para qualquer um que localizasse o
paradeiro de Guermanor. E muitos áureos e draconianos acreditavam que
caso alguém conseguisse a cabeça do drayno e a entregasse a Rasgranar,
sem dúvida teria a riqueza de um mundo inteiro --- já que os prejuízos
por ele causados eram avaliados em nada menos que isso.
. Ora, entre as redondezas do ardente Trono do Dragão, havia dez
mundos principais. Oito governados pelos falsos-deuses, e os outros dois
eram, de fato, o trono do Dragão e do Demônio.
Calafrios de mal agouros percorriam cada escama de Guermanor ao se
imaginar investindo descaradamente contra estes dois. Mas também não
ousava se aproximar de mais quatro: os de Rasgranar, o Genocida, nem de
Malfenda, Jarmenur, Unurdan. Estes ele julgava demasiado louco aquele
que tentasse atacar. Assim sendo, lhe sobrava apenas quatro alvos para
sua fúria. E dentre estes havia um que ele amava odiar.
Este era Furion, que tinha um ódio recíproco, e que a si mesmo
se intitulava de Deus dos Trovões. E que recebera os mais duros golpes e
humilhações de Guermanor. De modo que até a mais leve menção do alcunho
do drayno era-lhe suficiente para provocar sua ira por anos a fio, e
esmagar com o peso de sua lança o primeiro a realizar tal infâmia.
Era como um presságio.
Sempre que o drayno relampejante atacava, Furion se remexia em
seu trono no sétimo mundo primário, cheio de ódio e repentinas
maquinações sobre o horrendo futuro que certamente daria a Guermanor
quando enfim o tivesse nas mãos.
--- Escama por escama, eu arrancarei, --- matutava Furion, repousando,
sobre seu trono no planeta Faytan. --- Presa por presa, quebrarei. Suas
asas serão meu tapete, estendido, bem aqui, diante do trono de meu
poder. Seu crânio, minha taça comemorativa com a qual brindarei e
beberei seu sangue. Então, finalmente, arrematarei sua carcaça aos meus
adoradores, para que queimem-na em deleitosas oferendas a Furion, o
verdadeiro Deus dos Trovões.
Talvez não fosse verdade a história da recompensa colocada por
Rasgranar, mas a de Furion, sim. Pois diziam que Furion repartiria o
domínio de um planeta inteiro a quem conseguisse lhe dar a satisfação de
ter Guermanor sobre seu domínio. E, embora meio mundo não constituísse
um grande rombo nas riquezas de Furion, não havia áureo que não vesse
nisso uma oportunidade cobiçosa.
E assim se deu que Furion, já não contendo seu ódio, dispôs
um tremendo exercito áureo a vagar em naves rumo um planeta isolado
muito para além das fronteiras de seu domínio. Sem nem um motivo
aparente.
Mas, se havia uma coisa que Guermanor odiava, eram áureos.
"Áureos! Áureos! Áureos e mais áureos! Áureos malditos e mais áureos
desgraçados!" praguejava amargamente sempre que se via recuando ante uma
frota de naves áureas.
E naquele dia, vendo a oportunidade de destruir algumas frotas
inimigas apresentar-se fácil, partiu veloz em suas asas relampejantes.
E Guermanor ataiou-lhes o caminho, armando emboscadas e
destruindo tudo o que pôde com tamanha facilidade que jamais lhe subiu a
mente à ideia de recuar. Assim continuou implacável até pousar no
planeta onde esperava armar mais ciladas para as grandes e desajeitadas
naves áureas.
Para sua infelicidade, porém, o planeta já não estava vazio como
pensara: hordas de demônios e áureos haviam sido preparadas para esse
momento. E quando avistaram o drayno pousar, saíram apresados de seus
esconderijos portando armas pesadas para furarem a couraça do drayno.
Percebendo isto, tentou fugir, mas não conseguiu, pois Furion
em pessoa se levantara de seu trono e barrava a fuga pelo ar.
Vendo-se sem opção, Guermanor lutou até o fim. Por dias e mais
dias, choveram relâmpagos e trovões, rasgando os céus e destrocando a
terra daquele mundo. Matou milhares de áureos e demônios, até que depois
de incontáveis golpes e ferimentos, por fim, entrou em um estado de
quase morte, despencando no chão com o peso de uma montanha --- sem
forças ou chances de escapatória.
E Furion, o falso-deus dos trovões, riu-se, satisfeito, quando
o drayno tombou. E para alegrar-se ainda mais preparou sua lança que ---
portada pela forma de combate do falso-deus ---, tinha quase cem
metros, e arrematou um raio sobre o peito desprotegido do drayno.
Mas o golpe não teve o efeito desejado, pois, ao ser atingido
pelo raio, uma centelha de vida ressurgiu em Guermanor. O drayno
ergueu-se como que do pós-vida, agarrou a lança do Falso e preparou seu
próprio golpe.
Uma trovoada recaiu sobre o local. E o clarão azulado dos
relâmpagos caindo sobre os dois gigantes, ofuscou a visão de todos os
áureos, demônios e a do próprio Furion.
Quando a luz passou Guermanor já estava longe, e Furion, ---
que não recebera golpe de Guermanor com os mesmos efeitos que o drayno
recebera o seu --- caído no chão, rugindo maldições e juras de ódio.
No entanto, Guermanor estava quase definhando. A essência de
vida do drayno evaporava-se como água fervente. Mas ainda assim,
envolveu-se com uma tempestade eletrizante e, como um raio gigantesco
cruzou o Vazio Entre as Estrelas, disparando a toda velocidade para o
mais longe possível, pois, incentivado por pensamentos agourentos,
sentia como se um exército de milhares de áureos pudesse aparecer a
qualquer momento com suas detestáveis naves para reivindicar a
recompensa pela sua preciosa cabeça.
Mas Essam, que tinha um poder de clarividência quase
infalível, muito distante daqueles acontecimentos viu Guermanor, e
apressou-se a chama todos quanto pode para partirem o encontro do drayno
ferido.
Venafelyn, Agradon e Essam --- Mudigirf não estava, pois havia
partido a Nevaeh sob ordens de Venafelyn ---, encontraram Guermanor e
levaram-no a Morada de Venafelyn. Para ser curado.
Depois disto, supunham que seria fácil convencê-lo a juntar-se a
eles.
No entanto, não foi.
Guermanor insistentemente dizia preferir manter-se pela própria
conta. Fazendo investidas temerárias e ataques surpresa contra os
exércitos do Dragão, tendo apenas sua própria vida como risco.
Mas assim mesmo, Guermanor ficou por um bom tempo repousando
por lá. A Morada de Venafelyn era um dos poucos lugares onde a visão dos
perseguidores de Guermanor não alcançava. E isso era tudo que o drayno
queria no momento.
E quando Mudigirf chegou os dois discutiram sobre essa
questão.
E mesmo que Mudigirf fosse um drayno frio, física e mentalmente,
Guermanor o irritou sobremodo com essas ideias estranhas que ele
possuía.
--- Também eu pensava como tu pensas --- disse Mudigirf, já bastante
irado --- e dizia comigo mesmo: "Ora, visto que sou tremendo em poder e
gloriosamente terrível em cada um de meus feitos, por que deveria
aliar-me contra meus inimigos?" ou "Se a presença de Mudigirf sobe aos
céus, e a estes congela, quem poderia enfrentar-me em terra?" pensava
eu, isolado em meu reino, manipulando minhas marionetes gélidas como se
fossem súditos reais. E, no entanto, mesmo o meu poder falhou ao
defender meu reino...
--- Então veio Venafelyn, este ca´elestibu, e ofereceu-me a proposta da
guerra, e eu aceitei. --- Com os olhos gélidos fixos em Guermanor.
continuou: --- Mas saiba de uma coisa, Guermanor: Mudigirf não fez isso
por vão sentimento. Fiz para proteger minha vida, pois sei que nem mesmo
meu poder é sozinho pareô contra aquele que se assenta no centro de
Gion. Tu por enquanto não percebestes isso, e disfarça tua ignorância
com vãs palavras sobre bravuras individuais. Mas eu sei que isso tudo é
falso. Tu temes enfrentar de uma vez por todas o terror do Devorador.
Nisso o drayno relampejante retrucava com ainda mais grosseira.
Mas Mudigirf se mostrou tão decidido que Guermanor teve de concordar.
--- Lute ao nosso lado de uma vez por todas. --- Dizia Mudigirf que
parecia amar o som de sua própria voz. ---Ou morra com crueldade e sem
esperanças quando enfim teus inimigos te pegarem sozinho e tu não
tiveres Essam ou Venafelyn para te resgatarem do frio da morte.
E assim o antigo soberano de Hjamurlna --- que também tivera um
pensamento parecido, embora não por razões tão nobres ---, conseguiu
convencer, ou ao menos pressionar, Guermanor a se aliar a causa.
E depois disso, Mudigirf conversou com Venafelyn , e logo o
ca´elestibu partiu, sozinho, em direção dos domínios de Ravilyna. De
Nevaeh.
Mudigirf, porém, conseguiu induzir Guermanor a acompanha-ló
para outras bandas de Gion. E assim os dois draynos enfezados partiram
em busca de novos aliados em um planeta sobre os domínios de Jarmenur,
chamado Gaol. Segundo Mudigirf, lá Guermanor teria a chance de provar
que não era um covarde usuário de emboscadas e ataques secretos.
Ora, Gaol era um antro de toda espécie de feras e seres
bestiais, e havia uma em especial que eles pretendiam encontrar por
lá...